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Quando o realizador checo Milos Forman (Voando sobre um Ninho de Cucos, 1975) bateu à porta do dramaturgo inglês Peter Shaffer… – e isto já é uma convenção semiótica da narrativa, porque até parece que em Hollywood andam sempre todos a bater às portas uns dos outros… E então, estava o Forman naquele truz, truz truz com que se anunciam os encontros felizes, e já Shaffer do outro lado da porta se inquietava. Houvera escrito Amadeus, em 1979, a peça (estará em cena, pela primeira vez em Lisboa, de 8 de Setembro e 6 de Novembro no Teatro Nacional) sobre a rivalidade entre o estimável e recatado compositor da corte austríaca Salieri e o genial, louco, infantilizado e exibicionista Mozart – antagonismo, esse, puramente ficcionado, sem qualquer rigor histórico, engendrado, aliás, pelo escritor russo Pushkin, para dar mais tensão dramática à história. Forman propunha-lhe agora a conversão para o cinema mas Schaffer temia o “ecranês”: “uma espécie de esperanto cinematográfico, igualmente compreendido em Bogotá e Bulawayo”. Além disso, sabia que o esperava uma dolorosa dose de trabalho de demolição de uma peça composta com tanta precisão musical, cada frase, cada cadência do verbo a coincidir com os gloriosos acordes da música de Mozart. Só para o começo da peça, Shaffer passara um ano a perseguir uma ideia. Forman não haveria de ficar do lado de fora da porta. Passaram quatro meses juntos, numa quinta do Connecticut, cinco dias por semana, doze horas por dia, em confrontos, hesitações, depressões e explosões de alegria, sentados a uma comprida mesa de jantar: “Como um velho casal, presos sob o jugo de um casamento temporário, cozinhando um para o outro”. Daqui resultou uma cena final climática totalmente diferente da da peça – o encontro entre o moribundo Mozart e o ávido Salieri, na derradeira escrita da célebre Missa de Réquiem, no fundo, para si próprio – e os oito Óscares, em 1984, para Amadeus, inclusive o de Melhor Filme. Quanto à premiadíssima peça, continua a circum-navegar, sendo uma das mais representadas do mundo, assegura Diogo Infante, que escolheu para si o papel de Salieri – o principal, pode dizer-se. Toda a peça gira em torno da perspectiva deste compositor da corte de Viena, cidade da música e da calúnia, um músico a consumir-se pelo próprio azedume, ao assistir ao jovem, disparatado, a disparar energia e humor escatológico em iguais dosagem, Mozart (Ivo Canelas) que esparramava genialidade pela partitura, como se Deus lhe soprasse ao ouvido “hamonias comprimidas, fugazes colisões, atrozes delícias” – “a beleza absoluta”, enfim. E enquanto o primeiro gerava vulgaridades, outro criava lendas. Imperdoável injustiça, invectivava Salieri, que corrompia a sua alma e também a reputação profissional de Mozart que, à conta de manobras palacianas e intrigas de corte, caía em desgraça, de espelunca em espelunca, óperas estreadas em, entre alemães vulgares, “com um cheiro a salsicha e a suor esmagador”, até à vala comum, numa morte prematura, sem glória nem reconhecimento. E aqui a peça sobre um escalão e ganha uma dimensão transcendental. A sua mágoa já não é só contemplar a genialidade fútil de Mozart, face à sua mediocridadezinha competente. Ou o talento inteiro e puro face ao virtuosismo suado e com esforço. Agora o seu confronto é com Deus: “Não vivia na terra para ser a Sua piada para a eternidade. Serei recordado senão pela fama, que seja pela infâmia”.
Numa peça com uma dezena e meia de actores em palco, Infante convidou o encenador inglês Tim Carrol, explica, não só pelo seu percurso prestigiado no Globe Theater, como pela sua ligação à música e à encenação de várias óperas. Além do mais, conta, tem formação em latim, o que facilita nas indicações do texto em português.
Para além do riso estridente e apatetado de Amadeus, há uma cena que se tornou icónica na representação da exiguidade mental: a parte em que o imperador Joseph II, da Áustria (João Lagarto),e que “adora música desde que não faça grandes exigências aos cérebro real”, comenta a ópera, com libreto alemão, O rapto do Serralho: “Demasiadas notas”. E vem a última linha de Salieri, para quem enfiar a carapuça, que ele já a tem enfiada (justiça lhe seja feita), branca e em forma cónica, na calva cabeça: “Medíocres de todo o mundo… os de agora e os que hão-de vir… eu vos absolvo a todos! Amém!”.