Desde 2015 que, durante os segundos sábados de maio e de outubro, o mundo junta-se a observar e a registar aves. E as pessoas podem fazê-lo até da janela das suas casas, por uns breves minutos, lembraram, em maio de 2020, os organizadores deste Global Big Day, quando estávamos no início da pandemia de Covid-19.
“As suas observações vão ajudar-nos a compreender melhor as populações mundiais de aves”, sublinharam, então, os investigadores do laboratório de ornitologia da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, onde foi desenvolvido o eBird, um programa de fácil utilização e 100% gratuito.
O Global Big Day coincide com o Dia Mundial das Aves Migratórias, criado em 1993, pelo Smithsonian Migratory Bird Center, em Washington, para contrariar a crença de que essas aves eram as culpadas pela disseminação do vírus da gripe aviária H5N1. A data é celebrada duas vezes por causa da natureza cíclica da migração das aves e dos diferentes períodos de migração nos hemisférios norte e sul.
As aves migratórias são indicadoras de qualidade ambiental a nível global, uma vez que atravessam continentes e precisam das mesmas condições ecológicas do ano anterior para darem continuidade às suas populações. O duplo dia mundial tem como finalidade aumentar o nível de consciencialização sobre as ameaças que elas enfrentam. E se o caro leitor está a pensar nos vidros dos edifícios, está a pensar bem. Mas há mais.
Em 2006, o seu dia mundial foi oficialmente instituído pelo Secretariado do Acordo para a Conservação das Aves Aquáticas Migradoras Afro-Eurasiáticas, em colaboração com o Secretariado da Convenção de Bona (sobre as espécies migratórias de animais selvagens). Desde então, o Planeta juntou-se num movimento em que pontifica o registo destas aves duas vezes por ano.

Para participar na observação global deste sábado, 13, é preciso criar uma conta no eBird, um programa de listas de observação de aves já utilizado por milhões de pessoas. É ele que vai permitir juntar as observações de toda a gente numa única lista e recolher dados que futuramente serão utilizados pelos cientistas. [Em alternativa, pode também abrir uma conta no site PortugalAves eBird e aceder a todos os projetos do laboratório de ornitologia da Universidade de Cornell]
O Global Big Day decorre da meia-noite à meia-noite, no fuso horário local. As observações podem ser registadas no site ou na aplicação. Se for na app, é possível introduzir e submeter listas durante a observação e ela regista a distância percorrida.
Caso seja necessário ajuda para saber que ave estamos a ver, o laboratório sugere a sua app Merlin ID, também gratuita, capaz de identificar mais de 2 mil espécies de aves comuns na Europa, EUA, Canadá, México e América Central. A app começa por fazer algumas perguntas simples, revelando a lista de aves que combinam com a nossa descrição e avançando as suas características, fotografias e sons. No caso de termos uma fotografia, sugere logo uma identificação.
Ao longo do dia, podemos ir acompanhando no site as observações que vão sendo feitas um pouco por todo o mundo, em tempo real. Os organizadores pedem que se proceda aos registos até ao dia 16, para serem incluídos nos resultados iniciais.
Portugal é considerado um dos destinos europeus mais interessantes para a observação de aves. Em março e abril, chega grande parte das aves nidificantes, oriundas da África subsariana. Quando o verão está a terminar e o outono se aproxima, estas aves migratórias iniciam viagem rumo às zonas de invernada, geralmente para o norte de África ou para a África subsariana. Algumas também fazem o caminho contrário: passam o Inverno em Portugal porque viajaram de territórios mais a norte. [Os “mistérios da migração” estão bem explicados neste artigo da revista Pardela, da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA)]

Muitas estão apenas de passagem, mas as espécies que se guiam pela linha de costa podem ser avistadas em vários locais. As zonas húmidas costeiras são, por isso, particularmente adequadas para a observação de aves migratórias – é ali que elas se alimentam e repõem energias antes de continuarem viagem.
Não se estranha, por isso, que o tema central do dia mundial para 2023 seja a água e a sua importância vital para estas aves. “Elas dependem da água e dos habitats que lhe estão associados – lagos, rios, ribeiros, lagoas, pântanos, lodaçais e zonas húmidas costeiras – para se reproduzirem, repousarem, recarregarem as baterias durante a migração e invernarem”, lembra-se no site oficial. Mas a procura crescente de água por parte do homem, as alterações climáticas e a poluição, entre outros fatores, ameaçam estes valiosos ecossistemas aquáticos. “Os títulos dos jornais de todo o mundo fazem soar o alarme: 35% das zonas húmidas do mundo, essenciais para as aves migratórias, perderam-se nos últimos 50 anos.”

