60 anos de ISQ: Pedro Matias e as apostas decisivas na inovação, numa era de enormes desafios

Foto: Luís Barra

60 anos de ISQ: Pedro Matias e as apostas decisivas na inovação, numa era de enormes desafios

Já criou sondas para trazer amostras de Marte e testou satélites que orbitam a Terra. Fabrica peças para a indústria aeroespacial e está envolvido num dos projetos mais revolucionários do setor energético. No ano em que o ISQ celebra o seu 60º aniversário, Pedro Matias, presidente da instituição, fala-nos destes e de outros projetos em que a empresa está envolvida.  O gestor olha para 2025 com alguma apreensão, apesar da faturação recorde de 80 milhões conseguida no ano passado. Na sua opinião, a atual situação geopolítica está a provocar algum pessimismo entre os agentes económicos. “O mundo está a adaptar-se a uma nova realidade. Temos de olhar para 2025 com alguma prudência”, alerta.

Apesar da instabilidade internacional que vivemos, Pedro Matias prevê que o ISQ continue a crescer e considera que este momento pode ser uma oportunidade para que a União Europeia possa investir mais em inovação, neste “período de grande disrupção tecnológica”.

O ISQ faz este ano 60 anos. Como resumiria o papel desta instituição na sociedade portuguesa ao longo destas seis décadas?
O grande contributo do ISQ é ter sido um verdadeiro indutor da criação de valor da indústria portuguesa. Ajudamos as empresas e outras entidades, dos mais variados setores, a evoluir e a elevar a sua competência e inovação. Por outro lado, temos também contribuído para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos. Nas mais variadas matérias, desde a segurança alimentar à aferição de aparelhos e equipamentos que são usados no dia a dia, passando pela garantia da qualidade dos produtos farmacêuticos, entre muitos outros. O nosso trabalho, apesar de ser pouco percetível pelo comum dos cidadãos, está presente no quotidiano de quase toda a população.

Como correu a atividade em 2024?
O ano começou devagar, mas acelerou na reta final. Atingimos uma faturação de 50 milhões no ISQ e quase 80 milhões no Grupo ISQ, em que consolidamos algumas das empresas participadas. Os resultados líquidos ficaram na ordem dos 4 milhões de euros.

Este crescimento tem sido contínuo nos últimos anos?
Nos últimos oito anos, temos tido uma trajetória consolidada em termos de crescimento, quer em volume de negócios quer de EBITDA, resultados operacionais e resultados líquidos.

E atendendo à instabilidade internacional, essa trajetória irá manter-se este ano?
Enquanto gestor, vejo o ano de 2025 com muita prudência. Em termos geoestratégicos, estamos perante um determinado número de acontecimentos que podem ter um grande impacto na atividade económica mundial. É preciso gerir com muito cuidado. Há vários vetores de preocupação. O mundo está a adaptar-se a esta nova realidade. E esta adaptação poderá demorar um certo tempo. Existe algum pessimismo realista, porque está a acontecer muita coisa ao mesmo tempo.

No entanto, esta instabilidade geopolítica, bem como o maior isolamento das grandes potências, poderá obrigar a Europa a investir mais em inovação, para não ficar tão dependente de terceiros. Isto pode trazer mais trabalho para o ISQ?
Sem dúvida. Assim a União Europeia não continue, como tem sido nos últimos anos, um pouco avessa à inovação.

Pode explicar?
A Europa está obrigada a dar um salto tecnológico, de forma a não perder terreno para a China ou para os EUA. Basta olhar para o exemplo do setor automóvel. E esta é uma grande oportunidade, porque estamos num período de grande disrupção tecnológica. As empresas vão ter de aproveitar esta evolução. Desde a Inteligência Artificial, passando pelas energias renováveis, a transformação digital, entre outros fatores.

A Inteligência Artificial está a tornar-se uma ferramenta fundamental para esta disrupção?
O que estamos a notar é que a evolução futura será muito mais rápida. A Inteligência Artificial já existe há muitos anos, mas até agora as coisas andaram devagar. Hoje, existem mecanismos, que já estão a ter aplicação prática, que irão encurtar os períodos de evolução. Acho que dentro de dois a três anos, o salto será significativo.

Qual o investimento previsto, para este ano, em investigação e desenvolvimento?
Cerca de 10 milhões de euros. Será um investimento muito alavancado no PRR, porque nós estamos em dez agendas mobilizadoras deste programa.

