Que caminho estamos a traçar como humanos nas nossas vivências do corpo e da sexualidade? Pode o futuro ser ditado por máquinas sem género sexual definido ou por mudanças científicas e tecnológicas que mudarão drasticamente a realidade como a conhecemos hoje? No seu mais recente livro, Corpo a Nu. Humanos, Ciborgues, Transumanos e Pós-Humanos, editado pela Afrontamento, Isabel Allegro de Magalhães, professora catedrática de Literatura Comparada na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, aposentada desde 2008, reflete sobre estas matérias que causam medo ou repulsa, apesar dos laivos de esperança que podem surgir.
Em Corpo a Nu assume que volta a ideias sobre as quais escreveu anteriormente, reconhecendo-se hoje nelas, “embora com menos certezas”. Que certezas tinha antes que não tem agora?
Os termos da diferença entre o masculino e o feminino. Continuo a achar que há diferenças, mas não são imutáveis. O que fica claro neste livro é que o facto de os corpos serem distintos produz necessariamente perceções, emoções e atitudes cognitivas que são diferentes entre homens e mulheres. Muito disso vem da História, temos uma herança dessas diferenças, mas não são essas que queremos manter. Não acredito que o corpo seja um pormenor na existência. Acho que nós somos o nosso corpo, e não sou só eu que acho isso, pois muitíssimas mulheres filósofas têm afirmado isso. Nós, mulheres e homens, somos o nosso próprio corpo, nem temos outro lugar para estar.
Mas esse corpo, segundo o seu livro, está em grande mutação. Há novas formas de corpos a surgir.
Pois, essa é outra etapa. Hoje em dia, graças às biotecnologias, às ciências diversas, computacionais, ou à engenharia genética, é possível fazer uma transformação dos corpos, e não é só fazer o que já se faz há bastante tempo, e que vai sendo cada vez mais aperfeiçoado, que é as pessoas mudarem de sexo. Não há muitos sexos, só dois. Mesmo os que antes se chamavam hermafroditas têm dois sexos na mesma pessoa, portanto, não há um terceiro sexo. Muita gente discorda disto, porque acha que, por exemplo, uma pessoa transgénero tem outro sexo. Eu acho que não, porque nunca se pode mudar totalmente de homem para mulher ou de mulher para homem, mas sim parcialmente.
O seu livro fala disso mesmo, explicando que, a nível genético, dos cromossomas, nunca é possível mudar completamente de sexo.
Exatamente.
Mas isso é muito polémico.
Sim, muito. Por exemplo, cito uma professora inglesa de Estudos Feministas, gay, que defende ser impossível um homem tornar-se totalmente mulher e o inverso. Há sempre esse elemento cromossómico em que não se pode intervir, porque todas as células do corpo estão marcadas pelo sexo. Podem mudar-se os órgãos e, sobretudo, as hormonas, total ou parcialmente.
Refere, na obra, que hoje há um “entendimento dilatado da sexualidade humana”, em prol de uma certa “aceitação social” de todas estas designações da sexualidade relacionadas com o universo LBTQ+. Caiu-se no exagero com todas estas designações?

Não. Ninguém tem o direito ou está à altura de julgar ninguém neste campo. Não sabemos o que está dentro da pessoa que decidiu assim ou que se relaciona deste e daquele modo. Portanto, acho que a comunidade LGBTQ+ tem de ser respeitada. Mas outra coisa é aquilo que se fez no Brasil e em Inglaterra, e também nos EUA, que foi questionar crianças de uma escola se queriam continuar a ser meninos ou meninas, com 4 anos de idade. E isso porque os médicos acham mais fácil evitar as hormonas e mudar logo [o sexo]. Do ponto de vista clínico, é mais fácil decidir mais cedo, mas do ponto de vista emocional e psicológico, é uma barbaridade, a meu ver. Nesse sentido, acho que se exagerou muito.
