Ouvi falar da Mísia pela primeira vez quando lancei O Último Cabalista de Lisboa em Madrid, em 1998. Antes do evento, o embaixador português disse-me que a figura cultural portuguesa mais respeitada em Espanha era a Mísia. Comecei a comprar os seus discos e fiquei muito impressionado, sobretudo pela forma como ela cantava em português e espanhol. Dois anos mais tarde, estava a fazer promoções em Londres e descobri que ela ia dar um concerto nessa noite. Consegui o seu e-mail e enviei-lhe uma mensagem, sugerindo que tomássemos chá. Respondeu-me e disse que estava demasiado ocupada para se encontrar comigo, mas que me deixaria um bilhete na bilheteira. No concerto, cantou com tanta força e graça que o público ficou extasiado. Começámos a trocar mensagens de vez em quando e ela tornou-se uma fã dos meus livros (uma feliz surpresa!). Em 2015, o meu marido [Alexandre Quintanilha] foi eleito para o parlamento, o que nos permitiu jantar com ela de vez em quando em Lisboa. Em pessoa, nunca se fez de diva. Era simplesmente a Susana (o seu nome verdadeiro). E apesar de nos ter contado como foi mal tratada por alguns fadistas portugueses, não se tinha tornado azeda. Estava satisfeita com o seu trabalho e adorava cantar para os seus fãs em França e em muitos outros países onde foi uma grande estrela. E adorava os seus queridos animais de estimação e os seus amigos. Nos últimos anos, embora soubesse que teria de fazer quimioterapia para o resto da vida, nunca se queixou, talvez porque estivesse sempre a planear novos discos e concertos. Há uns anos, pediu-me para apresentar a sua autobiografia – Animal Sentimental – e descobri que era uma talentosa escritora. Durante a apresentação, tive um ataque de riso ao ler uma história engraçada e não consegui acabar o excerto. Entreguei-lhe o livro para ela me substituir na leitura. Enquanto lia as suas próprias palavras, senti-me grato por poder estar a ouvi-la. E por estar sentada no palco com ela. E por ser o seu amigo. Ainda sinto essa gratidão.
*Richard Zimler
Escritor. O seu mais recente livro, para o público infantil, é Ernesto – O Robô que Pintou o Sono e a Doçura