Os exemplos metem dó.
O Grande Lago Salgado de Utah, nos Estados Unidos, o maior lago de água salgada do Hemisfério Ocidental, poiso preferido de mais de um milhão de aves limícolas, corre o risco de desaparecer dentro de apenas cinco anos.
Na bacia asiática de Amur-Heilong, que inclui partes da Mongólia, Rússia e China, as alterações climáticas estão a amplificar o impacto da destruição dos habitats, privando as aves migratórias de locais vitais de reprodução e de paragem.
Outro caso preocupante é o do Mar de Aral, partilhado pelo Cazaquistão e pelo Uzbequistão. Já foi o quarto maior lago do mundo, mas agora é considerado um dos piores desastres ambientais. Como o lago quase secou por completo por causa dos projetos de irrigação durante a era soviética, as aves migratórias perderam importantes fontes de alimento e um local de paragem essencial na sua viagem.
“Dado que as aves migratórias atravessam fronteiras nacionais e mesmo continentes, a cooperação internacional é essencial para garantir que sejam tomadas medidas para conservar e restaurar habitats importantes para as aves migratórias e para abordar as causas da perda de água, da poluição e das alterações climáticas”, sublinhou Amy Fraenkel, secretária-geral da Convenção de Bona (sobre as espécies migratórias de animais selvagens), na apresentação da campanha deste ano.

No ano passado, a poluição luminosa foi o foco da campanha do Dia Mundial das Aves Migratórias. A luz artificial está a aumentar globalmente pelo menos 2% ao ano, ameaçando muitas espécies de aves migratórias. A poluição luminosa causa desorientação quando elas voam à noite, levando a colisões com edifícios, perturbando os seus relógios internos ou interferindo na sua capacidade de fazer viagens de longa distância. Este pequeno filme de animação mostra bem o que lhes acontece.
As fachadas envidraçadas, tão comuns nas cidades, são das maiores responsáveis pela morte de aves, por causa da transparência e do reflexo. Estima-se que, só nos Estados Unidos, morram entre 365 e 988 milhões de aves por ano em colisões com edifícios.
É possível evitar grande parte deste tipo de acidentes, mas a triste estatística já teve um reverso positivo para a Ciência. Foi graças a alguns milhares de aves mortas dessa forma que se descobriu que as aves migratórias norte-americanas estavam a ficar mais pequenas e as suas asas mais compridas, duas alterações que parecem ser respostas ao aquecimento global.
A diferença não é visível a olho nu (alguns gramas na massa corporal e alguns milímetros no comprimento das asas). Só foi possível descobri-la graças às medições minuciosas realizadas ao longo de várias décadas por David E. Willard, ornitólogo e diretor de coleções emérito do Field Museum, em Chicago.

A partir de 1978, Willard e voluntários do projeto de conservação Monitores de Colisão de Aves de Chicago começaram a recolher as aves mortas ao embaterem em edifícios da cidade durante as migrações da primavera e do outono. Todas as madrugadas, pelas 3h30, faziam a recolha na vizinhança do museu. Para cada espécime, o ornitólogo realizava várias medições dos seus pequenos corpos, anotando os dados à mão, num livro de registos.
O registo começou por acaso, quando alguém lhe contou que acontecia por vezes entrarem aves no McCormick Place, um centro de convenções gigante a apenas 1 km do museu. O ornitólogo ficou curioso e uma manhã foi dar um passeio à volta do edifício. “Encontrei algumas aves mortas e trouxe-as para o museu. Sempre me perguntei se, se não houvesse aves nessa manhã, não me teria dado ao trabalho de lá voltar”, contaria.
Ao longo dos anos, Willard e os voluntários recolheram mais de 100 mil aves que haviam colidido com o McCormick Place e outros edifícios na baixa de Chicago. Willard começou a notar alterações subtis nas medidas das aves, mas não era claro que estivessem a ocorrer mudanças estatisticamente significativas.