Tem formação na área da literatura. Pergunto-lhe como surgiu o interesse pelas questões do corpo, da sexualidade e da ligação às ciências.
Surgiu com o doutoramento, além de que pertenço ao movimento Graal [de inspiração cristã], onde procuramos desenvolver o ser das mulheres. Portanto, todas estas questões não são novidade [no meu trabalho]. O que pode ser novidade é o meu interesse pelo facto de as várias ciências existentes, desde a engenharia genética às biotecnologias, terem proporcionado a construção de diferenças que antes eram impensáveis. Agora é possível e até fácil.
Refere-se à mudança de sexo.
Essa é uma etapa, passar de um sexo para o outro, mas há outra, em que um organismo humano pode passar a ser composto por elementos não humanos. Com os ciborgues, por exemplo, o que se pretende é melhorar o ser humano.
Fala também do conceito de pós-humanismo no seu livro. Em que consiste?
O pós-humano é o que vemos em plena atividade na China, onde há um hospital que não tem humanos, em que tudo funciona com recurso a humanoides, robótica e computadores [o Tsinghua’s Agent Hospital]. É assustador, mas ao mesmo tempo acho imensa graça, adorava lá ir.
Esta poderá ser a nossa realidade daqui a meio século?
Acho que sim. Poderia haver vantagens, mas há o problema de se poder aplicar [esse modelo] à guerra e à área militar. Mas, em termos do poder dos humanoides que estão a ser produzidos, este é muito forte. No meu livro falo do caso de um cientista da Google que deixou a empresa e a investigação, referindo que havia o risco de se perder o próprio planeta, porque há o risco de os humanoides, com a acumulação de saberes, poderem agir autonomamente. Poderão até ter consciência, e essa é uma hipótese que as ciências colocam. Eu duvido, mas quem sou eu para duvidar? É um susto o que pode vir a acontecer.
O livro traça um percurso histórico dos movimentos feministas e de como o papel da mulher tem sido contado pelo homem, mas apresenta depois uma ideia de esperança, no sentido de as mulheres poderem fazer algo diferente. Todas estas novidades da ciência e da tecnologia podem transformar o conceito de feminismo, o papel da mulher?
Não sei se pode mudar o papel da mulher, porque nessa altura não sei se haverá mulheres.
Mulheres como hoje as entendemos. Os géneros também vão mudar completamente?
Não sei se os funcionários [robots] desse hospital na China têm género ou se se dividem entre homens e mulheres. Penso que não. São computadores com forma humana, com imensa plasticidade, e conseguem fazer um diagnóstico ou operar se for preciso. Podem até tomar decisões, o que é assustador. Tenho medo [que haja uma alteração de géneros], mas antes que isso aconteça, as mulheres na atualidade e das gerações seguintes podem preparar o caminho para que não tenhamos só máquinas, para que se guarde a memória de coisas que as máquinas não têm e que são positivas, como os afetos, o cuidado, o amor… O amor entre máquinas é impensável e não gera coisa nenhuma. Já há muitas experiências, e também falo disso no livro, feitas nos países nórdicos e na Mongólia. Refiro uma publicação que fala de alternativas a um mundo só técnico que venha a existir. Esse mundo, mesmo que tenha uma dimensão dominantemente técnica, pode ter dimensões humanas, com as mulheres a poderem contribuir para as guardar.
A certa altura, fala da “ambição cibernética da libertação do corpo” e de uma nova relação humana com a tecnologia que leva “ao triunfo do modelo patriarcal do sexo”.
Pois, isso é o perigo. Quem diz isso é a cientista Luciana Parisi, que também tem pânico de que isso aconteça. Portanto, são os perigos que estão diante de nós. Pode não acontecer. Portanto, talvez ainda vamos a tempo [de um retrocesso].
Mas, por exemplo, cita também a ideia de outro autor, relativamente ao conceito de sexo cibernético. Hoje em dia, já há muita gente que prefere ter namoradas virtuais, fazer sexo online sem um corpo físico. Portanto, este é um caminho que cada vez mais se traça.
