Ao longo da longa noite, as conversas em surdina entre os apoiantes da AD passam pela grande dúvida: é desta que temos de dar a mão ao Chega?, perguntavam-se, em pequenos grupos. Como pode Luís Montenegro governar mantendo a palavra dada? Mas como pode governar quebrando a sua principal promessa eleitoral – o “não é não”?
Nuno Melo, o primeiro representante da AD a aparecer em palco, na sede de campanha da AD (ainda os resultados finais estavam muito longe de ser conhecidos), deixou a sua visão. “Hoje é um grande dia, o dia em que se fez justiça à AD, com grande vantagem para Portugal. Foi reforçada a legitimidade deste projeto político que junta o PSD ao CDS. A crise política foi criada pela oposições. E o PS foi por isso fortemente penalizado, sofrendo uma pesada derrota. Os portugueses esperam dos socialistas sentido de responsabilidade. Que façam aquilo que deles se espera.”
Ou seja, para o presidente do CDS, a muleta da AD será o PS, não o Chega.
No final da noite, Luís Montenegro haveria de deixar clara a sua posição: os eleitores esperam que a oposição saiba interpretar a sua vontade. “O povo falou e no recado da sua liberdade aprovou de forma inequívoca um voto de confiança no governo, na AD e no primeiro-ministro. A resposta foi clara”, continuou, antes de passar aos recados. “Todos têm de colocar o interesse nacional acima de qualquer outro interesse. Os portugueses não querem mais eleições antecipadas. Querem uma legislatura de quatro anos. Às oposições caberá cumprir a vontade popular.”

Montenegro disse esperar “sentido de estado, de responsabilidade e respeito pelas pessoas, de salvaguarda do interesse nacional”. “O povo quer este governo e não quer outro, quer este primeiro-ministro e não quer outro. Quer que este governo respeite e dialogue com as oposições, mas também quer que as oposições respeitem e dialoguem com o governo.”
Nas respostas aos jornalistas, Montenegro manteve a linha de argumentação: não quer escolher entre Chega e PS, quer sim uma oposição responsável que respeite o voto dos portugueses. “Portugal é um país com estabilidade económica, financeira e social. Cabe a todos os que receberam também um mandato do povo garantir que tem estabilidade política.” E passou a bola para o outro lado do campo, sublinhando que, “do ponto de vista aritmético”, só uma coligação Chega e PS impediria a AD de governar. “Tenho a certeza absoluta de que vai acabar por imperar o sentido de responsabilidade para o próprio funcionamento da democracia”, para que seja cumprido o programa de governo que foi a votos. “Deixem-nos governar, deixem-nos trabalhar.”
É certo que a oposição não vai dar vida fácil ao governo. Mas a distribuição de deputados no Parlamento, com uma extrema-direita de um lado e toda a esquerda do outro, dá uma vantagem à AD: só uma aliança antinatura entre Chega e PS, com ou sem os pequenos partidos da esquerda, pode travar ou derrubar o governo.
Mas a verdade é que foi isso mesmo que aconteceu e nos levou para estas eleições.
Montanha-russa de emoções
Uma das explosões de risos da noite aconteceu quando Pedro Nuno Santos surgiu na televisão a garantir que não tinha provocado estas eleições.
Seguiu-se um silêncio absoluto quando Pedro Nuno Santos disse que não lhe cabia a ele nem ao PS ser suporte deste governo.
Depois vieram os apupos, quando Pedro Nuno disse que Luís Montenegro não tinha a idoneidade necessária para o cargo de primeiro-ministro.
E regressaram os aplausos, e especialmente efusivos, quando Pedro Nuno anunciou eleições no PS e que não seria candidato à liderança do partido.
Momento mais animado da noite
Quando surgiu nas televisões espalhadas pelo salão do Epic SANA Mariana Mortágua a dizer que tinha sido “uma boa campanha do BE”, os apoiantes da AD romperam a rir, soltando aquelas gargalhadas que vêm mesmo lá de dentro.