Há uns anos, uma pergunta, aparentemente inocente, deixou-o com a pulga atrás da orelha: “Em que ano nasceste”, inquiriu uma colega do investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA), na Universidade de Coimbra, Nuno Peixinho. Foi a questão relativamente à data de nascimento, em lugar da mais vulgar pergunta sobre a idade, aliada ao facto de a astrónoma fazer parte do Grupo de Trabalho para a Nomenclatura de Pequenos Corpos da União Astronómica Internacional (IAU) que o deixou na expectativa. “Quando se dá o nome de uma pessoa a um asteroide, a sua data de nascimento também aparece no catálogo final”, explica. A cada três ano a IAU apresenta uma nova lista de ‘batismos’ e Nuno Peixinho começou a sonhar com a distinção, uma “espécie de óscares”, brinca. Entretanto meteu-se a pandemia, o mundo ficou de cabeça para baixo e Peixinho nunca mais pensou no assunto. Até que uma colega, que também faz parte da lista apresentada este mês, o avisou. Já é oficial: o asteroide antes conhecido como 1998 SL56 é agora designado (40210) Peixinho.

O astrónomo, de 50 anos, é bem conhecido no meio, nacional e internacional. Fez um pós-doc no Havai – onde viveu dois anos num apartamento de nove metros quadrados – passou três anos em Antofagasta, no Chile, onde fez investigação e pelo meio foi trabalhando em Portugal, quase sempre em investigação, mas também em divulgação de Ciência. Ao longo deste tempo todo – mais de vinte anos – nunca teve, em Portugal, um contrato sem termo.
“Toda a vida fui um trabalhador precário”, sublinha. Ex-dirigente da Associação de Bolseiros de Investigação Científica (ABIC), admite que, apesar de tudo, ao longo deste tempo foram dados alguns passos positivos pelos trabalhadores cientificos em Portugal, como o Seguro Social Voluntário (SSV), que passou a existir no início deste século para os investigadores com estatuto de bolseiros, e a substituição de várias bolsas por reais contratos de trabalho a termo. No entanto, a Fundação para a Ciência e Tecnologia, o financiador de quase todas as bolsas, paga apenas o SSV correspondente ao ordenado mínimo. Além disso, só podem usufruir desta contribuição os bolseiros com contratos com duração superior a seis meses. “Na altura [em que foi aprovada a contribuição], ninguém se preocupou com isso, porque a pessoa pensa que é uma situação passageira. Só que há quem chegue a estar vinte anos como bolseiro, portanto a descontar como se recebesse o salário mínimo”. O que além de penalizar muito a reforma também limita a obtenção de um empréstimo bancário, por exemplo. “Para um bolseiro, ter um empréstimo é um castigo!”
Independentemente das desavenças com o Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, que insiste, relata Peixinho, que um contrato, mesmo a termo, não confere uma situação de precariedade, o astrónomo está, obviamente, feliz com a distinção que é um reconhecimento pelo estudo de pequenos corpos do Sistema Solar. Em particular pelas suas observações que permitiram esclarecer dúvidas sobre a cor destes pequenos corpos.
Descoberto a 16 de setembro de 1998, o asteroide Peixinho, de pouco mais de 10 km de diâmetro, pertence à cintura de asteroides e orbita o Sol a uma distância média 3 vezes superior à distância da Terra ao Sol, completando uma órbita em cerca de 5,3 anos. Existem pouco mais de um milhão de pequenos corpos do Sistema Solar catalogados, cerca de meio milhão já têm designação permanente, mas só 22.505 têm nome.
Peixinho não é o primeiro astrónomo português a ter o seu nome inscrito no catálogo – Pedro Lacerda, investigador na Queen’s University, em Belfast, também já deu nome ao (10694) Lacerda – mas é o primeiro a trabalhar em território nacional. Até ver. “Se quando terminar este contrato não conseguir uma renovação lá vou ter de emigrar outra vez”.