Ao longo dos últimos anos, o ISQ tem tido uma grande aposta na internacionalização. Estão em quantos países?
Neste momento, temos atividade em 14. O número de países onde estamos tem-se mantido, mas a atividade além-fronteiras tem crescido muito. E o Brasil é talvez o melhor exemplo. Hoje em dia, temos 380 pessoas naquele país. E passámos de uma para quatro delegações: Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Pará.

Este crescimento no Brasil deve-se a alguma razão em especial?
Por um lado, é um país que está com muita atividade e, por outro, é tradicionalmente um mercado fechado, um pouco avesso a empresas de fora. Mas, como nós estamos lá há 25 anos, somos vistos quase como sendo uma empresa brasileira. Estamos a colher os frutos do reconhecimento da marca, que é quase um selo de qualidade.

Qual o peso que o Brasil já tem no volume de negócios do ISQ?
Já representa cerca de 12% da nossa faturação.

E quais os setores de atividade que mais vos procuram no Brasil?
Sobretudo o setor mineiro, as celuloses e a energia. Ultimamente, estamos muito na área do ambiente e da sustentabilidade. As empresas brasileiras começam a estar muito atentas às políticas ESG [sigla de Environmental, Social and Governance].

A componente ESG tem assim tanto impacto nas empresas?
Sim. E não há volta a dar. As empresas não vivem sem clientes, sem trabalhadores e sem financiadores. E, hoje em dia, estes três elementos exigem a mesma coisa: boas práticas. Os clientes querem saber se os produtos que compram obedecem a políticas de sustentabilidade. O mesmo acontece com os trabalhadores. Nas entrevistas de emprego, muitos candidatos já perguntam qual a pegada ecológica da empresa e o que ela está a fazer em prol do desenvolvimento sustentável. E, por fim, os financiadores. As empresas não vivem sem eles, e atualmente, para se conseguir taxas de juro mais baixas, quer seja através de green bonds ou de outro tipo de financiamento verde, as empresas têm de seguir, e provar que seguem, essas práticas.

Ainda é difícil recrutar mão de obra especializada em Portugal?
Diria que está mais fácil agora. Nos últimos dois ou três anos, o mercado esteve muito concorrido e era difícil recrutar, sobretudo em setores especializados como o nosso, em que a concorrência é global. A retração na Europa, bem como noutros países, está a inverter um pouco essa tendência. Estamos a ter mais oferta de emprego.

Quantos funcionários tem o ISQ?
No total, somos 1800, dos quais cerca de mil estão em Portugal.

No final deste ano, irá completar o seu terceiro mandato como presidente do ISQ. Qual o balanço que faz destes nove anos de atividade?
O primeiro mandato foi de reestruturação e implementação de um plano estratégico. No segundo, começámos a desenvolver novas atividades e a apostar em novos mercados e serviços. Lançámos as sementes. Agora, estamos na fase em que podemos crescer mais. Temos a casa arrumada e as sementes a brotar.

Ou seja, está aberto à possibilidade de exercer um quarto mandato?
O meu objetivo é participar com os outros colaboradores para fazer crescer esta casa. Eu sou apenas uma peça entre várias. Sinto uma grande motivação para continuar este trabalho. E estamos numa fase em que podemos fazer muitas coisas.

O que é que ainda pretende fazer no ISQ que não conseguiu ao longo destes anos?
Nós já alcançámos grande parte daquilo a que nos propusemos. Chegamos a mais setores, entramos em novos mercados e acrescentamos cada vez mais valor. O desafio agora é criar escala e continuarmos a inovar. Os clientes têm cada vez mais desafios e temos de conseguir dar resposta e criar novas soluções para esses desafios. 

Os vossos clientes pedem-vos, muitas vezes, para resolver um problema?
Sim. Nós desenvolvemos muito trabalho à medida das necessidades dos clientes, para resolver problemas específicos que vão surgindo. Somos desafiados a fazer algo para o qual ainda não existe solução.

Pode dar um exemplo?
Estamos a desenvolver um robô, para consertar avarias nos tubos de extração de petróleo, que poderá ser uma verdadeira revolução nesta indústria. O projeto já está numa fase muito adiantada e, se resultar, teremos uma nova solução da qual poderá sair um novo negócio. Foi uma resposta a um desafio lançado pela Galp e pela Petrobras.

E como funciona esse robô?
Os tubos de extração de petróleo em alto-mar vão a quatro ou cinco quilómetros de profundidade, o que os sujeita a uma enorme pressão. Devido à elevada pressão, a água consegue, por vezes, penetrar nas paredes do tubo, o que inviabiliza a extração de petróleo. Quando isto acontece, os tubos têm de ser retirados e depois montados outra vez. Isto acarreta custos enormes. Cada metro destes tubos custa cerca de mil dólares e a operação de retirar e voltar a instalar os tubos é caríssima. Com este robô, que pode ser acoplado ao exterior do tubo, conseguimos através de um mecanismo de ultrassons detetar qualquer fissura e resolver o problema antes de ele existir.

