Atingir o estatuto de unicórnio, empresa com um valor acima dos mil milhões de euros, é uma das grandes ambições de qualquer empreendedor que cria uma startup. Mas para Virgílio Bento, fundador e CEO da Sword Health, esse é um objetivo pouco ambicioso. O gestor acredita que alcançará o patamar de unicórnio já “no final de 2021 ou início de 2022”, apenas dois anos depois de ter iniciado a atividade. A sua grande meta, sem papas na língua, é conseguir formar a maior empresa portuguesa de sempre, com uma valorização da ordem dos 100 mil milhões, e uma das maiores a nível mundial na área da saúde.
Apesar de ser uma empresa relativamente jovem, a ideia da SWORD Health começou a formar-se na cabeça de Virgílio Bento quando era apenas uma criança, com pouco mais de 10 anos. Tudo teve início com um acidente que colocou o seu irmão em coma profundo durante 12 meses. Virgílio viveu de forma muito próxima os desafios que uma família enfrenta para conseguir a reabilitação total de um paciente com uma patologia musculoesquelética. O processo de recuperação estendeu-se por 12 anos e, hoje, Virgílio reconhece que o sucesso da recuperação do seu irmão apenas foi conseguido “graças ao enorme investimento monetário e pessoal” dos seus pais. “Eu vivi isso de perto e ficava perplexo com as dificuldades para se conseguir ter acesso a um processo de reabilitação. Sabe-se que existe uma correlação direta entre a intensidade de um tratamento de fisioterapia e a recuperação. Para conseguir resultados é necessário que o paciente tenha acesso a, pelo menos, quatro sessões de fisioterapia por semana. O ideal seriam sete. As pessoas não fazem ideia o quão frustrante e deprimente é ver uma família a conseguir apenas duas sessões por semana”, recorda.
Mas seria o infortúnio que lhe iria plantar uma pequena ideia na cabeça. Enquanto ao seu redor assistia à criação de soluções complexas, com recurso a novas tecnologias, para resolver problemas nas mais variadas áreas, Virgílio questionava-se por que razão nos tratamentos das patologias musculoesqueléticas, que afeta mais de dois mil milhões de pessoas no mundo, ainda se usavam os mesmos métodos dos últimos 60 anos?
Estas patologias, que podem ir desde uma simples dor num ombro a uma prótese na anca ou mesmo lesões na coluna, são ainda tratadas de forma muito deficiente e têm um elevado custo para os sistemas de saúde
virgílio bento
“Estas patologias, que podem ir desde uma simples dor num ombro a uma prótese na anca ou mesmo lesões na coluna, são ainda tratadas de forma muito deficiente e têm um elevado custo para os sistemas de saúde”, salienta. Dá o exemplo dos EUA, onde cerca de um terço da população sofre de uma patologia deste tipo. “Nos EUA, são gastos 400 mil milhões de dólares por ano para tratar pacientes com patologias musculoesqueléticas, mais do que a soma das despesas com doentes com cancro e doenças mentais”, explica Virgílio Bento.
Uma das principais razões para este elevado custo são as desistências. Atualmente, para fazer uma sessão de fisioterapia, a pessoa necessita de marcar uma determinada hora com o fisioterapeuta, deslocar-se à clínica, estar condicionado ao horário disponível, que por vezes não é o mais conveniente para o seu dia a dia, e muita gente acaba por desistir.
“Nos EUA, está estimado que metade das pessoas deixa de fazer fisioterapia após a quarta sessão. E apenas 10% dos pacientes fazem os programas completos de recuperação”, explica.
Esta desistência tem um elevado custo até porque a patologia mantém-se, atirando muita gente, mais tarde, para cirurgias na tentativa de resolver o problema de uma vez por todas. Mas nem todas são totalmente eficazes. E, além disso, há cirurgias a custarem mais de 70 mil dólares. “O sistema de saúde vai pagar esse dinheiro para passados dois meses o paciente estar com os mesmos sintomas”, acrescenta.
Mas o problema não é apenas financeiro. Para se livrarem das dores, muitos pacientes acabam a tomar opioides, correndo o risco de criar uma situação de dependência. “Atualmente, temos uma epidemia a nível de opioides nos EUA e 60% a 70% dos novos utilizadores começam a tomá-los devido a uma patologia musculoesquelética”, diz Virgílio Bento.
Em busca da solução
Perante este problema, a SWORD Health quis criar um programa de alta intensidade de fisioterapia que pudesse ser feito a qualquer hora e a partir de qualquer lugar.
