“Quem morre em combate vira herói. Se disser alguma coisa contra Savimbi, sei que vou incomodar até a juventude que está hoje na linha da frente da luta pela democracia e que idealiza a figura dele”

José Carlos Carvalho

“Quem morre em combate vira herói. Se disser alguma coisa contra Savimbi, sei que vou incomodar até a juventude que está hoje na linha da frente da luta pela democracia e que idealiza a figura dele”

Durante a longa guerra civil angolana, Abel Chivukuvuku serviu com lealdade o fundador e líder da UNITA, Jonas Savimbi. Foi soldado, comandante de ousadas operações, membro da secreta militar e diplomata, no estrangeiro ou como elemento das delegações do movimento do Galo Negro nas sempre frustradas negociações de paz com o regime de José Eduardo dos Santos, do MPLA, no poder desde a independência do país, em novembro de 1975. Mas tal lealdade não venceu a mania da perseguição de Savimbi: vivia “obcecado com a possibilidade” de o seu pupilo “dar um ‘golpe de Estado’”, diz, em entrevista à VISÃO, o multipremiado escritor angolano José Eduardo Agualusa, 63 anos, que agora lançou, em Angola e em Portugal, o seu livro Vidas e Mortes de Abel ChivukuvukuUma Biografia de Angola (Quetzal, 256 págs., €18,80). Ao longo da guerra, o biografado – descendente direto de Ekuikui II, que reinou no Bailundo e que, entre 1876 e 1890, resistiu à ocupação portuguesa do planalto central angolano – sobreviveu a duas quedas de avião, um atentado, uma tentativa de linchamento e a várias conspirações e ameaças. Tudo isto se conjugou para Agualusa contar naquele livro – como o próprio explica nesta entrevista – uma história contemporânea de Angola diferente da narrativa oficial feita a partir de Luanda pelo partido do poder. Sem poupar, no entanto, a liderança autocrática de Savimbi (morto em combate, em fevereiro de 2002, aos 67 anos), cujo mito “ressurgiu entre a juventude com uma força enorme”, nota o escritor. “Quem morre em combate vira herói”, resume. Mas diz-se “muito otimista” em relação ao futuro de Angola e assume-se fascinado pela figura de Chivukuvuku, 66 anos, “um pacificador”, que, em 2012, saiu da UNITA e iniciou um percurso político próprio. À pergunta sobre se gostava de o ver como um forte candidato da oposição nas eleições de 2027, Agualusa responde com graça: “Eu e a torcida do Flamengo.”

Fez questão de primeiro lançar este seu livro em Angola, e supõe-se que ficou satisfeito com o que aconteceu no Instituto Camões, em Luanda…
Correu muito melhor do que tudo o que tinha imaginado. Provavelmente, foi o maior lançamento de um livro que se fez em Angola, com largas centenas de pessoas, e, mesmo aqui em Portugal, não acredito que alguma vez tenha acontecido algo de parecido, com tanta gente. Abel Chivukuvuku atrai muita gente, muita juventude. Não era o público normal de um lançamento literário. E as centenas de exemplares que a editora então disponibilizou esgotaram-se ali mesmo.

O MPLA esteve por lá?
Com pouca gente, alguns dirigentes. E também não havia muitos da UNITA.

Pode tirar-se daí algum significado?
Talvez algumas pessoas não se sentissem à vontade, tanto de um lado como do outro. Porque o livro é sobre Abel Chivukuvuku, primeiro, e depois porque sei que a família de Jonas Savimbi não ficou satisfeita com algumas partes que lá estão. Deduzo, por isso, que alguns setores da UNITA não se sentissem muito à vontade para estarem presentes.

O savimbismo ainda é assim tão influente na UNITA?
Sim, e é uma fação muito forte. Tanto o MPLA como a UNITA deveriam distanciar-se das heranças totalitárias de Agostinho Neto e de Savimbi. Mas isso não está a acontecer, antes pelo contrário: nos últimos anos, o mito de Savimbi ressurgiu entre a juventude com uma força enorme.

