Quando a esmola é muito grande o pobre desconfia, já diz o provérbio. E a sabedoria popular continua a estar certa. Esta sexta-feira, quando todas as montras de lojas e sites de marcas destaparem os seus melhores preços, é preciso estar com os sentidos alerta. “Desconfie-se de descontos acima de 50%, não existem. Muito poucas marcas podem ter 50% de margem. Automaticamente antes houve inflação do preço original”, explica Paulo Pimenta, CEO do KuantoKusta, site comparador de preços. “Não importa o desconto, importa o preço final”, salienta.
Os consumidores devem ver o histórico do preço do produto nos dias anteriores e até mesmo da concorrência, pois “mais de metade é marketing”. E, diga-se que desde o início de novembro, as pessoas têm feito o seu trabalho de casa. No KuantoKusta, as comparações de preços estão a aumentar: na primeira semana do mês foram cerca de 200 mil por dia, esta semana já vão em mais de 320 mil diárias e na Black Friday mesmo, na sexta-feira, estimam ter entre 600 a 700 mil pessoas a visitar o site.
Não importa o desconto, importa o preço final
Paulo Pimenta, CEO do KuantoKusta
Também no início de novembro, Paulo Pimenta explica como começaram a colocar um “selo de oportunidade” nas verdadeiras boas compras. Ou seja, começaram a identificar de forma clara os produtos que estão com o preço mais barato dos últimos 30 dias. Uma maneira de alertar para uma manigância feita pelos comerciantes: comparar o desconto atual com um preço alto anterior, em vez de comparar com uma última promoção. “Uma falha na lei que as lojas aproveitam e dia sim, dia não podem anunciar uma promoção”, explica o empresário.
Para que os consumidores tenham ainda mais informação de modo a não caírem em contos do vigário, a KuantoKusta aumentou a frequência com que atualiza os preços. As habituais três a quatro vezes por dia, agora com as marcas cada vez mais dinâmicas, passam a ser revistas de hora a hora, porque de manhã pode estar um preço e à tarde mais barato.
É curioso saber como é que os portugueses compram, ou melhor, pesquisam o que querem comprar. Não são pesquisas genéricas, mas por objeto muito específico, com modelos, coleções e pormenores. Os portugueses sabem exatamente o que querem, as incertezas só surgem na hora de escolher eletrodomésticos. Aí começam por balizar o preço, só depois olham para a marca e para as características do equipamento.
Paulo Pimenta poderia vender estes dados do top de pesquisas às marcas, assegurando-lhes o que os consumidores nacionais procuram, mas faz questão de não o fazer: “Tentamos mostrar a fotografia do mercado e não influenciar o mercado.”
Sendo cada vez mais raro as marcas terem preços diferentes no online e na sua loja física, são os produtos de tecnologia, como consolas, smartphones topo de gama, computadores, monitores, tablets e televisores, bem como acessórios de moda, principalmente carteiras de marcas de luxo, e eletrodomésticos a encabeçarem a procura – e são também estas as áreas em que maiores falsas promoções podem existir, porque os valores de venda são maiores. Também as fraudes eletrónicas são mais apetecíveis de realizar nestas compras.
Nesta altura são criados sites falsos, com design em tudo semelhante ao original de uma marca. Ao comprar num site que é uma cópia, as pessoas estão a fornecer os seus dados pessoais e a pagar por um produto que, quase de certeza, não chegará a casa, no caso de compras online. “As pessoas são guiadas pelas emoções e pelo impulso”, constata Telmo Santos, CEO da EuPago, instituição financeira que funciona como intermediário de meios de pagamentos para pequenas empresas.
Dados pessoais como o cartão matriz do homebanking, número de telemóvel ou IBAN (número que identifica a conta bancária) nunca, mas nunca devem ser partilhados.
Com o sistema MBWay também é preciso muita atenção: se em vez de receber uma notificação para fazer o pagamento, o comerciante lhe enviar o número de telefone, não pague. “Não é normal o comerciante enviar um número para receber fundos. Isso é uma prática entre particulares”, alerta Telmo Santos.
Também se deve desconfiar quando o preço do produto é muito inferior ao preço de mercado e o vendedor é muito insistente na realização do pagamento. Atenção à configuração do website, ao seu domínio e o certificado de segurança.
Nunca se pague uma compra se se for direcionado para uma página (que pode ser falsa) da instituição bancária – é natural que esteja a ser alvo de phishing, fraude eletrónica em que ficam com os dados bancários.
Resumindo: atenção aos sites que podem ser falsos, principalmente de grandes marcas; não é normal os sites enviarem links para fazer o pagamento; ao fazer compras em redes sociais deve-se olhar primeiro para o perfil do vendedor, pode ser falso. Primeiro pesquisar e só depois comprar.