A arruada pelos jardins da Fundação Gulbenkian já é um clássico neste dia de festa de ‘Miúdos a Votos’, momento em que são conhecidos os livros mais votados pelos alunos do País, do 1º ciclo ao secundário.
Já tinham terminado o almoço-piquenique quando as turmas se reagruparam e empunharam os seus cartazes com slogans inspiradores, como “literatura em ação”, e apelos a “mais leitura, mais cultura”. Há quem tenha o megafone vermelho na boca para fazer valer palavras de ordem e há quem toque bombo (Escola Básica da Barranha, Senhora da Hora).

Liana vestiu-se hoje de pequena Fada Oriana e Vitória de velhinha, personagem do livro A Viúva e O Papagaio. As duas explicam-nos a diferença entre caixas, bombos e timbalões, os maiores, e tocados com duas baquetas. Ao longo deste ano letivo, tiveram aulas duas vezes por semana para aprenderem os ritmos e os movimentos de coreografias simples.

Todos aos seus lugares, o espetáculo vai começar.
Leonardo Pereira, 13 anos e Sara Claro, 17, são locutores da Rádio Miúdos e estão a postos para conduzirem a grande festa de ‘Miúdos a Votos: Quais os livros mais fixes?’.

Sabemos que houve 121 060 votantes, alunos de 960 escolas do País, divididas por 420 do Norte, 137 do Centro, 48 do Alentejo, 71 do Algarve, 283 da Área Metropolitana de Lisboa e duas de França. O 1º ciclo foi aquele que teve mais escolas inscritas (436), seguido do 2º (248), 3º (213) e secundário (63).
Esta edição, que já é a nona, bateu o recorde de votos, a caminho de triplicar os 53 mil da primeira edição, em 2017, e longe, longe da mais baixa participação, 16 mil, durante a pandemia em 2020.
Todas estas informações foram partilhadas por Luísa Loura, diretora da Pordata, que sugeriu a leitura de Um Gentleman em Moscovo, de Amor Towles, aos estudantes mais velhos do ensino secundário.

As apresentações levadas a palco pelas diversas escolas tanto celebraram Luiz Vaz de Camões e os 500 anos do nascimento do maior escritor português de sempre e grande aventureiro, como alguns temas das principais obras em campanha (bullying, discriminação, guerra ou amizade).
Na festa do ano passado, assinalaram-se os 50 anos do 25 de Abril de 1974. Desta vez, evocaram-se os 50 anos das primeiras eleições livres em Portugal, em que 91% dos eleitores foram votar na assembleia constituinte, um recorde nunca mais batido. Veremos o que acontece este domingo, 18, nos resultados das eleições legislativas.

Antes da primeira atuação, Manuela Pargana Silva, coordenadora da Rede de Bibliotecas Escolares sublinhou a importância da iniciativa: “É a festa da promoção do livro, da leitura e da liberdade. As crianças e adolescentes são os decisores. Votar permite fazer melhores escolhas.” E não desceu do palco sem antes deixar a sugestão de um livro para lerem, Era Duas Vezes o Barão Lamberto, de Gianni Rodari.

Camões vestido de veludo preto e pala no olho direito, um saltimbanco cheio de energia e três donzelas serenas, jovens da Escola Básica do Carandá, de Braga, apresentaram a sua ‘Miscelânea de Camões’. Seguiu-se um grupo de Guimarães, da Escola Básica de Cruz de Argola, lembrando José Saramago, o único escritor português que recebeu um Prémio Nobel, e o seu conto infantil A Maior Flor do Mundo.

Durante o ano letivo, muitos dos intervalos entre as aulas dos alunos do 4º ano da Escola Básica de São Lázaro, de Braga, foram passados a tratarem da produção de todos os adereços para virem apresentar o seu livro preferido, uma novidade nas lista dos livros-candidatos: Coelho vs Macaco. E é com eles que entram em palco. São cartazes e faixas ao alto, fantoches de mão e cabeçorras das várias personagens do livro, feitas em plasticina.

Não há duas turmas iguais e cada uma escolheu um livro que serviu de inspiração: E Se Os Bichos Se Vestissem Como Gente, de Luísa Ducla Soares, para os estudantes da Escola Básica de São Faustino, de Guimarães ou A Fada Oriana, de Sophia de Mello Breyner Andresen, para os da Escola Básica Mestre Martins Correia, da Golegã, com um grupo de meninas a subirem ao palco com saias e vestidos em tule, flores e tranças nos cabelos, representando fadas e rainhas eternas.
É emocionante assistir dos últimos lugares do auditório à revelação dos livros mais votados. Anunciados os terceiros e segundos lugares, os miúdos não se aguentam sentados e começam a elevar-se à medida que o gráfico cresce para revelar, finalmente, o mais votado de todos.

