Girl Talk: “Temos atualmente 16% da população excluída do digital”

Girl Talk: “Temos atualmente 16% da população excluída do digital”

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Atrair e reter talentos na área das tecnologias da informação e da segurança cibernética, fazer um esforço conjunto europeu em prol da cibersegurança e executar o Plano de Recuperação e Resiliência de forma exemplar. São estas as três prioridades escolhidas por Madalena Cascais Tomé, CEO da SIBS, e Luísa Ribeiro Lopes, presidente do conselho diretivo do .PT e coordenadora-geral do INCoDe.2030 para os próximos anos.

Num ano que já está marcado por uma série de desafios ligados à segurança no digital, convidámos as duas especialistas para refletir sobre os principais desafios que o País enfrenta no médio prazo, no que respeita à literacia digital e à cibersegurança. Uma semana após o ciberataque à Vodafone, Madalena e Luísa falaram, praticamente a uma só voz, sobre uma área que dominam como poucos.

Tendo por base o Índice de Digitalidade da Economia e da Sociedade (DESI, na sigla em inglês), que acompanha a evolução dos Estados-membros tendo em conta cinco parâmetros, a CEO da SIBS começou por recordar que Portugal passou do 16º para o 13º lugar neste índice entre 2021 e 2022, “o que significa que estamos a fazer um progresso com passos firmes no caminho de uma maior digitalização. Portugal tem sido reconhecido pelas suas infraestruturas – a nossa rede de comunicações e de fibra e mesmo alguns serviços digitais. Aliás, um dos parâmetros em que comparamos bem é a aplicação dos serviços digitais”, salienta. “Essa é a nota que é importante destacar. É um fator de atratividade para o nosso País. O facto de termos tido eventos como a Web Summit ou a aceleração de empreendedorismo e de startups, bem como a atração de algumas empresas relevantes para Portugal, mostra isso”, acrescenta. No mesmo sentido, recorda a posição de destaque internacional que Portugal garantiu com serviços como o Multibanco, a Via Verde e, mais recentemente, o MB Way. A questão, sublinha, é que tudo isto tem “de vir a par e passo com a literacia”. E porque somos um País com desigualdades evidentes, há inevitavelmente parâmetros em que não comparamos tão bem com os pares europeus. “O que há a fazer, nesta matéria, é também reconhecer essas desigualdades e essa necessidade de chegarmos a todos”, adianta. A gestora recorda que esse foi um dos grandes propósitos da rede Multibanco – levar serviços digitais a um nível mais alargado da população –, mas não exclui o imperativo de se continuar a trabalhar na educação e informação. “Para isso, é preciso uma estratégia de longo prazo, de longo alcance, porque a alteração de comportamentos demora muito tempo…”

Para Luísa Ribeiro Lopes, é evidente que digitalizar o País “é, sobretudo, mais do que digitalizar tudo”, atira, com uma gargalhada. “A Madalena já referiu a parte das infraestruturas. O índice DESI tem cinco componentes: nós comparamos muito bem ao nível das infraestruturas, em termos de comunicações, de serviços públicos digitais, da própria digitalização das empresas, que têm feito um progresso muito grande. Comparamos menos bem naquilo que são as competências digitais”, lamenta. “Ainda assim, subimos também, em alguns casos, cinco lugares, o que é muito bom, se pensarmos que os outros países continuam a fazer o trabalho deles.”

Digitalizar o País “é, sobretudo, mais do que digitalizar tudo”,

Só que, reforça, “nós somos um país muito desigual. Há as pessoas que têm acesso a educação e formação digital e aquelas que não têm. Aquelas que têm acesso aos equipamentos necessários para aceder ao digital, e as que não têm. E somos um País muito desigual em termos de coesão territorial – as pessoas do Interior têm um acesso diferente a tudo o que são competências digitais, em comparação com as pessoas que estão nas grandes cidades”, avisa. “Quando dizemos que não podemos deixar ninguém para trás, é mesmo não poder deixar ninguém para trás. Porque os mais velhos também têm de aceder a informação que, para nós, é óbvia, mas para eles não é. A utilização do Multibanco mostrou que as pessoas querem utilizar o que está ao seu alcance. Mas é bom recordar que, por exemplo, a marcação das vacinas foi feita sobretudo através do digital, e muitas pessoas tiveram de pedir aos filhos, aos netos, aos sobrinhos, para o fazer. Isso mostra a necessidade que há de ter competências básicas que não existem. Temos atualmente 16% da população excluída do digital. Há dois anos, tínhamos 22% – portanto, estamos a fazer um progresso enorme, mas ainda há muito a fazer. Temos de investir mais na educação, na formação, na formação ao longo da vida e, muito importante, temos de ter pessoas com competências digitais avançadas”, adianta.

