Não havia disciplina de voto mas Fernando Negrão esperava que os convites que fez antes das eleições pesassem na consciência dos deputados na hora da votação. Se tinham aceitado fazer parte das listas da direção por ele chefiada certamente iriam confiar-lhe o voto, terá pensado o experiente social-democrata. Mas a história não foi bem assim. Dos 37 deputados cujos votos o líder parlamentar do PSD pensava ter garantidos, houve, como o próprio referiu, “pelo menos duas pessoas das listas” que votaram em branco ou nulo. Para Negrão, tratou-se de “uma atitude condenável, do ponto de vista ético.”
Para tentar entender as contas que o sucessor de Hugo Soares fez, olhe-se para os números. Além do seu voto próprio, tinha por adquirido que os sete vice-presidentes – Adão Silva, António Costa Silva, António Leitão Amaro, Carlos Peixoto, Emídio Guerreiro, Margarida Mano e Rubina Berardo – e os três secretário da direção – Bruno Coimbra, Clara Marques Mendes e Manuela Tender – iam depositar na urna um voto favorável. Da direção da bancada havia, assim, 11 votos.
A estes, podem acrescentar-se os alegados votos dos 12 coordenadores das comissões parlamentares. Dos 14 vice-coordenadores, somar-se-iam outros 12. Não entram para esta contabilização os deputados Bruno Coimbra e Clara Marques Mendes, que, apesar de fazerem parte deste lote, já foram contabilizados como secretários da direção. Para o líder parlamentar do PSD havia ainda dois deputados que não falhariam no momento crucial: Feliciano Barreiras Duarte, secretário-geral do partido, e António Topa, vogal da direção encabeçada por Rui Rio.
Contas feitas, estariam garantidos 37 votos, partindo do pressuposto de que ao aceitar o convite para fazer parte de uma lista cada um dos deputados iria votar favoravelmente a lista. Mas na contagem final houve menos votos em Fernando Negrão do que o número de membros que faziam parte das suas listas.
Foi por isso que Fernando Negrão confessou estar surpreendido, chegando mesmo a dedicar a primeira parte da reação aos resultados a este tema. O espanto devia-se não tanto ao número de brancos e de nulos mas por haver pessoas que, com alguma “hipocrisia”, aceitaram fazer parte das listas não votando a favor da direção. Uma fonte social-democrata disse à VISÃO que “pode mesmo ter havido mais de duas pessoas a furar o compromisso”, já que nos 35 votos favoráveis podem incluir-se eventualmente os de alguns deputados que não fossem desempenhar cargos de chefia.