Diziam que humanizava a praça do Saldanha. Que o seu gesto amigável e gentil trazia mais candura às noites lisboetas. Em seu redor criou-se uma tertúlia que o acompanhava ao cinema, no Monumental ou no El Corte Inglès, e ainda hoje mantem o ritual, classificando inclusive os filmes com um, dois ou três «acenos», como se fossem estrelas.
Era uma figura do imaginário colectivo da cidade, ícone lisboeta, com o seus óculos de massa escura, cabelos escorridos e porte aristocrático e que dedicava as noites a «matar a solidão», saudando quem passava na zona da Praça Duque de Saldanha. De João Manuel Serra, que morreu aos 79 anos, na realidade pouco se sabe – aliás, diz Filipe Melo, que co-administra uma página de facebook de tertúlia de cinema em sua homenagem, dessa ambiguidade vinha-lhe o seu encanto. A sua poesia. Diziam que era simplesmente louco; um milionário que apanhara um desgosto; um artista que usava aquele gesto para se exprimir e unir as pessoas; alguém que se tentava conectar simplesmente com o outro e combater a solidão. Certo é que, dizem também, tornava a cidade menos impessoal. Era uma presença, uma saudação, um gesto de amizade que espalhava uma espécie de alegria…
Inspirado nele já se fez uma curta metragem da autoria do realizador e músico Filipe Melo e até um fado, cantado por Carlos do Carmo e Marco Rodrigues. Também Abrunhosa e Sassetti lhe dedicaram composições. Agora, no orçamento participativo da câmara deste ano, cidadãos apresentaram a proposta de lhe erguer uma estátua (poderia até ser um holograma) no local onde ele se costumava posicionar. A câmara já se tinha antecipado ao projecto, prevendo a colocação de uma placa da autoria do escultor José Aurélio, de forma circular, em pedra gravada e com um metro de diâmetro e 10 cms de espessura. A pedra é Ataíja Rija, oriunda da serra dos Candeeiros, por ser material que suporta grande desgaste e se integra com os materiais existentes no passeio, ficando situada junto á confluência entre a Av. Fontes Pereira de Melo e Praça Duque de Saldanha, eliminando o risco de queda de quem passa.
Filipe Melo, que foi amigo pessoal de João Manuel Serra, não esconde a felicidade pelo projeto, por que batalhou durante tantos anos, ir finalmente em diante. Não será uma estátua, como era a ideia inicial, e que teria seguramente outro impacto. Mas explica, Filipe, uma homenagem figurativa também seria redutor. “A ideia da placa no chão convida as pessoas a posicionar-se no local do senhor do adeus e a acenarem também. O senhor do adeus não é aquela pessoa, somos todos nós”.
Segundo conta Filipe, o senhor do adeus era “a pessoa mais culta” que ele conheceu na vida. Tinha tanta curiosidade por cinema que chegava a ver tudo o que encontrava em cartaz, ” e depois repetia os filmes”. Oriundo de uma família de posses, não trabalhou, nunca casou, viveu sempre com a mãe, não teve descendentes. E talvez por isso pôde dedicar toda a vida «a olhar para o lado artístico e interessante da vida”: “O que fazia com que ele não fosse normal, era o seu lado extraordinário; Ele tinha um elevado grau de poesia”. A estranheza do seu hábito, a análise do seu gesto do aceno, cabe às pessoas interpretarem. E Filipe gosta de pensar nele como um “artista performativo”.
Quanto ao facto de a Câmara estar a homenagear esta figura (e não outra, como Salgueiro Maia no Largo do Carmo, por exemplo) Filipe diz que o argumento não colhe: ” é como dizer que não se deve prestar atenção aos animais quando há tantos humanos a passarem fome”. Pelo contrário, a colocação desta placa de homenagem a alguém improvável e menos óbvio, que não foi político nem alguém com obra feita, deixa-me esperançoso. Quer dizer que a Câmara valoriza a poesia”.
A placa apenas aguarda a ocasião adequada para a sua colocação no local. Calcula-se que tal acontecerá aquando da requalificação, em curso, da Praça Duque de Saldanha, que ganhará espaços pedonais, 69 árvores ( jacaranda-mimoso, coreutéria, pereira-de-jardim, cerejeira-brava, plátano e tipuana) e uma ciclovia bidirecional. E a tal zona, agora assinalada, para acenar a quem passa.