Foi uma das frases que se colou à imagem pública de Fernando Ulrich, quando respondeu à questão se o povo português aguentaria mais austeridade. Em outubro de 2012, falando numa conferência, a resposta do banqueiro foi a célebre “Ai aguenta, aguenta”, isto num momento em que os portugueses viviam tempo de dificuldades devido ao programa de ajustamento. Agora, em entrevista de vida à EXAME, o chairman do BPI não fugiu à questão, e admite que foi pouco prevenido na forma como respondeu.
“Com os dados que tenho hoje, foi uma estupidez”, afirma, na longa entrevista de vida publicada na EXAME especial dedicada às 500 Maiores & Melhores Empresas, já nas bancas. ” Foi numa conferência da Ordem dos Revisores Oficiais de Contas, no Hotel Ritz, onde havia um painel, e o orador que falou antes de mim foi o professor Paulo Trigo Pereira, e ele fez uma intervenção muito interessante em torno de seis questões. Uma delas era se as pessoas aguentavam mais austeridade, e ele dizia que não. E eu falei a seguir e tentei dizer-lhe que tinham de aguentar, daí o “aguenta, aguenta”, porque senão era preciso que os credores nos emprestassem mais dinheiro, e se eles não emprestassem, então não tínhamos alternativa. E naquele momento, ali na sala, a conferência continuou, para quem estava na sala aquilo surgiu como uma afirmação corriqueira, ao longo do debate”, enquadra Ulrich.
“Depois aconteceu aquilo… Ainda por cima para uma pessoa que já foi jornalista e que estava habituada a falar com os jornais e a participar em conferências, quando cheguei a casa à noite, quando vi as notícias e o que saiu, percebi obviamente que tinha sido uma grande estupidez, porque era fácil editar, colocar a pergunta e aquela resposta, sem dar a resposta toda. São ossos do ofício”, reconhece hoje em dia.
Ulrich admite que houve um impacto negativo dessa declaração na sua imagem pública. “De facto isso teve um grande impacto, negativo, mas eu continuei a andar por aí tranquilamente, nunca ninguém me tratou mal por causa disso, embora tenha tido interpelações de pessoas, na rua e na estação de comboio, curiosas e algumas dolorosas”.
E ilustra uma dessas situações. “Lembro-me de uma vez, estava eu à porta da escola da minha neta, e passou uma senhora com aspeto muito humilde, certamente vivia com muita dificuldade, e ela parou à minha frente ‒ cara a cara ‒ e disse-me: “Olhe para mim e diga-me lá como quer que eu aguente.” Disse isto sem animosidade, tinha talvez uma tristeza, não era para me bater. É uma pergunta difícil, dificílima, naturalmente, porque parecia ser uma pessoa que dificilmente aguentava mais. Mas mesmo essa senhora disse-me aquilo sem ser agressiva. Talvez seja por os portugueses serem de facto cordiais, humanos uns com os outros”, recorda.
Pode ler a entrevista na íntegra na EXAME especial 500 Maiores & Melhores, nas bancas de todo o país.