Pode ser, mas isso pode ser contrariado. É este movimento que vai noutra direção, que pode ser liderado pelas mulheres. Recentemente assisti a uma emissão da BBC, passada no Japão, em que rapazes japoneses dizem preferir ter relações sexuais com bonecas que custam três a quatro mil euros, com temperatura corporal e textura humana, porque não têm obrigações. Um dos entrevistados diz que, no Japão, tudo o que recebem tem de ser devolvido, há a ideia da reciprocidade imediata, e com as bonecas não têm isso, não lhes devem nada. É horroroso, não é? A ideia de uma pessoa satisfazer-se assim.
A depressão e a solidão parecem ser as doenças deste século. Mas a tecnologia e a ciência, à medida que avançam, parecem não encontrar soluções para esses problemas, que são crescentes.
Não encontram. Em Portugal já existem os bebés reborn, por exemplo, e no Brasil é uma grande tendência. Levam-nos ao hospital. Gostava um dia de ver um, dizem que chora tal e qual como uma criança. Não percebo o que se passa naquele organismo, porque é uma coisa artificial. As mães que não têm ou não podem ter filhos ficam ligadas àquilo. É pior do que ficar ligado a um animal. É um objeto, não é um ser, um sujeito.
Estamos a caminho de mascarar emoções, sentimentos, de fazer de conta?
Não sei. Acho que estamos a caminho de exprimir e sentir emoções a partir de coisas que antes não emocionariam ninguém. A solidão é tal, a falta de afeto, de cuidado… e não tem de ser de relações sexuais, mas a falta de afeto verdadeiro, de ter amigos. Os animais substituem, muitas vezes, os filhos, e agora surgiram estes bebés reborn. Acho uma coisa arrepiante, mas ainda é pior fazer sexo com essas bonecas japonesas.
O livro interliga todos estes temas de que falámos até agora e apresenta uma visão de futuro. Logo no início diz que estamos perante “uma inquietante perda da substância própria da humanidade”, sem esquecer a perda da “capacidade de discurso”. Estamos a ficar menos capazes de dialogar e entender o outro? Há essa perda de humanidade?
Já estamos nessa fase, com as mensagens de WhatsApp, por exemplo, as redes sociais, os vídeos e a linguagem usada. Sendo professora de literatura, acho isso um horror. No livro refiro a experiência de uma amiga minha, linguista, com o ChatGPT, e pergunta se determinado filme é bom. A resposta que obtém é que [a plataforma] não pode ter opinião sobre o filme, mas apenas dizer onde ele é exibido, e a que horas. Não são exprimidas emoções ou sentimentos, não faz uma avaliação crítica sobre nada. Isso é o que acontece, por enquanto, mas veremos. Ninguém imaginava, há 20 anos, que isto seria possível. Há quem diga que o ChatGPT possa vir a ter consciência, mas veremos.
A Inteligência Artificial (IA) veio acelerar todas estas transformações produzidas pela ciência, ao nível do corpo e da sexualidade?
Sim. Pôs de pé um universo diferente onde ainda entramos perfeitamente e por isso estamos aqui a falar disso, mas pode chegar a um ponto em que já há pessoas que não são dos campos científicos e tecnológicos próprios, que não percebem bem o que se está a passar. Estamos a entrar num mundo que parece alargado, com os bebés reborn e as redes sociais, por exemplo, em que há uma democratização do acesso a muitas coisas. Porém, há uma falta de critério enorme e de conhecimento do que está verdadeiramente por detrás dessas coisas. Temos as fake news, uma pessoa fica impotente perante estas coisas. Quem tem uma atitude crítica pode duvidar, mas a maior parte das pessoas… Os meus sobrinhos, por exemplo, não duvidam nada do que veem. Com a IA há novas afirmações que não são verdade.
E há mais manipulação.
