Hortência reclina-se sobre a cama acabada de fazer. Os 82 anos, quase 83, pesam-lhe. É-lhe difícil estar muito tempo de pé. Ana, a filha de 56 anos, e Márcia, a neta de 31, sentam-se também nas duas camas de um dos quatros de uma pensão no centro de Lisboa que lhes serve de casa há mais ou menos um mês, desde que a Câmara Municipal de Odivelas as despejou. O quarto de Hortência e Ana não tem janelas e fica ao lado do quatro onde Márcia e os dois filhos, de 12 e 10 anos, dormem. Ao fundo do corredor fica a casa de banho partilhada com todos os hóspedes do piso. Não têm como cozinhar nem lavar roupa e isso leva-lhes grande parte do pouco dinheiro que recebem. Ana e Márcia fazem limpezas para uma empresa que trabalha para a câmara de Odivelas, mas apenas a meio tempo. Cada uma não traz para casa mais de 400 euros.
No dia em que as despejaram, sem saber o que fazer, ligaram para Carlos Kangoma, do Movimento Vida Justa. Foi ele que lhes deu o dinheiro para pagar o transporte até à pensão. Levaram apenas poucas coisas, deixaram quase tudo na casa de onde saíram sem perceber bem o motivo do despejo, depois de um processo que começou com uma carta que Hortência afirma não ter recebido, por ter sido entregue a um filho toxicodependente, que não terá avisado a mãe da notificação. “Não tenho uma dívida. Paguei sempre tudo”, insiste Hortência, que diz nem ter ainda cancelado o débito direto da renda, apesar de a decisão de despejo já ter transitado em julgado.
