Confronto de administradores
A aplicação de dinheiros do fundo de pensões da PT na Ongoing dividiu a administração. Jorge Tomé e Soares Carneiro são os nomes em xeque
Entre o final de 2008 e o início de 2009, os dois administradores da Ongoing na Portugal Telecom (PT), Nuno Vasconcellos e Rafael Mora, questionaram, no conselho de administração da operadora, a performance do fundo de pensões e de cuidados de saúde do grupo, nomeadamente a alegada baixa rendibilidade das suas aplicações. O debate terá sido intenso, como apurou a VISÃO, com a maioria dos administradores a defenderem a manutenção de algum conservadorismo na gestão financeira do fundo, por estarem em causa os complementos de reforma e de saúde dos trabalhadores.
Contactado pela VISÃO, e não querendo comentar, por dever de sigilo, o que possa ter dito no seio da administração, Nuno Vasconcellos, presidente da Ongoing, admitiu: “Questiono muita coisa na PT, porque tenho lá dinheiro meu, da minha família. Não sou o único a fazê-lo, e tenho tido o apoio de vários accionistas.” O certo é que a Ongoing (que tem 20% da Impresa, dona da VISÃO, Expresso e SIC) não desarmou. E a PT acabou por investir 75 milhões de euros, no primeiro semestre do ano, em veículos da Ongoing, sua accionista com 6,74% do capital: 20 milhões em Fevereiro, 20 milhões em Março e mais 35 milhões antes do final de Junho. A transferência desta última tranche não passou pelo crivo do Comité de Investimentos (CI) da PT, gerando dúvidas num dos seus elementos, Jorge Tomé, representante da Caixa Geral de Depósitos (CGD), por se tratar de um investimento de alto risco em activos de um accionista da operadora, como noticiou o Público..
A guerra estalou de vez quando o administrador que tutela os fundos do grupo, Fernando Soares Carneiro, se apressou a afirmar que todas as aplicações tinham sido ratificadas por aquele órgão. Jorge Tomé acabou por se demitir do cargo no CI, depois de as actas de uma reunião terem sido publicadas no Diário Económico, propriedade da Ongoing, com o propósito de o desmentir. Logo a seguir, Henrique Granadeiro, chairman da PT, reconhece, em entrevista ao Expresso, os “erros do processo” e abre a porta à demissão de Soares Carneiro. Que, na terça-feira, dia de fecho desta edição, afirmou à VISÃO: “Essa questão não se coloca.” Como Granadeiro reconheceu, não será fácil “restaurar a confiança dentro da administração” da PT, que se reúne já hoje, quinta-feira. Jorge Tomé e Soares Carneiro são dois dos protagonistas de uma história que pode ainda não ter acabado.
Jorge Tomé – um homem da banca
O pedido de demissão de Jorge Tomé do CI da PT não surpreendeu quem o conhece. Atendendo ao contexto, a sua tomada de posição está conforme a sua personalidade: “respeita os princípios éticos e deontológicos com total lealdade e fidelização”, mas “tem opinião própria” e “é capaz de reagir de forma muito assertiva”.
O contexto, neste caso, envolveu uma mentira dizer que uma determinada decisão tinha sido aprovada pelo CI, quando tal não se verificou e uma fuga de documentos internos. “Isto não é bonito de se ver” e, obviamente, “teria consequências, numa pessoa cujo comportamento se pautou sempre por uma enorme rectidão” como Jorge Tomé. É desta forma que pessoas próximas do presidente da Caixa Banco de Investimento vêem a situação criada na PT com a sua demissão.
Jorge Humberto Correia Tomé, natural de Angola, completa 54 anos, tem uma carreira toda dedicada à banca de investimentos e um percurso imaculado. Mas é de tal maneira discreto na sua vida pública e profissional que nunca se tornou um rosto facilmente identificável. Por isso, muitos dos que o conhecem não se querem identificar. Mesmo que dele só tenham a dizer bem. “É provavelmente uma das pessoas que mais sabe do negócio bancário e financeiro”, dizem-nos, pois “sempre foi muito estudioso das suas práticas” e é “extremamente bem preparado, do ponto de vista técnico”. Protege-se, reserva a sua privacidade, mesmo perante os colaboradores mais próximos, é simples, acessível e afável.
“Não é ostentatório, nem na sabedoria.” Jorge Tomé é licenciado em Organização e Gestão de Empresas pelo ISCTE, com mestrado em Economia Aplicada.