Se o projeto resultar, qual será o passo seguinte? Farão dele um novo negócio?
Temos várias opções. Podemos prestar esse serviço ou criar uma nova empresa especializada neste tipo de operações, tal como fizemos com a Deep Focus. Aliás, temos várias empresas no Grupo ISQ que resultaram de spin offs de soluções que criámos.

Como nasceu a Deep Focus?
Foi um projeto de investigação e desenvolvimento, concebido por nós, que resultou na criação de um algoritmo que faz o tratamento de informação, recolhida por satélites, para identificar determinados tipos de metais raros no fundo dos oceanos. A Deep Focus foi criada em 2023 e já está a trabalhar para empresas de mineração em alto-mar.

Qual a grande diferença para o sistema atual de pesquisa no fundo do mar?
Isto vai ser uma revolução a nível mundial. Hoje em dia, este processo é feito através de navios de grande porte, com sistemas de varrimento sísmico. Demoram cerca de seis meses para mapearem 20 quilómetros quadrados. Através de satélites, conseguimos todos os dados em apenas dois ou três minutos. Depois, o nosso algoritmo diz-nos o que se encontra num determinado local. 

Essa é uma atividade que está em expansão?
A mineração no fundo do mar será muito importante para o desenvolvimento tecnológico, devido à grande procura dos chamados metais raros, indispensáveis na indústria de baterias e de outros componentes modernos.

Mas a mineração no fundo do mar está a ser muito contestada pelos ambientalistas, devido à destruição que provoca de corais e fauna marinha…
Mas este nosso processo tem uma grande vantagem a esse nível. Porque estas empresas, em vez de andarem a recolher tudo no fundo do mar, com o nosso sistema passarão a minerar apenas no local exato. O impacto ambiental será muito menor.

Também estavam muito envolvidos na área de manufatura aditiva [impressão de peças de metal em 3D]. Como está esse processo?
Tem havido muita evolução, porque muitas empresas vão ter a tendência de integrar cada vez mais a manufatura aditiva nas suas linhas de produção, ou seja, as peças metálicas são feitas na própria empresa através de uma impressora 3D. E, desta forma, as fábricas evitam a cadeia logística, reduzindo substancialmente o impacto ambiental gerado pelo transporte destas peças. Aliás, já criámos uma empresa de manufatura aditiva na China, que resultou de um spin off de uma atividade que tínhamos desenvolvido para o setor aeroespacial. Essa empresa imprime peças metálicas 3D na própria linha de montagem dos satélites e dos foguetes chineses.

Por falar em espaço e em satélites, estão também envolvidos na agenda News Space?
Sim. É um consórcio de entidades que vão desenvolver três constelações de satélites, cada uma com as suas características. Nós estamos a trabalhar na fase de testes e validação dos satélites.

Este projeto obrigou a um grande investimento?
Tivemos de comprar equipamentos para fazer testes de resistência dos materiais a satélites de grandes dimensões, bem como câmaras para os estudos de compatibilidade eletromagnética e câmaras de termovácuo, que simulam, na Terra, o ambiente que estes aparelhos vão ter no Espaço. No entanto, este trabalho e este equipamento irão posicionar-nos num outro patamar neste setor. Ficamos com capacidade e com competências para poder exportar este serviço. E se há setor que tem estado em grande crescimento é o do Espaço. A procura por este tipo de serviços tem sido enorme.

Estão também a participar no desenvolvimento do reator de fusão nuclear, um dos projetos que poderão revolucionar a indústria energética mundial. Como estão a correr os trabalhos?
Assinámos um contrato de 14 milhões de euros para continuar a fazer este trabalho. Temos equipas permanentes no local. É um projeto que ainda está no início, mas acreditamos que irá chegar a bom porto. É um protótipo de algo que nunca foi feito. É uma inovação radical e que será necessária para o consumo de energia que se prevê para o futuro.

Mas é um projeto que ainda está muito no início?
Creio que dentro de 15 anos teremos um grande avanço nesta tecnologia. E, num horizonte de 50 anos, poderemos ter em nossas casas reatores destes, que funcionarão como microgeradores, com a dimensão de um eletrodoméstico, que terão capacidade de produzir toda a energia necessária para o consumo doméstico.

Qual a dimensão deste protótipo que está a ser construído?
Para ter uma perspetiva, ocupa uma área semelhante à do Centro Comercial Colombo. É uma máquina gigante com especificações técnicas muito complexas.