Porquê?
Porque Savimbi morreu em circunstâncias trágicas, foi morto em combate. Valoriza-se essa parte – quem morre em combate vira herói. Se disser alguma coisa contra Savimbi, sei que vou incomodar até a juventude que está hoje na linha da frente da luta pela democracia e que idealiza a figura dele.

Mas denuncia, no seu livro, um crime estarrecedor, ocorrido a 7 de setembro de 1983, na Jamba, em que 19 mulheres e duas crianças foram queimadas vivas, acusadas de feitiçaria, por ordem e na presença de Savimbi…
Essa denúncia foi feita várias vezes. Inclusive, recorro a um livro extraordinário [Heroínas da Dignidade, de 2020], que devia ser lido por toda a gente em Angola, da Florbela Malaquias [à época, 1983, capitã das FALA, braço armado da UNITA], que viveu aquela situação. É um livro que não teve a repercussão que merece.

Dado o peso da corrente savimbista, que referiu, diria que a inclinação totalitária subsiste hoje na UNITA?
Não. A UNITA, hoje, é outra coisa. Mas continua colada à imagem de Savimbi. E é difícil fazer a descolagem. Entendo isso: o atual líder, Adalberto Costa Júnior, teria enormes dificuldades em descolar-se da figura de Savimbi. Ainda assim, em algum momento isso tem de ser feito.

Além de que se percebe, no seu livro, que Savimbi tinha uma acentuada mania da perseguição e que Abel Chivukuvuku foi muito vítima disso…
Não foi o único. Abel sobreviveu e houve outros que não sobreviveram. Savimbi criou o sistema da UNITA num contexto de isolamento interno. E a maior parte dessas pessoas vivem obcecadas com quem lhes possa fazer frente. São muito interessantes as conversas que, depois, se transformam em discussões, e que o livro aborda, entre Savimbi e Abel. Sempre porque Savimbi estava obcecado com a possibilidade de Abel dar um “golpe de Estado”. Esse era o problema. Savimbi conseguiu gerar um movimento extraordinário e, de facto, era capaz de selecionar e de apoiar a criação de quadros, mas, ao mesmo tempo e em grande medida, destruiu a UNITA. Mandou assassinar alguns dos quadros mais importantes do partido.

Por outro lado, refere, no seu livro, a forma “desrespeitosa” como o poder de Luanda mostrou ao público o cadáver de Savimbi, e faz até uma analogia com a apresentação do corpo de Che, quando foi abatido na Bolívia. Esse pode também ser um fator para a mitificação de Savimbi entre a juventude angolana, a que aludiu?
Sem dúvida, sendo que Che também é uma figura sujeita a várias interpretações. Mas as pessoas não são completamente boas nem completamente más. Savimbi tinha grandes qualidades e grandes defeitos. O problema é que, muitas vezes, colocou as suas melhores qualidades ao serviço dos seus piores defeitos. Fez coisas horrorosas. Mas também entendo que é preciso separar e reconhecer que Savimbi teve um papel importante num determinado sentido e, ao mesmo tempo, reconhecer que cometeu crimes. E o mesmo digo de Agostinho Neto.

Porque decidiu, neste livro, partir da figura de Abel Chivukuvuku para fazer uma biografia contemporânea de Angola?
Contar a vida de Abel é também contar a história recente de Angola. E até fui atrás, porque um dos capítulos do livro, que me deu particular prazer em escrever, é sobre a formação do reino do Bailundo, ao qual Abel está ligado por laços de sangue. O que me fascinou foi, por um lado, a trajetória de Abel, que tem uma vida romanesca, muito aventurosa, mas que, ao mesmo tempo, está colada à história recente de Angola. E numa perspetiva que não é aquela a que estamos mais habituados – a da história de Angola contada a partir de Luanda. Esta é uma possibilidade de contar a história recente de Angola a partir do planalto central. Portanto, é uma outra história de Angola.