Inicia a sua carreira em 1979 como técnico economista do IAPMEI, passa a auditor sénior da Cooper’s & Lybrand, em 1982, e, cerca de um ano depois, ingressa no Banco Pinto & Sotto Mayor (BPSM), na área do mercado de capitais. Passa pela capital de risco SULPEDIP e, em 1994, integra a administração do BPSM. Daqui salta para o grupo Banif, onde se mantém até assumir, em 2001, a administração da Caixa Banco de Investimentos.
Em Janeiro do ano passado, ascendeu a presidente.
Sendo consensual que se trata de uma “pessoa sensata e equilibrada”, capaz de “distância em relação à análise dos factos”, com grande sentido de responsabilidade e experiência suficiente para saber quanto as suas atitudes podem afectar a imagem da instituição para que trabalha, permanece uma incógnita: a sua demissão foi ou não previamente validada por Faria de Oliveira, presidente da CGD? Há quem tenha sérias dúvidas de que Jorge Tomé tivesse decidido sem autorização prévia, por o verem como “um homem de aparelho, que não vai sozinho às balas”. E há quem não tenha tantas certezas, precisamente por saber que é alguém “capaz de agir de forma muito assertiva”, quando algo não está conforme os seus princípios, assumindo posteriormente as consequências disso.
O facto é que Jorge Tomé que já teve responsabilidades sobre o fundo de pensões do Banif salvaguardou a sua posição quanto às sucessivas transferências de dinheiro da PT para o fundo de investimentos da Ongoing. E, com isso, marcou uma posição.
Soares Carneiro O amigo de Guterres
Em Março de 2006, quando a PT cerrava fileiras contra a OPA da Sonae, entrou como não executivo na administração da empresa liderada por Granadeiro, indicado pelo accionista Estado. Discreto, chegou, três anos depois, a administrador-executivo da operadora, assim que Zeinal Bava assumiu a presidência. É visto como um dos elementos que reforçam a ligação da PT com o poder político, quando é o PS que está no Governo. É esse o seu cartão-de-visita, nesta polémica que o opôs a outro administrador.
Fernando Soares Carneiro, 59 anos, trocou a carreira internacional por Portugal, em 1998, chamado pelo seu amigo António Guterres, então primeiro-ministro, para ocupar o cargo de presidente da Somincor, concessionária da mina de Neves Corvo. A amizade que os une é antiga. São da mesma idade e frequentaram ambos Engenharia, no Instituto Superior Técnico: Soares Carneiro, no ramo de minas, Guterres, no de electrotecnia.
O socialista Jorge Coelho também faz parte do seu círculo de amigos. Em Londres, cidade para a qual Soares Carneiro se mudou, em 1993, por ter sido nomeado administrador do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento (BERD), acolheu, em sua casa, por diversas vezes, António Guterres e a sua primeira mulher, Luísa, entretanto falecida, quando esta ia com frequência à capital inglesa para tratamentos médicos.
Em 1998, ao chegar ao Baixo Alentejo para dirigir a que já foi a maior mina de cobre da Europa, Soares Carneiro definiu como prioridade acabar com os desperdícios e outros vícios de empresa rica de que a Somincor padecia. Iniciou uma “limpeza ” interna, afastou quadros superiores, escrutinou as relações com os fornecedores e renegociou o acordo de gestão que dava plenos poderes ao parceiro inglês Rio Tinto em algumas áreas . Sob a sua gestão, a empresa regressou aos lucros, em 2000.
No plano laboral, a sua preocupação foi pacificar as relações com os cerca de mil mineiros, após um período marcado por diversas greves de protesto.
Em 2002, Soares Carneiro evitou, in extremis, que a mina fosse vendida a um grupo australiano falido, “anulando”, à última hora, o acordo feito pela ex-secretária de Estado Dulce Franco, durante o mandato de Carlos Tavares na Economia.
Salvou a Somincor, mas a acção custou-lhe o lugar. Incompatibilizou-se com a equipa ministerial (de uma cor política diferente da sua) e viu-se obrigado a demitir-se da Somincor e também da holding mineira EDM, cuja presidência acumulava (vendeu as Pirites, encerrou a mina de urânio da Urgeiriça e a empresa concessionária do Pejão e iniciou a recuperação ambiental de minas desactivadas). De seguida, após uma passagem pela Embaixada de Portugal em Londres, regressa a Portugal, para um cargo na REN. Daí até à PT foi um instante.