Era inevitável que morressem pessoas à espera de uma operação a um aneurisma. Os cortes orçamentais obrigaram à suspensão do serviço de neurocirurgia vascular durante o fim de semana na região de Lisboa. Depois da morte de David Duarte, 29 anos, no Hospital de São José, na madrugada de 14, o problema veio à tona, e logo a seguir chegou a solução: reposição dos valores pré-troika para a remuneração de médicos e enfermeiros de urgência e garantia de um serviço a funcionar todos os dias. A questão que preocupa agora alguns médicos contactados pela VISÃO é ficarem de fora outras valências. Afinal, os recursos humanos são os mesmos, e uma cirurgia desta natureza obriga à manutenção de um bloco operatório com apetrechos próprios, dois cirurgiões, um enfermeiro especializado e um anestesista que para garantir esta especialidade podem ter de ser desviados de outras funções. A morte de David levantou o véu sobre o estado deplorável a que chegou o funcionamento dos hospitais portugueses, com as equipas a trabalhar constantemente em regime de emergência. “Este foi um sinal de alarme para as várias insuficiências provocadas pelos cortes orçamentais na saúde”, sublinha o médico e professor de neurocirurgia António Gonçalves Ferreira.
O especialista ressalva, no entanto, que nada é garantido numa situação tão grave como a rotura de um aneurisma. “Só há pouco tempo se percebeu que poderia haver benefício em operar rapidamente, em vez de aguardar a evolução da situação, como era hábito.”