Como lhe surgiu esta ideia?
Este livro levou-me uns três anos a fazer, desde o momento em que comecei a recolher entrevistas até à escrita. E a ideia surgiu aos poucos. Comecei a perceber que, ao contar a história de Abel, poderia aproveitar para contar algo mais amplo. Acho que isso é importante, sobretudo no caso de Angola – os livros também servem para aproximar as pessoas e para mostrar o outro lado, que é, ainda hoje, menos conhecido. As pessoas, em Luanda, habituaram-se a uma determinada história oficial, a do partido do poder. E essa história, vista a partir de Luanda, faz com que as pessoas conheçam pouco do outro lado. Parece-me ser essa uma das razões por que o livro está a ter tanto sucesso em Angola.

Desde muito novo e durante largos anos, Abel Chivukuvuku serviu com lealdade uma liderança violentamente autocrática, a de Jonas Savimbi. Como se pode agora olhar para Chivukuvuku enquanto dirigente de perfil democrata, tendo em conta esse passado?
Todos os dirigentes em Angola vieram desses passados. São diferentes passados, mas todos eram totalitários. Não conheço ninguém em Angola, nem o mais velho Mário Pinto de Andrade [primeiro presidente do MPLA, entre 1959 e 1960], que não tenha vindo de um pensamento totalitário. A situação de Abel é, pois, equivalente à de qualquer dirigente político em Angola com mais de 50 anos.

Mas diria que é, hoje, um dirigente democrata autêntico?
Estou convencido disso.

Estou muito otimista em relação a Angola. Por várias razões. Uma delas tem que ver com a força atual da sociedade civil e da juventude angolana. Isso dá muita esperança

Já agora: o que diz Abel Chivukuvuku sobre o feminicídio de setembro de 1983, na Jamba?
À época, estava em Kinshasa e diz que apenas lhe chegavam ecos. Não soube direta e imediatamente. Só soube muito mais tarde. É o que ele diz.

Mas aceita que tenha acontecido?
Aceita ele e toda a gente. A UNITA não nega que esse episódio aconteceu. O que alegam é que aconteceu num contexto de guerra e por aí adiante, embora não haja justificação possível, como é óbvio.

Como viu as eleições de 2022, em que, enquanto independente, Abel Chivukuvuku concorreu à vice-presidência da República, como nº 2 do líder da UNITA, Adalberto Costa Júnior, e em que a vitória do MPLA foi muito contestada? 
Dentro do partido no poder, há agora um dilema: o MPLA sabe que certamente não ganhou as eleições de 2022, ao contrário dos resultados oficiais então divulgados, e mais consciência tem da dificuldade em vencer as próximas, em 2027. Entrarão nessa disputa eleitoral ainda mais divididos do que estavam antes. O que acontece agora é que a oposição está mais unida e mais forte, e o MPLA está cada vez mais enfraquecido e mais dividido. Por isso, é muito difícil que ganhe as próximas eleições, mesmo com fraude. E a dificuldade de executar uma fraude em larga escala viu-se nas eleições de 2022: o MPLA perdeu em Luanda, desde sempre o seu principal bastião e onde se concentra quase um terço da população angolana. A coligação informal liderada pela UNITA e que Abel integrava arrecadou, na capital, 62% dos votos, uma percentagem significativa. Neste momento, diria, nem o próprio MPLA acredita que ganhará as próximas eleições.

As divisões no MPLA resultam de uma liderança fraca do Presidente João Lourenço?
O Presidente João Lourenço foi apanhado por um conjunto de circunstâncias complicadas. O MPLA sempre foi um partido muito dividido, não é de agora. Mas essas divisões acentuaram-se a partir do momento em que o Presidente decide, e muito bem, que a prioridade é o combate à corrupção, num partido que é o epicentro da corrupção em Angola. Logo aí, abriu uma guerra com um setor importante do MPLA – e esse conflito está hoje em pleno. Há uma fratura enorme. Não é só uma questão de liderança fraca ou forte, são mesmo as circunstâncias e a própria natureza do MPLA.

Diria que o Presidente está também a pagar a fatura de ter afrontado o clã de José Eduardo dos Santos, sobretudo Isabel dos Santos?
Isso custa-lhe alguma coisa, com certeza. Há várias outras fações e divisões dentro do MPLA. Mas sem dúvida que o facto de ter afrontado diretamente esse clã – como lhe chamou, não fui eu – teve e está a ter custos.