Que é como quem diz, ter as competências digitais básicas, mas saber o que fazer para nos protegermos na nossa “vida digital”.

Casa roubada, trancas à porta

Enquanto nos recostamos nos já nossos conhecidos sofás do Martinhal Chiado, parceiro da EXAME nesta rubrica, é impossível fugir do tema que tem marcado a informação nos últimos dias. O ano começou com a notícia de que o grupo Impresa tinha sido alvo de um ataque informático; pouco tempo depois, a Altice teve os hackers à porta; e a Vodafone foi o cliente que se seguiu – e cujo ataque provocou constrangimentos em particulares, empresas e até na rede Multibanco. Afinal, Portugal está a ser alvo de mais ataques, ou trata-se apenas de ter mais informação sobre este tipo de crime?

“É tudo junto”, considera Luísa. “Está a haver mais comunicação, estamos mais atentos, mas há mais ataques, também porque há mais utilização do digital. Por outro lado, os ataques são mais sofisticados. Mas há uma coisa que é importante referir: sou muito otimista e, portanto, acredito que isto faz com que as empresas estejam mais atentas e invistam mais na segurança. A maior parte das infraestruturas essenciais está sempre a ser alvo de ataque; estamos a monitorizá-las e vamos fazendo a nossa prevenção”, explica a responsável pela organização que gere o domínio de sites nacional. “O que acontece é que, com a transição digital tão acelerada, cada vez estamos mais expostos. Mas as empresas estão a investir mais em segurança. E nunca existem sistemas totalmente seguros, tal como acontece na nossa vida não digital. O meu pai costumava dizer que é um milagre estarmos vivos, tendo em conta tudo o que nos pode acontecer no dia a dia. É o mesmo, neste caso. A probabilidade de sermos alvo de insegurança no digital é tão maior quanto maior a utilização que fazemos dele”, considera. Além de que há razões geoestratégicas para alguns dos ataques, o que leva Madalena Cascais Tomé a afirmar que a cibersegurança deve ser perspetivada ao nível nacional, como um todo.

Uma questão de soberania nacional

“Qual é a real capacidade que as empresas têm de responder a ataques destes?”, questiona a responsável, lembrando que o tecido empresarial português é composto, em 99%, por PME. Num momento em que os recursos humanos são escassos, o investimento necessário para conseguir fazer face aos novos desafios não é acessível a todos. “Estas competências são cada vez mais escassas, e um dos motivos pelos quais estes ataques são mais recorrentes é a evolução também muito rápida da tecnologia. Para o bem, mas também para o mal”, sublinha. “Em Portugal, temos um desafio muito grande em formar e reter talento nestas áreas críticas e transversais. E, se pensarmos que o nosso tecido empresarial é composto sobretudo por PME e que estes ataques não escolhem indústrias, não escolhem setores ou dimensões de empresas…”, atira, em jeito de reflexão. “Por isso é que, na SIBS, temos uma área de cibersegurança que também presta serviços a outras empresas nesta matéria”, defende. O facto de a pandemia ter contribuído para alargar o perímetro de risco das empresas para fora das suas instalações acabou por dificultar a tarefa. E, no caso das PME, junta-se à falta de recursos, muitas vezes, a falta de capacidade financeira para enfrentar estas novas realidades.

Em Portugal, temos um desafio muito grande em formar e reter talento nestas áreas críticas e transversais. E, se pensarmos que o nosso tecido empresarial é composto sobretudo por PME e que estes ataques não escolhem indústrias, não escolhem setores ou dimensões de empresas…

“Em muitas delas, não existem competências para fazer a transição digital, quanto mais para fazer a avaliação do risco e da necessidade da cibersegurança”, recorda Luísa. “Isto é um trabalho que tem de ser feito em conjunto. Recordemos o programa Comércio Digital, que visava trazer as empresas para o digital e que foi muito beneficiado com a pandemia. Mas, neste momento, a questão da cibersegurança tem de ser encarada de forma transversal. Uma micro, uma pequena empresa, não tem capacidade para ter os recursos necessários, mas as associações empresariais, as próprias empresas em conjunto, seja em termos setoriais ou territoriais, têm de fazer esse esforço. E tem de ser feita essa oferta de cibersegurança, até pelo Estado, pelas academias, para ter os seus sistemas minimamente seguros.”

