É difícil não entender Brittany Maynard. Impedida de controlar a sua vida, a americana de 29 anos, que sofria de um tumor cerebral, decidiu controlar a sua morte.
Mudou-se, com a sua família, da Califórnia para o Oregon um dos cinco Estados norte-americanos que permite a eutanásia e programou pôr fim à vida, através de medicação, no dia 1 de novembro, evitando as terríveis consequências de um glioblastoma em fase terminal.
O médico Miguel Julião, 33 anos, especializado em cuidados paliativos, está habituado a lidar com situações como esta. Mas garante que tem sempre uma solução para oferecer.
“A primeira coisa a fazer é estabelecer o compromisso do não abandono. Dizer ao doente que estamos ali para ele. A seguir, o médico deve procurar a origem do sofrimento e fazer tudo para o resolver”, explica o responsável pela unidade de cuidados paliativos da Fundação Champalimaud, em Lisboa.
Em Portugal, não há esta especialidade médica. Apesar disso, desde o segundo ano do curso de Medicina que Miguel Julião sabia que iria dedicar-se aos cuidados paliativos.
Foi fazendo formação em Harvard, nos Estados Unidos, e em Navarra, em Espanha, e acabou por escolher a área como tema de doutoramento. Com base num ensaio clínico, feito com 75 doentes em estado terminal, assistidos na Unidade de Cuidados Paliativos S. Bento de Menni, em Belas, Sintra, o médico chegou à conclusão de que 20% das pessoas tinha vontade de acelerar a morte o trabalho pioneiro valeu-lhe o prémio de melhor artigo, atribuído pela publicação científica Dorfman. “É uma taxa muito elevada,” sublinha.
“Em países como os Estados Unidos, Inglaterra ou Austrália este valor está entre os 8 e os 10 por cento.” Vários fatores condicionam este desejo de antecipar a morte, mas os principais, e comuns a todos os pacientes, estão bem identificados: a depressão, o estado civil e a severidade das tonturas. “A depressão potencia três a nove vezes o desejo de morrer; quando se tem um companheiro, uma pessoa que se ama, quer-se a todo o custo evitar ser um fardo; e as tonturas alteram a perceção da realidade”, clarifica o médico.
Humanizar os últimos momentos
Mas tudo isso pode ser revertido. É um alerta que Miguel Julião não se cansa de lançar.
“É muito importante ter a noção de que este desejo de antecipar a morte é intermitente, não está sempre presente.” A própria Brittany admitia que, se a 1 de novembro estivesse a sentir-se bem, sem ataques um dos mais perturbadores sintomas do cancro da cabeça, poderá adiar os seus planos.
Aos pacientes que mostravam desejo de antecipar a morte, Miguel Julião aplicava a terapia da dignidade. Normalmente uma única sessão de psicoterapia em que o doente fala sobre os momentos mais felizes da sua vida, do legado que quer deixar aos seus entes queridos, o que aprendeu com a doença.
A sessão é gravada e entregue, após a morte, aos familiares. “Não só o desejo de antecipar a morte desaparece como os doentes que fazem esta terapia vivem em média mais seis dias do que os outros.” Miguel Julião defende o regresso a uma medicina humanizada, à escuta ativa, ao respeito pela privacidade. “Em todo o mundo, a medicina está a perder a sua raiz hipocrática. Há uma desumanização dos cuidados. Uma sociedade evoluída é aquela que trata bem o que nasce e o que morre.”