A seguir é a explosão de palmas para O Diário de Um Banana 1: Edição Especial Toque do Queijo, de Jeff Kinney (1º ciclo) e Gravity Falls – Diário 3, de Alex Hirsch, Rob Renzetti (2º ciclo).
Coube à subdiretora da VISÃO, Sara Belo Luís, fazer a revelação. E também ela deixou uma sugestão de leitura: Atlas das Viagens e dos Exploradores, de Isabel Minhós Martins e Bernardo P. Carvalho, com biografias de grandes exploradores que se fizeram à estrada muitos anos antes de existirem… estradas.

Apesar dos momentos descontraídos e de gargalhada, também houve tempo para assuntos sérios. Os alunos da Escola Básica de Óbidos escolheram O Rapaz Milionário, de David Walliams para falarem de como não somos todos iguais fisicamente, mas todos merecemos ser respeitados por essas diferenças. No fundo, falaram de como o bullying pode ser uma experiência traumática e apelaram à sua denúncia.

Foi depois dessa divertida dramatização que os poemas de Camões voltaram a ser cantados pelos alunos de Braga. Desta vez, um dos sonetos mais conhecidos do autor, Amor é fogo que arde sem se ver. Mas numa versão rap muito enérgica.

A mensagem de Guilherme d’Oliveira Martins, presidente da Fundação Gulbenkian, costuma pôr-nos a pensar e, mais uma vez, conseguiu. “Ler é podermos compreender a vida, a existência, a realidade que temos. Votar é escolher, dizer o que pensamos, partilhando”, começou por dizer.
Lembrou também o pensamento de Umberto Eco, escritor e filósofo italiano, que dizia: “Uma pessoa que não lê vive apenas o tempo exato e curto da sua vida. Quem lê vive várias vidas, que podem recuar cinco mil anos, a idade das civilizações que nos influenciaram.”

Seguiu-se um bom momento musical, fácil de trautear. Os alunos da Escola Básica do Alvito, em Óbidos, pegaram na música Conquistador da banda portuguesa Da Vinci, selecionada para representar Portugal no Festival Eurovisão da Canção 1989, e deram-lhe uma nova letra alusiva ao universo de Harry Potter. O público acompanhou com efusivas palmas que encheram o auditório.

Culpa Minha, de Mercedes Ron, foi o livro mais votado no 3º ciclo e O Rapaz do Pijama às Riscas, de John Boyne, deu o mote para a Escola Básica e Secundária Dr. Ferreira da Silva, de Oliveira de Azeméis, apresentar o seu booktrailer que termina com a máxima: “Uma história de inocência num mundo de ignorância”.
A mesma obra, que fala da amizade entre dois adolescentes durante a II Guerra Mundial, serviu para a performance de dança, cuidada e elegante, das alunas da Escola Secundária de Paços de Ferreira.
Na reta final, subiu ao palco Rui Tavares Guedes, diretor da VISÃO e da VISÃO Júnior. Levava no bolso Contos do Gin-Tonic de Mário-Henrique Leiria, que o jornalista terá lido por volta dos 17 anos quando “é preciso começarmos a pensar pela própria cabeça”. “Nada melhor do que o poder da imaginação através dos livros para ajudar”, aconselhou.

Foi ele quem revelou o livro mais votado no Secundário, Isto Acaba Aqui, de Colleen Hoover. Uma obra “impactante, devastadora e profunda”, na opinião dos alunos do 10º ano da Escola Secundária de Paços de Ferreira. Fala-nos de abuso físico e psicológico, e incentiva os leitores a denunciar os casos e a pedir ajuda aos adultos, familiares e professores. Um alerta importante.
Esta foi uma edição com uma novidade, a atribuição do Prémio Melhor Campanha, cujo objetivo é reconhecer e valorizar as campanhas eleitorais mais participativas, aquelas que saíram à rua e se envolveram-com a comunidade. Foram quatro as escolas vencedoras que levaram para casa 600 euros.
João Pedro Costa, coordenador da Rádio Miúdos – que também leu uma parábola de Mário-Henrique Leiria e sugeriu a leitura de O Velho e O Mar, de Ernest Hemingway – anunciou as escolas vencedoras. Foram elas a Escolas Básica da Serra das Minas, em Sintra, a EB2/3 Paula Vicente, de Lisboa, e as Secundárias de Ponte de Sor e Padre António Martins Oliveira em Lagoa, Algarve.

A despedida fez-se ao som do hino criado pela Escola Básica da Barranha, da Senhora da Hora, Matosinhos, que pegou na música tradicional A Saia da Carolina e lhe deu uma nova letra, invocando muitas das personagens dos livros-candidatos que passaram este ano po ‘Miúdos a Votos: Quais os Livros mais fixes?’, como Ulisses, Ali Babá, a Fada Oriana ou Harry Potter. Uma festa que foi uma verdadeira inspiração.
