Stella Assange não gosta de palco. E isto nota-se. Sentada no Altice Arena, rodeada dos cubos luminosos que são a imagem de marca da Web Summit, a mulher de Julian Assange titubeia quando lhe é dada a palavra, tem dificuldade em olhar para a plateia, que a aplaude várias vezes, contorce as mãos, com unhas muito curtas e ar roído. A vida desta advogada, mãe de dois rapazes, filhos do jornalista fundador da WikiLeaks, Julian Assange não tem sido fácil desde que se apaixonou pelo ativista. Se enfrenta o público, na tarde do último dia do maior evento de tecnologia, é porque “o maior risco é que os nossos filhos cresçam sem pai”, confessa emocionada.
Numa comunicação dura, Stella não poupa críticas. A Joe Biden, que perpetua as políticas persecutórias de Donald Trump – “a administração Biden continuou as medidas mais perigosas do Trump, este processo [contra Assange] criminaliza o direito do público de saber a verdade” – e aos próprios jornalistas, em particular aos do The Economist, que segundo a advogada assumiram uma posição contra a WikiLeaks por causa das denúncias contra Hillary Clinton. “Se Julian não tivesse sido tão mal representado na imprensa, não estaria preso”, acredita. “Precisamos dele livre e com capacidade para falar”, instiga, insistindo que Julian é cidadão australiano que atuava na Europa e que, portanto, os EUA estão a exercer poder fora da sua jurisdição.
A lei e os seus intrincados meandros continuaram em palco no momento do anúncio da startup vencedora do pitch. Um dos mais aguardados do evento. Apresentaram-se as três finalistas – Kinderpedia, de conteúdos educacionais para crianças, e que foi a preferida do público, a Cognimate, de programação, e a Inspira, que simplifica a consulta de processos judiciais.
A vitória desta última trouxe lágrimas e o grito de “viva o Brasil”. Com sede em São Paulo, a Inspira tira partido de ferramentas de Inteligência Artificial para tornar mais fácil e rápido o trabalho de advogados. “O Brasil, atualmente, é o país que mais gasta dinheiro no mundo com o Poder Judiciário (proporcionalmente em relação ao PIB)”, descrevem os fundadores. “O Inspira é o seu assistente jurídico de IA para otimizar tarefas do dia a dia como pesquisas, gestão do conhecimento, leituras, análises e elaboração de relatórios.”
A IA pode ajudar, certamente. Mas é preciso estar de olho nela, insistiu Chelsea Manning, ex-militar transgénero americana, ativista e denunciante, que passou por Lisboa para avisar que os tempos que se aproximam serão de cada vez mais dúvidas entre o real e o fictício, graças à esperada profusão de deepfakes. O que vem complicar, ainda mais, a tarefa de perceber o que está certo e o que está errado e para que lado deve pender a lei.