Desenganem-se aqueles que pensam que os tempos de isolamento significam férias para os dirigentes partidários. Francisco Rodrigues dos Santos, o recém-eleito presidente do CDS-PP, diz que, mesmo a partir de casa, “a produção política neste quadro de quarentena tem sido ainda mais regular e intensa”. Assim, desde meados de março, quando os centristas fecharam a sede nacional, no largo do Caldas, em Lisboa, a disciplina militar tem sido fundamental para que nada falhe na gestão do partido e na transmissão da mensagem aos portugueses.
“Levanto-me todos os dias por volta das 8h00 e estou constantemente de computador ligado. Ando com ele de um lado para o outro”, conta Rodrigues dos Santos sobre as normas que impôs a si mesmo desde que entrou em teletrabalho, na Quinta das Conchas, no Lumiar, por causa da Covid-19. A calamidade provocada pelo vírus, sublinha Chicão (como é conhecido entre os democratas-cristãos), veio “aumentar a pressão social sobre os partidos”, uma vez que as pessoas querem “respostas aos seus problemas”, o que obriga os responsáveis das principais forças a estarem “permanentemente a estudar”.
“Todas as franjas da população, todas as classes profissionais têm uma queixa, uma reivindicação, uma necessidade e nós temos de estar preparados. Isso implica estudo prévio, ter pivôs em várias áreas e muita discussão interna”, frisa. A voracidade dos tempos exigem agilidade e quase omnipresença nos meios digitais. “Não temos formalidades na Comissão Executiva [o órgão de direção mais restrito]. Não há um único dia em que não falemos todos”, revela, frisando que os “encontros” têm sido feitas através do Zoom e do Skype.

Deles, exemplifica, resultaram as propostas que o CDS apresentou para conter a propagação do vírus (ainda antes de ser declarado o estado de emergência), as ideias para apoiar os idosos, especialmente os mais vulneráveis, e, mais recentemente, um conjunto de medidas de ajuda ao tecido empresarial. “Não podemos andar em folclores ou em aparições públicas desnecessárias, temos de dar o exemplo, mas estamos a tentar reinventar-nos”, explica Rodrigues dos Santos, que só tem violado o confinamento para os briefings semanais dos especialistas da Direção-Geral da Saúde e do Infarmed em que também participam o Presidente da República, o presidente da Assembleia da República, o Governo e os parceiros sociais.
As potencialidades da tecnologia estão igualmente a ser exploradas para falar diretamente com possíveis eleitores. No Instagram, Rodrigues dos Santos tem pedido aos seguidores que lhe façam perguntas sobre temas variados e o feedback, garante, tem sido muito positivo. “Recebi imensas questões”, assegura.
Filho de um oficial do Exército e aluno durante oito anos do Colégio Militar, o líder do CDS anunicou há dez dias que se tinha alistado como voluntário nas Forças Armadas. No domingo, em conversa com a VISÃO, adiantou que já obtivera resposta e que tinha sido aceite para prestar apoio na unidade que pedira, isto é, no Regimento de Transportes (do Exército).

Ainda assim, a quarententa de Rodrigues dos Santos, como a da maior parte dos portugueses, tem também uma dimensão de lazer. Embora lamente que “a família esteja toda separada”, o sucessor de Assunção Cristas afirma que tem aproveitado o tempo para estar com a noiva, Inês Vargas (também quadro do partido e da Juventude Popular), e com o irmão, João, que está a estudar para ser controlador de tráfego aéreo.
Este período de encerramento forçado tem também servido para aprofundar conhecimentos noutras áreas e para mergulhar em tarefas para as quais não costuma ter tanto tempo. Por recomendação do irmão, começou a ver Prison Break, série de cinco temporadas, criada por Paul Scheuring, que foi exibida na Fox, entre 2005 e 2017, e, juntamente com a noiva, tem investido mais na cozinha. No sábado, Chicão, em modo chef, confecionou duas pizzas e, gracejou, nem se terá saído mal.

Desde o último verão – quando lê mais – não devorava livros como tem feito nesta fase. Nessa altura, o último que despachou, curiosamente, foi A Peste, de Albert Camus. Agora, Francisco Rodrigues dos Santos parece estar a cumprir uma viagem à história do partido. Está a percorrer o segundo volume de memórias de Diogo Freitas do Amaral, em que o fundador do CDS se debruçou sobre o período pós-revolução (1976-1982), e retomou O Independente – A Máquina de Triturar Políticos, uma obra dos jornalistas Liliana Valente e Filipe Santos Costa acerca do semanário lançado em 1988 por Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas. Quando terminar, quer aviar Imortal, o último romance do apresentador do Telejornal da RTP com o qual partilha os apelidos: José Rodrigues dos Santos.