Foto: José Carlos Carvalho

Os mandatos de João Lourenço, até ao momento, vão ficar na História de Angola de que forma, na sua opinião?
Acho que começou muito bem o primeiro mandato, com a política de reconciliação e de aproximação. Chamou uma série de figuras da sociedade civil, condecorou algumas, como Rafael Marques. E recebeu Luaty Beirão. Naquela altura, isso teve um impacto muito grande na sociedade angolana, de abertura, de reconciliação séria, de pacificação. A segunda fase, de combate à corrupção, também, a meu ver, foi muito boa, muito importante. Depois, por questões que provavelmente são alheias ao seu próprio desejo, acho que foi forçado a afrouxar esse combate à corrupção e a manter algumas pessoas que deveriam também ter sido atingidas por ele. Acabou por ser, de facto, um combate algo seletivo. Mas talvez não pudesse fazer mais no contexto em que está. O MPLA, ao longo destes anos, abrigou e protegeu os maiores corruptos do país. Ainda que eu acredite na sinceridade do Presidente João Lourenço, a verdade é que ele teria sempre um desafio muito difícil pela frente.

Enquanto isso, Abel Chivukuvuku tenta legalizar o Partido do Renascimento Angolano – Juntos por Angola [PRA-JA], sem sucesso, desde 2019, devido a obstruções sucessivas do Tribunal Constitucional. Como vê esta situação?
O Tribunal Constitucional, infelizmente, está inquinado. Toda a gente sabe que, em Angola, o poder judicial não é independente do poder político.

Parece estar a falar de um Estado de direito democrático ficcionado.
Nós não temos nem eleições para o poder local, que o MPLA promete há décadas. Acho que não se pode falar em democracia num país que não tem ainda eleições autárquicas. O que temos em Angola é qualquer coisa que está a caminho de uma democracia, mas ainda não é uma democracia. E, depois, há a questão da independência do poder judicial, outro fator importantíssimo em Angola.

Se há problemas mesmo ao nível do Tribunal Constitucional…
Esses problemas existem a todos os níveis do poder judicial. O facto de o MPLA ter sido sempre o poder inquinou as estruturas – e um dos grandes desafios é despartidarizar todo o aparelho de Estado. Quando se tem uma bandeira nacional que é semelhante à bandeira do partido no poder – o que inclusive é, em termos constitucionais, proibido, mas está lá –, isso diz muito. Houve sempre essa confusão deliberada durante largos anos entre o partido e o Estado. Por isso é que é tão importante haver realmente uma alternância democrática, para despartidarizar o aparelho estatal e para purificar o próprio MPLA, que ganharia com isso, sendo durante algum tempo um partido da oposição.

Gostava de ver Abel Chivukuvuku como um forte candidato da oposição, nas eleições de 2027?
Eu e a torcida do Flamengo. Quer dizer: muita gente em Angola gostaria que isso acontecesse, inclusive numerosas pessoas dentro do MPLA.

O que podia ele trazer de novo?
Um dos motivos por que, hoje, tanta gente se sente fascinada pela figura de Abel, independentemente das simpatias políticas, é o facto de ele ser um pacificador. Isso é muito claro. E um articulador – é uma pessoa capaz de falar com toda a gente. Por exemplo, uma das polémicas mais recentes em Angola foi quando Abel assumiu que o Presidente da República, João Lourenço, é seu amigo. Isso caiu muito mal, porque muita gente na oposição se perguntou: “Como é possível?” E, nos eventos em que estivemos juntos, apresentando o livro, essa situação veio a lume. E Abel voltou a defender algo que deveria ser básico, que é: “Posso ser amigo do Presidente da República e ser adversário político dele. Isto, numa democracia, não deve ser um problema. Até é bom que eu seja amigo, que essas ligações existam.” Mas dizer isto hoje, em Angola, ainda é um problema.

Como vê o futuro de Angola?
Estou muito otimista. Por várias razões. Uma delas tem que ver com a força atual da sociedade civil e da juventude angolana. Isso dá muita esperança à dinâmica de democratização. Depois, Angola é hoje uma das nações africanas com mais unidade em termos de projeto como país. Por exemplo, já não temos o voto étnico, o que é curioso.

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