"Fazia a personagem da noiva. Tinha uma linguagem poética mas estava rodeada de personagens superficiais, que falavam do casamento, da dívida, do contrato… A noiva falava poeticamente porque não estava apaixonada pelo noivo, tinha uma paixão proibida. Foi a minha primeira paixão proibida em cena. O Pinto de Campos [cenógrafo] resolveu vestir-me de Nossa Senhora: lá ia eu, com uma coroa de macarena, para um casamento estranhíssimo que não queria ter. Era tudo muito estranho! (risos) Adorei fazer esta peça."Bodas de Sangue, de Federico García Lorca, Encenação de Carlos Avilez, Teatro Experimental de Cascais, 1968
"Foi um dos trabalhos que mais me entusiasmou. É a caminhada de uma mulher (de 200 kg), de casa até à estação de comboio para ir buscar o marido (que é cego), e de regresso, até descobrir que possivelmente o marido empurrou uma criança do comboio abaixo, matando-a. Estes textos um bocadinho escondidos permitem ao ator trabalhar num território fantástico: a dúvida, a descoberta de um ‘talvez’, as coisas que não se dizem no texto, que se trabalham interiormente e depois aparecem cá fora… uma certa aura."Todos Os Que Caem, de Samuel Beckett, Encenação de João Mota, Comuna, 2006
"É um espetáculo de que não me consigo esquecer. Estávamos sem dinheiro e a companhia estava a fazer uma peça de Dario Fo em que eu não entrava, então resolvi fazer um grande espetáculo sobre as personagens femininas de Gil Vicente (eram cerca de 12 personagens masculinas e 20 femininas).O Orlando Costa [ator] tinha o pé partido e como ele tocava muito bem viola, disse-lhe que me podia acompanhar em cena, a fazer música, com um pé esticado. (risos) E começámos a criar este espetáculo. Ele foi melhorando, às tantas já andava de um lado para o outro… Foi um daqueles momentos de graça. E foi aí que ‘descobri’ e me apaixonei pela escrita de Gil Vicente, um dos meus autores portugueses preferidos."É menino ou menina?, uma colagem de textos de Gil Vicente por Maria do Céu Guerra, Encenação de Hélder Costa, A Barraca, 1980
"É um texto absolutamente brilhante. Passa-se num barco onde a D. Maria espera que a vão buscar, depois da chegada ao Brasil. O rei, seu filho, não quis levá-la porque tinha medo que a chegada real fosse ensombrada pela perturbação da mãe, então deixou-a ali alguns dias, sozinha, com uma aia. E ali se revê o passado, se reflete sobre o presente, se sente, se vive. Mais uma vez, foi pelo texto que me apaixonei."D. Maria, a Louca, de Antônio Cunha, Encenação de Maria do Céu Guerra, A Barraca, 2011
"É uma fantasia teatral sobre a vida e a relação do Fernando Pessoa com a sua avó Dionísia Seabra Pessoa, um texto escrito para mim e para o Adérito Lopes. Foi um trabalho muito importante para mim. Não só porque gosto e conheço bem Pessoa, mas porque parecia que estava em casa, que aquilo era comigo. Estou mais velha, sou avó, a nossa sensibilidade vai mudando… Fazer aquela senhora de idade, um bocado maluca, foi muito interessante."Menino de Sua Avó, de Armando Nascimento Rosa, Encenação de Maria do Céu Guerra e Adérito Lopes, A Barraca, 2013
"Era uma peça que se desenvolvia em várias cenas curtas e, em cada uma delas, entrevia-se a razão que levava uma mulher a matar o seu interlocutor. O Fassbinder partiu de uma história verídica de uma serial killer para explorar a ideia de que esta mulher matava toda a gente que se interpunha entre ela e a sua liberdade. É uma peça completamente opaca. Permitiu-me trabalhar sobre a opacidade, o que é extremamente interessante para um ator, que procura ser transparente. O cenário era todo em acrílico transparente. Tudo era transparente menos ela e aquelas relações. Lembro-me com tanta saudade dessa peça por ela não se explicar! Por passarmos toda a vida a trabalhar a transparência e de repente a qualidade ser posta do outro lado. Como dizia o Julian Beck: «Fica uma mancha preta que um dia se tornará branca»."A Liberdade em Bremen, de Rainer Werner Fassbinder, Encenação de Hélder Costa, A Barraca, 1990
Rita Lello, Filha de Maria do Céu Guerra na primeira peça em que a mãe a dirigiu (Antígona, n'A Barraca, 2008)
Maria do Céu Guerra e Mário Viegas "Todos os espetáculos que fiz com o Mário foram de uma enorme leveza"
Em família Maria do Céu Guerra com os filhos Rita Lello (mãe do seu neto Vasco) e Mário Guerra
A vida e o teatro por Maria do Céu Guerra- A mulher, a atriz e a obra em exposição no Teatro Experimental de Cascais (TEC). Veja a fotogaleria, com a descrição da atriz.