A ideia foi desenvolver uma versão digital do fisioterapeuta humano. “O trabalho de um fisioterapeuta é baseado no que se chama os exercícios terapêuticos. Pedem ao paciente para fazer uma série de movimentos, como levantar um braço até uma determinada altura, ou fazer um agachamento, etc. O que nós fizemos foi desenvolver um sistema baseado em sensores que o paciente coloca no seu corpo, que conseguem quantificar todos os movimentos da pessoa com precisão clínica.”
A informação recolhida pelos sensores é enviada para um sistema que a compara com aquilo que foi prescrito pela equipa clínica e corrige a postura e os exercícios em tempo real, tal como se estivesse um humano a acompanhar o paciente.
Os resultados parecem promissores. Virgílio Bento relata que, na véspera de Natal do ano passado, cerca de metade dos pacientes que usam o sistema da SWORD Health fizeram a sua sessão diária. “Isso denota bem o nível de conveniência do nosso produto”, realça.
Acreditamos que com o nosso sistema aplicado em escala aos EUA conseguiríamos poupar 80 mil milhões ao sistema de saúde
Virgílio bento
“Este novo modelo de tratamento de patologias musculoesqueléticas baseado no humano, mas associado à Inteligência Artificial, faz que nos EUA muitas das entidades que pagam os cuidados de saúde aos seus trabalhadores estejam a optar pela nossa solução. Acreditamos que com o nosso sistema aplicado em escala aos EUA conseguiríamos poupar 80 mil milhões ao sistema de saúde.” Além de que as soluções digitais podem também ser aplicadas a outras patologias.
Objetivo empresa
Quando se formou em Engenharia Eletrónica na Universidade de Aveiro, Virgílio pensava já na “resolução” deste problema. E avançou para o doutoramento já com a ideia de lançar a empresa, o que acabou por fazer, juntando-se ao colega Márcio Colunas, de Engenharia de Computação. “Não queria que fosse apenas uma investigação de laboratório.” Assim nasceu a SWORD Health.
Com a ideia formada e a empresa constituída, os primeiros anos foram passados a testar e desenvolver o conceito. Para Virgílio Bento existiam duas premissas que tinham de ser cumpridas para que o mercado aceitasse o produto. Por um lado, “os pacientes têm de ver a terapia em casa como uma forma mais prática e conveniente” e, por outro, os resultados clínicos “têm de ser mais rápidos do que com as alternativas tradicionais”.
Durante quatro anos trabalharam o conceito em laboratório até que, no final de 2019, um email a um dos grandes investidores de Silicon Valley, a Khosla Ventures, permite-lhes, após mostrarem o projeto, um financiamento de 15 milhões de dólares em apenas um mês.
Com o dinheiro garantido, começaram a formar uma equipa nos EUA para, em janeiro de 2020, inaugurarem a SWORD Health naquele país. “O crescimento foi explosivo. Em pouco tempo começámos a trabalhar com várias seguradoras e também com algumas das maiores empresas, que têm sistemas próprios de saúde, como é o caso da PepsiCo. Já trabalhamos para várias companhias que aparecem na lista das 50 maiores da Fortune”.

A SWORD Health trabalha diretamente com os pacientes, mas não é contratada por estes. “Nós somos o prestador de serviços de saúde. Temos a capacidade de fornecer cuidados para pacientes com patologias musculoesqueléticas com uma melhor conveniência para o paciente, melhores resultados clínicos e menores custos. Porque tornamos o processo muito mais eficiente”, salienta.
Apesar de ter hoje o trabalho focado nos EUA, os primeiros clientes da SWORD surgiram em Portugal e na Austrália. “Na altura em que estávamos a desenvolver a ideia, a informação chegou a algumas seguradoras de Portugal e da Austrália que nos vieram contactar. Ainda nem tínhamos equipa comercial constituída. Acabou por ser uma espécie de validação de conceito”, recorda. Atualmente, em Portugal, a SWORD Health trabalha com a Tranquilidade, a Médis e a Fidelidade.
E já pensa noutros mercados. O Canadá será o próximo alvo, país onde irão abrir atividade já em agosto.
De Portugal para o mundo
Desde a constituição da empresa, o foco do negócio sempre esteve no mercado norte-americano, mas Virgílio Bento quer manter a sede em Portugal, apesar de muitos investidores o aconselharem a mudar para o outro lado do Atlântico. “A entidade legal está em Delaware, mas a sede está em Portugal porque é cá que está o CEO. Não preciso de sair daqui para criar uma empresa de grandes dimensões”, acredita.