Quase 40 anos depois do início dessa sua medição sistemática, uma equipa de biólogos da Universidade de Michigan (U-M) decidiu analisar o seu conjunto de dados extremamente detalhado de 70 716 aves migratórias norte-americanas de 52 espécies. E o autor sénior do estudo era Benjamin Winger, do departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da U-M e do Museu de Zoologia, que começara a trabalhar em análises estatísticas dos tamanhos das aves quando ainda era um estudante de pós-graduação, no Field Museum.
Os investigadores iam à procura de tendências no tamanho e na forma do corpo e descobriram que, de 1978 a 2016, o tamanho do corpo diminuíra em todas as espécies, com declínios estatisticamente significativos em 49 delas. Mais: durante o mesmo período, o comprimento das asas aumentara significativamente em 40 espécies, leu-se quando o estudo foi publicado, a 4 de dezembro de 2019, na revista Ecology Letters.
“Tínhamos boas razões para esperar que o aumento das temperaturas levasse a reduções no tamanho do corpo, com base em estudos anteriores. O que foi chocante foi a consistência do fenómeno. Fiquei incrivelmente surpreendido com o facto de todas estas espécies estarem a reagir de forma tão semelhante”, afirmou, então, o autor principal do estudo, Brian Weeks, investigador de pós-doutoramento no laboratório de Winger e professor na Escola de Ambiente e Sustentabilidade da Universidade de Michigan.

Este estudo foi a maior análise de sempre das respostas do tamanho do corpo ao aquecimento global recente e mostrou as respostas mais consistentes em grande escala para um grupo diversificado de aves, disse Weeks. “Os períodos de aquecimento rápido foram seguidos de perto por períodos de declínio do tamanho do corpo, e vice-versa. Ser capaz de mostrar esse tipo de detalhe deve-se inteiramente à qualidade do conjunto de dados gerado por David Willard”, sublinhou.
Para cada ave, Willard mediu o comprimento de um osso da perna inferior chamado tarso, o comprimento do bico, o comprimento da asa e a massa corporal, explica-se no estudo. Nas aves, o comprimento do tarso é considerada a medida mais precisa da variação do tamanho do corpo dentro da mesma espécie.
A análise dos seus dados revelou que o comprimento do tarso diminuiu 2,4% em todas as espécies. Ao mesmo tempo, o comprimento da asa registou um aumento médio de 1,3%, sendo que as espécies com as diminuições mais rápidas no comprimento do tarso foram também as que apresentaram os aumentos mais rápidos no comprimento da asa.
Ao longo do estudo, as temperaturas nos locais de reprodução de verão das aves a norte de Chicago aumentaram cerca de 1 grau. Os investigadores concluíram que os seus corpos diminuíram significativamente com esse aumento da temperatura.

Os autores do estudo sugeriram, então, que a diminuição do corpo é uma resposta ao aquecimento global (porque um corpo mais pequeno liberta calor mais facilmente) e que o aumento do comprimento das asas pode ajudar a compensar as perdas de massa corporal. E prometeram voltar a analisar os dados recolhidos por Willard para testarem essa ideia.
Foi o que fizeram – mas já não apenas com as aves mortas, recolhidas e medidas em Chicago. A equipa, desta vez com Marketa Zimova a assinar à cabeça o novo estudo agora publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), decidiu procurar provas de que o fenómeno estava a acontecer em todo o mundo.
Os investigadores americanos colaboraram, então, com uma equipa que estuda aves não migratórias na Amazónia e que já tinha medido mais de 15 mil aves, de 77 espécies, capturadas com rede e libertadas após as medições.
Foi então que encontraram uma sobreposição “notável”, escreveram: as espécies da América do Sul também sofreram diminuições semelhantes no tamanho do corpo e aumentos no comprimento das asas. Mas não estavam preparados para o que descobriram logo a seguir: as aves pequenas tinham mudado mais depressa do que as grandes.

A equipa de Michigan testou, então, a hipótese de as aves pequenas se reproduzirem mais velozmente, fazendo com que a evolução as afetasse mais rapidamente. Mas, ao estudarem as gerações, não encontraram qualquer relação.
A questão, agora, é saber se a evolução por seleção natural está a levar estas mudanças, disse Winger, ao jornal The Hill. No caso de “a cada geração, as aves mais pequenas estarem a ter melhores resultados, a produzir mais descendentes e a morrer menos, há uma maior seleção no sentido de um tamanho corporal mais pequeno”, explicou.
Winger e os colegas observaram, ainda, que a evolução rápida pode ser necessária para que muitas espécies sobrevivam em ambientes que também estão a mudar rapidamente por causa das alterações climáticas.
Mais uma ideia a ter em mente neste Dia Mundial das Aves Migratórias.