Há muito maior manipulação e é muito difícil não ser manipulado. Veja-se o que está a passar-se nos EUA, com o movimento MAGA [Make America Great Again], é uma coisa nunca antes vista. Vivi lá cinco anos, quando Reagan era Presidente, de 1980 a 1985.
Entristece-a ver os EUA desta forma?
Sim, muito. Vivi em Nova Iorque e na Califórnia, e apenas passei pelo meio, mas o meio é pior do que Freixo de Espada à Cinta do ponto de vista cultural. Eles não têm noção nenhuma, não sabem onde é Portugal ou o Brasil, não têm cultura nenhuma. Mas, depois, os grandes centros urbanos nas pontas, no Leste e no Oeste, têm os melhores crânios do mundo.
Há, então, uma desigualdade grande de conhecimento nos EUA.
Sim. E mesmo nos centros urbanos, há sempre quem tenha menos acesso a essa atitude crítica. Falo de pessoas que ou não foram à universidade ou entraram nas universidades estaduais, que é o mesmo que não ir. Há professores que não conseguiram boas notas e foram ensinar para as estaduais. Os EUA tinham as melhores universidades do mundo, mas está tudo a sair. Hoje, [os professores] quando fazem crítica, são postos fora. É uma tragédia o que está a passar-se nos EUA.
Se o corpo humano, a sexualidade, as relações humanas, estão a mudar tão depressa, como é que os governos e os sistemas políticos podem responder a isso? A política vai ser levada por esta onda de transformações?
Tenho muito medo de quais políticas podem fazer o quê. A política norte-americana, que é de extrema-direita… Alguém podia pensar que poderia haver um ditador nos EUA? Onde as relações homossexuais podem ser punidas, o aborto pode ser criminalizado, onde o movimento LGBTQ+ caiu e está proibidíssimo. Provavelmente não poderei entrar nos EUA porque presidi um movimento de libertação da Palestina e eles agora conseguem ver todo o nosso histórico e a pessoa fica retida no aeroporto, não entra no país.
E em Portugal, com o crescimento da extrema-direita?
Tenho medo. O Ventura não vai pôr ordem nisto. Ele agora está muito sossegadinho para podermos votar nele tranquilos, mas o que ele pensa e quer fazer é mudar a Constituição e transformar isto numa extrema-direita, porque é a onda ocidental.
O seu livro fala da sociedade num todo, mas também de minorias. Teme que em Portugal estas tenham um caminho cada vez mais difícil?
Com a extrema-direita, temo. Existem as minorias sexuais, que critico neste livro por não incluírem as minorias étnicas e económicas.
Como poderia ser feita essa inclusão?
Ter as iniciais LGBTQ+ e ter a letra E, de etnias. Qualquer coisa que desse a entender que essas pessoas também precisam de uma frente de apoio e de um movimento. São coisas muito diferentes, o étnico e o sexual, sendo que os étnicos têm os mesmos problemas sexuais que os outros, mas têm um problema acrescido, que é pertencerem a outras etnias.
Se o livro nos revela uma mudança tão grande em várias áreas da vida e da sociedade, onde fica a religião no meio de todas estas alterações tecnológicas? Deixa de haver Deus?
A meu ver, não. As religiões são puros instrumentos. Há o grande mistério, o Big Bang, e não sabemos nada do Universo, da origem. O Big Bang é a origem, mas o que é que originou isso? Os próprios cientistas não afirmam, mas não negam essa pré-existência. Sabem mais para poder negar. As pessoas que negam com muita facilidade, os ateus… Aceito melhor os agnósticos, que dizem não saber. Acredito, através do que chega até nós, que há um mistério, a que podemos chamar Deus ou outra coisa qualquer. Gosto muito da frase de um místico alemão do século XVII, Angelus Silesius, que diz mais ou menos isto: “Fiz de Deus o centro da minha vida. Não sei quem Deus é, por isso o escolhi.” Eu assino por baixo. Por mais feliz que tenha sido, só isto [o mundo e a vida não espiritual] não basta.