O valor ainda é relativamente modesto – 50 mil dólares, ou 42,5 mil euros – mas é um voto de confiança. Durante um ano, Luísa Vaqueiro Lopes, neurocientista e investigadora do Instituto de Medicina Molecular (IMM), e os também cientistas Yusuke Tsuno da Universidade de Kanazawa, no Japão, e Ulkuhan Guler do Politécnico de Worcester, EUA, irão tentar mostrar que faz sentido aprofundar a relação entre o neurotransmissor [substância que permite a comunicação entre os neurónios] acetilcolina e a memória. “Há uma teoria antiga que defende que o declínio cognitivo tem como base a deficiência no neurotransmissor acetilcolina. Mas não há evidência clara, é empírico”, diz Luísa Vaqueiro Lopes. Demonstrar, com experiências feitas em animais e com células de origem humana, que tal se verifica, ou descartar esta hipótese, é o objetivo desta investigação que vai exigir mais tempo e dinheiro, do que o investido nesta primeira fase do concurso Healthy Longevity Global Competition – uma competição internacional, promovida pela Academia Nacional de Medicina americana, a que podem concorrer inovadores de qualquer área, desde que com projetos na área do envelhecimento.
O papel do neurotransmissor acetilcolina e das enzimas colinesterases, que o destrói, é conhecido. Sabe-se que este processo está envolvido na formação de memórias. E, de modo intuitivo, pode pensar-se que inibindo a produção ou a ação daquelas enzimas se consegue contrariar a perda de memória. É esta ideia que está na base de um tipo de medicamentos dado a doentes de Alzheimer. O que a investigadora portuguesa e os colegas pretendem agora fazer é detetar uma relação de causa e efeito entre os níveis de acetilcolina e a perda de memória associada à idade. Parte do projeto passa por medir, com um sensor, os níveis do neurotransmissor no cérebro de ratinhos enquanto estes desempenham tarefas de memorização.

Queremos tentar perceber por que razão, em pessoas sem patologia, o envelhecimento cerebral é muito rápido nuns casos e noutros é lento
Luísa Vaqueiro Lopes
Este será ainda uma espécie de projeto-piloto. “Houve uma aposta na ideia, agora temos de mostrar o que vale”. Se passarem no teste, a equipa, que marca as reuniões sempre para as duas da tarde, o único horário razoável para os três, quando são oito da manhã na América, onze da noite no Japão, terá acesso à segunda das três fases da competição. Nesta segunda fase, o plano passa por cultivar em laboratório neurónios produtores de acetilcolina em humanos, a partir de amostras guardadas no banco de tecidos do IMM. Serão analisadas células de pessoas com declínio cognitivo acelerado e de pessoas em que o processo ocorre no ritmo normal. “Queremos tentar perceber por que razão, em pessoas sem patologia, o envelhecimento cerebral é muito rápido nuns casos e noutros é lento.”
Em 2030, pela primeira vez na história, haverá mais idosos do que jovens no mundo. “Esta mudança demográfica representa um desafio significativo a nível social, económico e de saúde, mas é também uma oportunidade sem precedentes para acelerar a investigação, inovação e empreendedorismo no campo da longevidade”, lê-se na página da competição científica que pretende “apoiar grandes mentes para atingir o que à primeira vista parecia inatingível.”