Virgílio Bento diz compreender os vários gestores portugueses que montaram as startups em Portugal, mas que acabaram por se mudar para os EUA ou o Reino Unido. “Eu percebo isso, mas não o quis fazer. Nós colocámos a empresa nos EUA apenas pelo simples facto de dar acesso a stock options aos nossos colaboradores. Na Europa não existe um mecanismo legal para o fazer. Há atalhos, mas não tão regulados como nos EUA”, explica.
“Neste pouco tempo que levamos de atividade já tivemos funcionários que pagaram a casa com as stock options, após as rondas de financiamento. E este exemplo funciona como um incentivo não só para os nossos colaboradores como também para fomentar ainda mais o sistema de empreendedorismo em Portugal
Uma política de stock options é, nas palavras do CEO da SWORD Health, essencial para “compensar e motivar as equipas”. “Neste pouco tempo que levamos de atividade já tivemos funcionários que pagaram a casa com as stock options, após as rondas de financiamento. E este exemplo funciona como um incentivo não só para os nossos colaboradores como também para fomentar ainda mais o sistema de empreendedorismo em Portugal.” Talvez por essa razão a SWORD Health não tenha tido dificuldade no recrutamento de talentos. A empresa tem atualmente uma equipa de 200 pessoas, metade em Portugal e outra metade nos EUA, e quer recrutar mais 200 engenheiros nos próximos meses.
Para lá do unicórnio
Após o primeiro investimento da Khosla Ventures, em 2019, a SWORD já abriu o capital a outros investidores. Em janeiro último, fez uma nova ronda de investimento, na qual captou mais 25 milhões de dólares. E só esperava ter de fazer um outro financiamento no final deste ano ou início do próximo. Mas, conta Virgílio Bento, devido ao crescimento que a atividade está a registar, “tive inúmeros investidores a baterem-me à porta”.
Cedeu porque “conseguimos trazer para a estrutura acionista alguns investidores que, dado o seu conhecimento do mercado e a sua rede de contactos, nos permitirão acelerar ainda mais o crescimento da empresa”, diz. Um destes investidores é a capital de risco norte-americana General Catalyst, que Virgílio Bento diz estar também na empresa de saúde digital mais bem-sucedida do mundo.
O interesse neste investidor era tal que a SWORD Health acabou por recusar outras propostas que até valorizavam mais a empresa. “Posso dizer que aceitei a proposta que menos a valorizava. Mas, nesta fase, eu não quero otimizar a valorização em mais 20 ou 30 por cento. O que eu procuro são parceiros certos que me ajudem a chegar aos meus objetivos.”
E quais são esses objetivos? “Nós estamos a criar uma empresa que tem um potencial de valorização de 100 mil milhões. Significativamente mais valiosa do que qualquer outra sociedade até hoje constituída em Portugal. Podemos vir a ser uma das empresas de saúde mais valiosas no mundo.”
Fisioterapia digital – Da prescrição ao envio do hardware, até à monotorização do tratamento
A SWORD Health é um prestador de serviços de saúde através de uma plataforma digital. Trabalha diretamente com seguradoras e outros sistemas de saúde. São estes que requisitam os serviços da empresa portuguesa para tratar os seus pacientes com patologias musculoesqueléticas. A SWORD Health presta serviços nos EUA, o seu maior mercado, Portugal, Austrália e, a partir de agosto, no Canadá.
Equipamento
Os pacientes recebem o hardware em casa, que é composto por um tablet e vários sensores digitais que se colocam no corpo. Estes sensores conseguem detetar os movimentos com uma precisão clínica. A primeira consulta é feita de forma virtual, através de videochamada, com um fisioterapeuta humano que irá prescrever o respetivo tratamento.
Tempo real
Após a prescrição, o acompanhamento é todo ele feito de forma remota. Com os sensores colocados, a pessoa faz os movimentos prescritos em frente ao tablet. Em tempo real, o sistema vai corrigindo a postura em cada movimento, de forma a respeitar exatamente o que foi prescrito pelo fisioterapeuta. As sessões podem ser feitas em qualquer local e à hora mais conveniente para o paciente.
Monitorização
A plataforma digital da SWORD Health recolhe todos os dados e, através da Inteligência Artificial e dos terapeutas humanos, irá a proceder a correções e alterações no tratamento ao longo das sessões de fisioterapia, até que a recuperação esteja terminada.
Artigo publicado originalmente na edição 448, de agosto de 2021, da revista EXAME