Na passada segunda-feira, dia 28 de abril, a energia foi cortada, a rede foi abaixo, os ecrãs apagaram-se, o som das notificações cessou. De repente, ficámos offline – mas vivos. Fomos empurrados para fora da rotina automática, uma interrupção brusca que nos forçou a parar. Fomos levados, por breves horas, a lugares onde já não costumamos ir: aos livros na estante, à varanda que quase esquecemos, à conversa com os vizinhos do prédio, ao sofá com os nossos filhos. Digo “empurrados” porque ninguém escolheu estar onde esteve. Não houve vontade, houve circunstância, ninguém escolheu o que fazer naquela tarde, apenas reagimos, cada um à sua maneira, para tentar encontrar um interruptor interno para dar sentido à falta de energia. O apagão revelou, por contraste, o quanto estamos dependentes de um sistema que raramente questionamos: o da conexão total e constante. E mais: deixou a nu os nossos próprios condutores emocionais – os que procurámos primeiro, os que quisemos proteger, os que desejámos abraçar quando o mundo ficou, por instantes, silencioso.
Foi um choque elétrico sem eletricidade. Uma reinicialização involuntária do sistema – não apenas o tecnológico, mas o emocional. Num instante, incomunicáveis, voltámos a prestar atenção ao essencial: como estamos, com quem estamos, e o que fazemos quando não podemos fazer o que sempre fazemos. Podíamos até brincar com as palavras e dizer que se acendeu uma luz – a da consciência. Mas, sejamos honestos: talvez tenha sido apenas um relâmpago, um clarão breve. Porque, à noite, quando as luzes voltaram… voltaram com elas a pressa, os hábitos, os vícios digitais e o ruído constante que aprendemos a chamar de normalidade. Voltámos, in-conscientemente, a emaranhar-nos na corrente – não à elétrica, mas àquela que nos prende ao piloto automático.
Mas e agora? O que fazer com essa breve experiência? Deixá-la cair no esquecimento como um mero contratempo técnico? Ou aproveitá-la como oportunidade de revisão interna?
Há algo profundamente humano em momentos de suspensão. Estes desafiam as nossas prioridades, revelam o que importa e mostram que não precisamos de tanto para viver bem. Revelam que há uma luz que não depende da eletricidade para se acender: a da consciência emocional – aquela que se acende quando deixamos espaço para pensar, sentir e estar verdadeiramente.
Talvez não tenhamos aprendido nada. Talvez tudo tenha voltado ao mesmo – até que o próximo apagão nos lembre, outra vez, que a vida acontece fora do ecrã. Ou talvez, só talvez, alguém tenha aproveitado aquela pausa forçada para fazer uma escolha: desligar um pouco mais, escutar um pouco melhor, estar um pouco mais presente.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.