A força dos relatos e a riqueza humana da experiência levaram Beatriz Matoso a decidir partilhar o que tem vivido na cadeia feminina dos arredores de Lisboa. Voluntária da Associação Dar a Mão, uma vez por mês Beatriz Matoso dirigia as “Conversas em Roda” na prisão. Os testemunhos ouvidos nesses encontros saltaram os muros para chegarem aos leitores, a partir de quinta, 8, quando “Nas Margens Nascem Flores”, da editora Marcador, chega às livrarias.
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Como surgiu a ideia deste livro?
No Natal de 2012, um grupo de reclusas ofereceu-nos, a mim e à enfermeira Pilar, que faz as sessões comigo, como prenda de Natal um livro escrito e encadernado à mão com o registo das “Conversas em Roda”. É uma relíquia que me fez pensar como estavam ali vivências tão intensas.
Foram quase cem sessões. Houve alguma que a marcasse mais?
Sim. Passam sempre palavras carregadas de sentimentos. E há algumas que nunca esquecemos. Um dia uma reclusa vem ter comigo no fim da sessão e diz-me: ‘Abrace as árvores. Mergulhe no mar. Rebole na terra. Faça tudo isso por mim, por favor’.
E fez?
Raramente vou para o mar sem me lembrar disto. Senti-me uma privilegiada por ela me ter transmitido um desejo tão profundo.
A sua presença permite uma evasão psicológica?
Estas histórias acabam por entrar na nossa vida. Uma vez, próximo do Natal, uma mulher disse-me que não sabia como ia passar aquela noite porque ficaria sozinha. Eu disse-lhe: ‘Não, você vai ficar comigo porque me vou lembrar de si este Natal’. Uma mês depois, quando a reencontrei, perguntei como tinha passado o Natal e ela disse-me: ‘Foi consigo, como tínhamos combinado. Tinha bolachas e um sumo. Pus a mesa para as duas e estivemos juntas’.
Ajuda as prisioneiras a libertarem-se através da imaginação?
A imaginação é uma forma de nos evadirmos das situações mais penosas. Uma das coisas que proponho são jogos que puxam pela imaginação e libertam do negativo. Os jogos criam dinâmicas mais livres e funcionam quando as dores são mais difíceis.
A maior parte das pessoas foge da população e do ambiente prisional. No seu caso, foi à procura deles. Porquê?
Sinto-me muito enriquecida. Não estou lá por caridade. Vou à prisão porque gosto de estar com estas pessoas. Fazem-me crescer e pensar. Dizem coisas muito interessantes. Gosto do contacto íntimo com as pessoas e o que faço em Tires é uma forma de as conhecer melhor. Com esta população há uma proximidade à verdade que é muito gratificante. As prisioneiras fazem-me sentir especial.
E as reclusas, como se sentem em relação às “Conversas em Rosa”?
Acho que se sentem valorizadas. Dizem sempre que é pouco tempo.
Tratando-se de experiências tão intensas, como aceitam partilhá-las?
Inicialmente, víamos um filme e debatíamos o que tinham visto. Era tão importante para elas que algumas até faziam toilette como se fossem ao cinema. Agora temos outro modelo. Além de falarem, podem escrever, desenhar ou fazer colagens. As mulheres presas também quiseram fazer um jornal de parede. Por isso, a certa altura tínhamos tanto material com valor que começou a fazer sentido partilhá-lo com outros. É também por isso que nasce este livro.
É uma forma de chegar às mulheres reclusas?
Também é. Temos conseguido fazer alguma diferença na vida das reclusas. Elas sabem que continuarei este trabalho de voluntariado nem que seja de bengala. (risos)