Estas Academias de Cibersegurança, explica, estão a ser dinamizadas pelo País inteiro, para se conseguir formar mais talentos, qualificando ou requalificando profissionais, e trabalhando em conjunto com associações empresariais e perto das comunidades. Partilhar recursos é a forma mais eficaz e inteligente de travar esta batalha, garantem as especialistas. “E é o que faz sentido.”

“Penso mesmo que o talento e as competências são a chave do sucesso”, reforça Luísa. “Temos um défice enorme na área das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC) e, na área da cibersegurança, isso é ainda mais evidente. Temos muito poucos recursos, e os que temos são procurados pelas empresas internacionais. Formar profissionais nesta área leva tempo. Os jovens que entrarem, hoje, na universidade só saem daqui a cinco anos. E só conseguimos retê-los se conseguirmos pagar-lhes bem. Porque está toda a gente a precisar – Portugal, a Europa, o mundo inteiro. É muito difícil ir buscar talento nesta área.” Madalena corrobora: “Ter este talento é quase um problema de soberania nacional.” E questiona, de novo: “A visão e a estratégia nacionais são muito relevantes. Como formar, atrair e reter talentos?”

“Uma das coisas que gosto sempre de referir é o gap de género na área das TIC, que é ainda maior na área da cibersegurança. Ainda ontem, num programa sobre cibersegurança, dizia-se que a nossa equipa de jovens de cibersegurança foi a um campeonato mundial [o European Cyber Security Challenge] e ficou em 9ºlugar. É uma equipa ótima, com dez jovens, todos rapazes. Não há uma única rapariga a representar o nosso país. E temos de atraír mais raparigas para as áreas das TIC e para estas áreas ditas disruptivas, como a Inteligência Artificial, dados, computação avançada, cibersegurança… simplesmente porque estamos a desperdiçar metade do talento!”, sublinha Luísa. “É necessário! É urgente, é uma questão de justiça social, de inclusão de género, mas sobretudo é uma questão económica. As empresas precisam de talento!”, repete a gestora, para quem esta é efetivamente a prioridade do momento.

Vidas longas, carreiras cheias

Madalena considera que essa é precisamente uma das razões pelas quais o tema da demografia tem de ser trazido à discussão e pensado estrategicamente. “O  facto de termos o envelhecimento natural a que temos assistido pode jogar contra esta lógica de reforço das competências digitais.” Daí que, do ponto de vista estratégico, haja “um trabalho de upskill e de formação que é preciso fazer, não apenas do ponto de vista dos utilizadores mas das pessoas na sua vida ativa e como profissionais. Temos de ter uma visão estratégica e de longo prazo, para converter estas capacidades nas pessoas em idade ativa. As pessoas vivem mais, podem ter carreiras mais longas e diferentes das que têm agora”, nota, quase fazendo eco da conversa que decorreu, no mês passado, entre Maria João Valente Rosa e Ana Lehmann, e durante a qual falaram sobre longevidade e economia.

Mas a demografia tem de ser pensada também numa lógica de atração de talento internacional, defende a CEO da SIBS. Só assim, acredita, será possível robustecer as capacidades existentes no mercado e garantir às empresas o reforço do seu desenvolvimento. “Uma política demográfica ativa demora anos a ter impacto. Portanto, é algo que precisa de uma visão estratégica e de longo prazo”, defende.

Desafios identificados, oportunidades à espreita e prioridades definidas. Atiramos mais uma pergunta para cima da mesa: que Portugal gostariam, então, de ver em 2026? Um País com mais população, e rejuvenescida, com empresas nacionais a exportar tecnologias para outros mercados e destacado no tema da neutralidade carbónica e da sustentabilidade, respondem. E “ter atingido algumas das metas no InCode 2030, o que significava que tínhamos capacidade de formar mais pessoas!”, aproveita para dizer Luísa, com uma gargalhada. No fundo, querem um País mais novo, mais digital, com mais formação e inevitavelmente mais sustentável. Desafios que ficam para o novo executivo, que deverá tomar posse nas próximas semanas.

Artigo publicado inicialmente na edição n.º 455 , de fevereiro de 2022, da revista EXAME

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