A primeira missão da SIC Esperança foi dar cor às paredes do hospital pediátrico D. Estefânia, em Lisboa. A presidente desta instituição particular de solidariedade social (IPSS), Mercedes Balsemão, lembra-se bem deste “megaprojeto” e do seu impacto nas crianças. As paredes recheadas de histórias, que os pais ajudavam a contar, amenizavam a tensão e angústia provocadas por uma situação dolorosa. Dez anos depois, a SIC Esperança já apoiou mais de 500 instituições e angariou 4 milhões de euros. Sustentabilidade é uma das palavras-chave para o sucesso dos projetos que apoia. O tema que enquadra as ações deste ano está em sintonia com o Ano Europeu dos Cidadãos. Mercedes Balsemão apela aos portugueses para acreditarem que nada é impossível, fazendo justiça ao nome da instituição: “Esperança é um sinal de que se acredita num futuro melhor.”
Que balanço faz destes dez anos de SIC Esperança?
Fomos crescendo à custa da nossa experiência. Não há regras no campo da área social, os resultados não são aferidos como se se tratasse de uma empresa. Nestes dez anos, ajudámos cerca de 40 mil pessoas, o equivalente à população de Viana do Castelo. É muita gente. Mas mais importante do que os números é termos melhorado a qualidade de vida dessas pessoas.
Qual é a principal dificuldade que têm sentido?
As instituições, por vezes, vêm ter connosco, porque precisam de financiamento para os dois meses seguintes ou fecham as portas. Nesses casos, o nosso donativo não serviria de muito. Provavelmente, dali a dois meses, estariam de novo sem dinheiro. Queremos alterar esta mentalidade.
As instituições não podem viver para chegarem ao fim do mês, têm de criar projetos e perseguir objetivos sustentáveis.
Quais são os principais critérios para apoiarem uma associação?
Temos de confiar nela. O projeto tem de ser estruturado e garantir um real impacto na vida dos beneficiários. Procuramos não nos concentrar só em Lisboa, queremos chegar a todo o País. É da soma destes critérios que resulta a prioridade que damos a cada um. Por vezes, também somos nós que vamos ter com instituições e as desafiamos a apresentarem um projeto.
Sentiram um aumento das solicitações com o agudizar da crise?
Imenso. No caso do prémio SIC Esperança, que tem um valor monetário [20 mil euros], as candidaturas ainda não fecharam e já duplicaram em relação ao ano passado.
As parcerias são fundamentais para realizar campanhas e conseguir patrocínios?
São importantíssimas. Como somos uma IPSS integrada num grupo de comunicação social, os nossos parceiros acabam por ter mais visibilidade. Há empresas que nos procuram porque querem ajudar e nós ficamos muito satisfeitos.
Caminhamos na direção certa em matéria de responsabilidade social?
São quase sempre as mesmas empresas que se envolvem. Pelo menos, de acordo com a nossa experiência. Em todo o caso, acho que a responsabilidade social começa a entrar na filosofia empresarial. No entanto, o caminho ascendente em que seguíamos retrocedeu um pouco, por causa da crise.
Os portugueses são solidários ou deviam envolver-se mais?
A generosidade portuguesa existe, não a solidariedade. No Natal, toda a gente contribui, sobretudo monetariamente. Mas as pessoas deviam saber para o que estão a dar, deviam envolver-se para conhecerem melhor a realidade social. Não deve ser só pegar no dinheiro e entregá-lo. Quando há uma catástrofe, os portugueses ajudam, são generosos, mas não praticam a solidariedade. A generosidade é pontual e concreta, mas a vertente social, de contribuir para melhorar o que nos rodeia, ainda não entrou na cabeça das pessoas.
Pode destacar um hábito de cidadania que os portugueses devessem adotar, no âmbito das sugestões da campanha 10 Anos, 10 Ideias, da SIC Esperança?
A cidadania é o que faz mais falta. A solidariedade é o braço armado da cidadania.
O lema “Acredite e faça, nada é impossível” devia entrar nos hábitos dos portugueses.
Há um ceticismo muito arreigado e uma baixa autoestima que têm de ser contrariados.
Também gosto muito do “sorria”, o sorriso abre muitas portas, faz as pessoas sentirem-se melhor e é contagiante.
Que tipo de histórias é que mais a comovem?
Comovem-me imenso as crianças, elas são o nosso sinal de esperança, mas também as pessoas da terceira idade. Há uns anos, concretizámos um projeto muito bonito com a associação Coração Amarelo, em que perguntávamos aos idosos qual era o seu sonho. Eram coisas tão simples como ir ver o mar, ter um par de sapatos novos ou receber uma caixa de chocolates. Também houve uma senhora que quis publicar um livro de poemas. É muito comovente ver que as pessoas não querem grandes coisas.
Que projeto gostaria de concretizar com a SIC Esperança, nos próximos dez anos?
Era muito bom ir a todas, mas é um sonho quase impossível. O tema da deficiência é um assunto que gostava de ver melhorado.
Automóveis mal estacionados, cadeiras de rodas que não passam em imensos sítios… Gostaria de contribuir para que, em todo o País, houvesse vontade de resolver estes problemas.