Nos primeiros minutos, Carlos Daniel bem tentou. Mas não havia maneira. Se o BE e o PCP têm, cada um, os seus candidatos a Belém, afinal o que os separa nestas eleições, questionou o jornalista e moderador do debate da RTP1. João Ferreira sorriu, mas optou por não ir por aí, preferindo valorizar a Constituição e “a centralidade do trabalho”, sobretudo em tempo de pandemia. Mas Marisa Matias acabaria por abrir umas leves e diplomáticas hostilidades, expondo temas em que estas duas esquerdas se distinguem (já lá vamos). As questões ambientais e do clima vieram depois juntá-los, de novo, a pretexto do encerramento da refinaria da Petrogal, em Matosinhos.
Quando tudo parecia estar de novo a geringonçar veio à baila o Serviço Nacional de Saúde. Marisa diz que a esquerda deveria ter sido mais firme no Orçamento – o BE votou contra – mas João Ferreira, suave e sem remoques, valorizou o que foi conseguido com a abstenção. Acabaram os dois a apaziguar e a falar do confinamento que se avizinha. E o candidato comunista até aproveitou para fazer uma denúncia: “Há muitos locais de trabalho por este País fora onde ainda não são adotadas as medidas básicas de proteção da saúde”. Alô São Bento, alguém à escuta?
O que separa estas esquerdas
Marisa Matias
“Ao longo destes anos, travei muitas lutas em que, muitas das vezes, ouvi dizer, até do lado de representantes do Partido Comunista, que a sociedade ainda não estava preparada para elas.“
Contexto: “Acho que não há nenhum mal em assumir as diferenças”, chegou-se à frente Marisa Matias, quando já se adivinhava um debate carregado de doçura. A candidata do BE lembrou a conquista do casamento entre pessoas do mesmo sexo, a adoção de crianças por casais homossexuais, as lutas pelo fim das touradas, a despenalização das drogas leves, a morte assistida, entre outros temas, para assim explicar que o PCP discorda de algumas destas medidas ou não esteve na primeira linha das mudanças. Estava ali em confronto “a mentalidade mais progressista do BE e a mentalidade mais conservadora do PCP”, perguntou Carlos Daniel. Sorriso maroto, João Ferreira foi a jogo: “Existirão diferenças, mas também não vale a pena inventá-las!”, picou. E explicou que os comunistas se regozijaram com a legalização dos matrimónios entre cidadãos do mesmo sexo e até apresentaram propostas para a adoção de crianças por casais homossexuais e o direito de autodeterminação do género. E por aqui se ficou.

Financiamento do Serviço Nacional de Saúde
Marisa Matias
“Se toda a esquerda tivesse sido mais firme, tínhamos resolvido os problemas do SNS.“
Contexto: Sem nunca o dizer às claras, a candidata deixou que se percebesse, por meias palavras, aquilo que pretendia: BE e PCP não estiveram do mesmo lado na votação do Orçamento, pois o primeiro votou contra e o segundo absteve-se. Para Marisa Matias, a esquerda, no seu todo, perdeu a oportunidade de garantir a sustentabilidade do SNS. João Ferreira acusou o toque e deu exemplos de propostas do PCP que foram aprovadas, graças à abstenção, e que representam contratações e outros investimentos nos serviços públicos. “Valorizo muito aqueles que não desistem a meio de nenhum combate”, reforçou, numa indireta a Marisa Matias. Esta deu a entender que, embora o SNS possa sair prejudicado, António Costa e o PS não perdem por esperar: “Muito em breve, o Governo terá mesmo que vir mais à esquerda para negociar e dotar o SNS e as leis laborais das medidas que permitem responder à crise”. Nova geringonça à vista?