Tem peso a mais? Pode receber um salário mais baixo. Mas só se for mulher. As provas por detrás desta conclusão

Enquanto o preconceito com a cor de pele ou orientação sexual tem diminuído, o com o tamanho do corpo está a aumentar

Tem peso a mais? Pode receber um salário mais baixo. Mas só se for mulher. As provas por detrás desta conclusão

Uma mulher considerada obesa ou com excesso de peso pode aspirar a ser uma executiva de alto nível? A pergunta parece desajustada, até chocante, em pleno século XXI, e, no entanto, ela tem de ser colocada quando as mulheres continuam a ser julgadas – e penalizadas – pela aparência no local de trabalho.

Por esta altura, a sociedade já sabe de cor que é errado criticar o aspeto físico dos outros. A narrativa atual fala da saúde e do bem-estar, em vez de corpos estereotipados, mas a realidade mostra que o preconceito em relação às pessoas fora da norma persiste – e, pior, os estudos demonstram que tem aumentado.

Há mais de três décadas, Ginni Rometty, que em 2012 haveria de tornar-se a primeira CEO da IBM, em 100 anos de empresa, perguntou à chefe direta se achava que ela comia demasiado. A chefe tinha-a encorajado, eufemisticamente, a ficar em “boa forma física”, se queria ocupar um cargo executivo de topo.

Rometty, então com 30 e poucos anos, estava sempre a ganhar e a perder peso, mas nunca tinha pensado nele como um obstáculo à sua carreira. Afinal, a hipótese era real – e nada mudou entretanto, lamenta no seu livro de memórias, Good Power, publicado em março deste ano.

É isso mesmo que demonstra consistentemente a investigação sobre o tema. Numa análise de vários estudos, o economista David Lempert, que trabalhou na área das estatísticas do governo dos Estados Unidos da América, concluiu que basta um aumento de 10% na massa corporal de uma mulher para o salário ser reduzido em 6%. Uma redução que se junta ao facto de as mulheres ganharem, em média, menos 20% do que os homens naquele país, lembrou à rádio pública americana NPR.

“Quando somamos a penalização por ser mulher à penalização por ter excesso de peso, a redução líquida é bastante grande”, sublinhou o mesmo economista, que agora trabalha na Associação Americana de Compositores, Autores e Editores. “E o outro lado da moeda é que se premeiam as mulheres magras.”

Num dos artigos que escreveu com base nessa análise, citado pela revista The Economist, David Lempert lembra que, à medida que envelhecem, as mulheres com peso a mais sofrem os efeitos de anos de discriminação salarial acumulada. Os seus salários iniciais são mais baixos do que os das outras mulheres e, ao longo da carreira, recebem menos aumentos e menos promoções.

O mesmo investigador nota, ainda, que ocupar um cargo superior não as defende de eventuais penalizações financeiras, pelo contrário: as executivas consideradas obesas ou pré-obesas podem ver os salários reduzidos até 16%, concluiu.

A ilusão do controlo

Inesperado é também o facto de esta discriminação não ter diminuído, quando há cada vez mais pessoas com excesso de peso nos Estados Unidos da América. “Uma mulher obesa de 43 anos teve uma penalização salarial maior em 2004 do que aos 20 anos, em 1981”, exemplifica David Lempert. “E uma mulher obesa de 20 anos tem hoje uma penalização salarial maior do que teria recebido em 1981, aos 20 anos.”

A “normalidade” não só não acabou com o estigma como ainda o aumentou, demonstrou um estudo da Universidade de Harvard, nos EUA, que analisou dados de mais de quatro milhões de testes online sobre preconceitos implícitos, feitos entre 2007 e 2016.

Basta um aumento de 10% na massa corporal de uma mulher para o seu salário ser 6% reduzido, revelou uma análise de vários estudos, realizada pelo economista David Lempert

Enquanto os preconceitos em relação à orientação sexual e ao tom de pele diminuíram, durante esse período, os preconceitos respeitantes ao peso aumentaram 40%, sobretudo nos primeiros anos do estudo, cujos resultados foram publicados em 2019, na revista Psychological Science.

