Todos os domingos, entre 1 de janeiro e 30 de junho de 2021, António Costa e Ursula von der Leyen falavam ao telefone. O telefonema era uma forma de Costa se articular com a presidente da Comissão Europeia durante os seis meses em que coube a Portugal assumir a presidência da União Europeia, mas foi durante essas conversas que os dois estreitaram laços que duram até hoje. “A relação com Ursula von der Leyen é muito boa”, garante à VISÃO quem acompanhou de perto António Costa nas andanças europeias. A proximidade com uma política da CDU (o partido democrata-cristão alemão) pode parecer inusitada, mas não é de agora que António Costa faz pontes com políticos da direita alemã. A relação com Angela Merkel era tão boa que Costa foi convidado para um jantar de despedida na residência oficial da chanceler alemã quando Merkel deixou o poder. “Era uma relação muito especial”, nota a mesma fonte, explicando que essa cumplicidade se teceu nas reuniões do Conselho Europeu, nas quais a Alemanha se senta do lado esquerdo de Portugal.

Curiosamente, a aura de ter sido um primeiro-ministro que se vangloriava de ter “virado a página da austeridade” ajudou Costa a ganhar prestígio na Europa. Porquê? Porque o fez sempre cumprindo as regras do jogo, reduzindo o défice e a dívida e apresentando brilharetes orçamentais. “Toda a gente ficou muito impressionada”, conta quem esteve no núcleo duro governamental de Costa e via a forma como os seus homólogos europeus o tratavam. Pedro Sánchez, o presidente do governo espanhol, é um dos indefetíveis de António Costa. “Sempre que falo com António Costa, aprendo”, chegou a dizer Sánchez quando a 7 de janeiro de 2016 visitou a sede do PS, no Largo do Rato, numa altura em que assumia o fascínio pela recém-criada Geringonça. Mas se a aliança entre dois socialistas ibéricos parece óbvia, a extrema-direita de Le Pen serviu de pretexto para o apoio de Costa ao liberal Emmanuel Macron, tornando pública uma aproximação que já era notória para quem via o português e o francês a interagir em Bruxelas. Costa anunciou o apoio a Macron na segunda volta das eleições de 2022 e o francês não poupou nas palavras para agradecer. “Quero agradecer ao meu amigo Costa, que foi formidável. O António foi adorável, e fiquei muito emocionado”, disse, citado pela Lusa.