E quais são as vossas funções neste projeto?
Estamos a trabalhar no controlo de qualidade da soldadura das partes do coração do reator. É uma obra de grande responsabilidade, porque tudo terá de estar perfeito. Quando começar a trabalhar, o aparelho já não pode ser aberto para reparação, por isso não pode ter qualquer tipo de falhas.

Da órbita da Terra ao fundo do mar

O ISQ tem estado envolvido em alguns dos projetos mais inovadores a nível internacional

>  Energia Inesgotável

O reator de fusão nuclear que está a ser desenvolvido no Sul de França, numa área de 180 hectares, poderá criar energia limpa de uma forma quase inesgotável. Os cientistas chamam-lhe o “pequeno sol na Terra”.

Este é um projeto de longo prazo, que apenas terá resultados dentro de uma ou duas décadas, mas poderá resolver os problemas de energia do planeta, numa altura em que se prevê que o consumo de eletricidade disparará de uma forma exponencial devido à grande implementação de centros de dados para a Inteligência Artificial em todo o mundo, bem como ao avanço da mobilidade elétrica. 

O ISQ é um dos parceiros deste projeto e tem equipas permanentes no local responsáveis pela qualidade das soldaduras do interior do reator. Um trabalho que terá de ficar 100% perfeito, porque, assim que o reator for fechado, já não pode ser aberto para reparações.

Segundo os especialistas, apesar de ser nuclear, a fusão é mais eficiente e menos perigosa do que a fissão nuclear que é usada hoje em dia para gerar energia. A fusão ocorre quando dois átomos colidem para formar um átomo mais pesado, como, por exemplo, a fusão de dois átomos de hidrogénio para formar um de hélio. É, na prática, o mesmo processo que alimenta o Sol. Gera muito mais energia do que a fusão e não produz resíduos altamente radioativos como acontece com a fissão nuclear.

>  Teste de satélites

É uma das áreas em que o ISQ mais vai investir nos próximos anos, cerca de 10 milhões de euros, só em 2025, mas abre, para a empresa portuguesa, as portas de um novo negócio que está em plena expansão em todo o mundo. O ISQ faz testes de satélites desde 2008, mas, até 2024, cingia-se apenas à certificação dos subsistemas que os compunham. No ano passado, começou a fazer os testes a todos os componentes, desde as vibrações que os aparelhos irão suportar às condições de termovácuo em ambiente espacial ‒ temperatura, pressão e radiação absorvida pelas superfícies do satélite ‒ e compatibilidade eletromagnética.

>  Ver mais longe

O telescópio mais poderoso até hoje criado, o European Extremely Large Telescope (ELT), conta com tecnologia e soluções desenvolvidas em Portugal. Situado no deserto do Atacama, Norte do Chile, deverá entrar em funcionamento já em 2028, conseguindo obter quinze vezes mais luz do que o maior telescópio atualmente em funcionamento.

Este poderoso aparelho terá uma redoma com um diâmetro de 88 metros e um peso total de 6 100 toneladas. O “olho” do telescópio, com uma área de quase 40 metros quadrados, é composto por 798 favos, ou seja, espelhos hexagonais com pouco mais de um metro, nos quais o ISQ está a desenvolver o seu trabalho.

Este potente aparelho será capaz de obter imagens de exoplanetas rochosos e caracterizar as suas atmosferas, bem como medir diretamente a aceleração da expansão do Universo.

> Vasculhar os Oceanos

O ISQ desenvolveu um algoritmo que consegue analisar toda a informação obtida pelos satélites e, com base no tratamento dessa informação, determinar onde existem metais raros no fundo dos oceanos.

O êxito deste desenvolvimento foi tal, que o ISQ criou uma empresa autónoma apenas para prestar este serviço, a Deep Focus. Atualmente, esta pesquisa é feita através de grandes navios que fazem o rastreio submarino com ultrassons. Contudo, este é um processo lento, pois cada navio necessita de seis meses para mapear uma área de 20 quilómetros quadrados. O algoritmo faz o mesmo trabalho em poucos minutos.

Com a grande expansão da atividade de exploração do fundo do mar para minerar metais raros indispensáveis para o fabrico de baterias e outros componentes da sociedade moderna, o Deep Focus tem cada vez mais clientes internacionais.

Do ponto de vista ambiental, o método usado por esta empresa consegue não só a poupança de combustível pelos navios de prospeção como também evita uma maior destruição da fauna e flora do fundo do mar, pois é bastante mais preciso na localização destes metais.

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