“É muito preocupante que o preconceito em relação ao peso esteja a aumentar, ao mesmo tempo que o número de pessoas que dele sofre também está a aumentar”, disse ao NPR a psicóloga Tessa Charlesworth, que, com a colega Mahzarin Banaji, analisou os dados.

Embora não se saiba ao certo o que levou ao aumento do preconceito, as duas investigadoras sugerem que existe uma perceção de que o peso corporal é algo que se pode controlar, ao contrário da cor da pele. Mas isso não é verdade, lembram. A grande maioria das pessoas que faz dieta para perder peso volta a ganhá-lo ao fim de uns anos.

Além disso, observam as mesmas psicólogas, muita gente interpreta um corpo maior como “pouco saudável”, podendo, por isso, concluir que, “se está gorda, a pessoa está doente”.

A desculpa da saúde

É verdade que o excesso de peso é fator de risco para inúmeras patologias, como a diabetes tipo 2, a doença cardíaca isquémica e o acidente vascular cerebral. Em Portugal, só em 2018, morreram mais de 46 mil pessoas com doenças relacionadas com a obesidade, representando 43% dos óbitos ocorridos nesse ano. E, em 2021, foram gastos €1,1 mil milhões com a obesidade e a pré-obesidade, um custo que representou 6% das despesas anuais com a saúde.

Para poderem pagar seguros de saúde aos obesos, potencialmente mais caros, os patrões oferecem-lhes salários mais baixos. Essa é uma das explicações avançadas pelos investigadores para justificar o preconceito, mas esta não colhe na Europa, onde os cuidados de saúde são assegurados pelo Estado, e também não explica por que razão só as mulheres são penalizadas financeiramente.

Segundo os estudos realizados, apenas elas têm os salários “indexados” ao peso, com uma única exceção: em 2014, investigadores suecos analisaram 150 mil homens que eram obesos aos 18 anos e descobriram que vieram a ganhar menos 16% do que os pares com peso normal. Mesmo aqueles que tinham apenas excesso de peso (ou seja, um índice de massa corporal entre 25 e 30) receberam salários significativamente mais baixos na idade adulta.

A chefe de Ginni Rometty talvez estivesse a ser pragmática quando lhe chamou a atenção para a maneira como se vestiam os executivos seniores da IBM – “Eles usam fatos.” Se ela tivesse trocado os vestidos coloridos por uns saias-casacos monocromáticos, mimetizando os blazers dos colegas homens, teria conseguido chegar mais cedo aos lugares cimeiros da empresa?

Obesidade no mundo

Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde, o excesso de peso não tem parado de aumentar, em todas as idades

ADULTOS

Em 2016, mais de 1,9 mil milhões de adultos, com 18 anos ou mais, tinham excesso de peso. Destes, mais de 650 milhões de adultos eram obesos.

Ou seja, 39% dos adultos, com 18 anos ou mais (39% dos homens e 40% das mulheres), tinham excesso de peso e cerca de 13% da população adulta mundial (11% dos homens e 15% das mulheres) era obesa.

JOVENS

A prevalência de excesso de peso e de obesidade, em crianças e adolescentes, entre os 5 e os 19 anos, aumentou drasticamente de apenas 4%, em 1975, para um pouco mais de 18% (mais de 340 milhões), em 2016.

O aumento ocorreu de forma semelhante entre rapazes e raparigas: em 2016, 18% das raparigas e 19% dos rapazes tinham excesso de peso.

Enquanto em 1975 um pouco menos de 1% das crianças e adolescentes, com idades compreendidas entre os 5 e os 19 eram obesos, em 2016 mais de 124 milhões de crianças e adolescentes (6% das raparigas e 8% dos rapazes) sofriam de obesidade.

Quanto às crianças com menos de 5 anos, estima-se que 38,2 milhões tinham excesso de peso ou eram obesas, em 2019.

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