101 dias em que se perdeu a confiança criada em sete décadas

NUNO VEIGA/LUSA

101 dias em que se perdeu a confiança criada em sete décadas

Donald Trump, ao abandonar os princípios defendidos pelos Estados Unidos da América (EUA) nos últimos 70 anos, mudou a ordem mundial. Na economia, o maior aumento de tarifas dos últimos 100 anos, mesmo com uma suspensão parcial por 90 dias, fechou o país e lançou incerteza.

Na defesa, ao colocar em causa o compromisso dos EUA com a NATO, lançou insegurança. A paz que ia conseguir em 24 horas, ao fim de 101 dias parece cada vez mais uma miragem. Nas relações internacionais, a ameaça de invasão da Gronelândia e do Panamá, o abandono e o enfraquecimento das instituições internacionais, a saída da OMS, o rasgar de acordos assinados na área do ambiente e a suspensão do apoio ao desenvolvimento (USAid), em paralelo com insultos ao México, ao Canadá e à União Europeia (UE), puseram em causa as alianças históricas. A reação dos eleitores do Canadá à arrogância de Trump levou a uma recuperação eleitoral inesperada do Partido Liberal, ao permitir reeleger Mark Carney que, no discurso de vitória, salientou: “A nossa antiga relação com os EUA acabou.”

Na frente interna, o enfraquecimento das instituições democráticas e judiciais, a mistura assumida entre política e negócios particulares, a guerra aos imigrantes e o ataque deliberado às universidades, aos meios de comunicação social, a escritórios de advogados e às instituições públicas independentes enfraquecem a liberdade, o Estado de Direito e a capacidade de inovação, aspetos centrais do sucesso económico do último século e meio americano.

No curto prazo, Trump pode conseguir que a economia dos EUA, que estava a crescer 3% ao ano, entre em recessão. No longo prazo, com instituições mais fracas, universidades com menos financiamento, empresas mais dependentes de favores públicos e uma economia mais fechada e ineficiente, os EUA serão mais pequenos do que poderiam ser.

Para os que, como eu, acreditam que os princípios de valorizar as instituições democráticas e liberais, no Estado de direito, na abertura ao comércio, no respeito pelas leis internacionais, e que uma aliança militar entre os países ocidentais promovem a paz, a decisão de Trump de abandonar o que os EUA defenderam nos últimos 70 anos é uma enorme perda.

A admiração que tenho pela capacidade e pela independência das universidades, da sociedade civil, dos empresários e empreendedores americanos e a capacidade que os EUA sempre demonstraram de conseguir atrair e aproveitar o talento de todos os que para ali migravam faz com que a evolução política que está a ocorrer seja preocupante não apenas para os próprios EUA, mas para todo o Ocidente e para o mundo em geral.

Este artigo, de acordo com o que me foi pedido, centra-se nas preocupações económicas e sociais, mais do que nas geopolíticas e militares.

AS TARIFAS

No dia em que Trump apresentou um dos maiores aumentos de impostos sobre os consumidores americanos, a que ironicamente chamou de Liberation Day, a justificação dada pelo Presidente dos EUA foi a de reciprocidade. Donald Trump apresentou uma tabela supostamente com elevadas tarifas cobradas por vários países aos produtos dos EUA, mas essa tabela não apresentava as tarifas, mas antes o défice bilateral em percentagem das importações. De acordo com os dados da Organização Mundial do Comércio, a tarifa média que os produtos dos EUA pagam à entrada na UE é de cerca de 1,7% (e não 39%), com a China é de 4,9% (e não 67%). O quadro nestas páginas apresenta as taxas médias que se verificaram no comércio bilateral entre os EUA e outros países em 2024, as taxas que Trump anunciou como tarifas cobradas aos EUA, que são dez a 20 vezes maiores do que as que realmente existem, e as tarifas recíprocas, que de recíprocas não têm nada.

Mesmo se nos últimos 15 anos já houve algum recuo no comércio de bens e no investimento internacional, o mundo manteve-se bastante aberto, com tarifas baixas e com um aumento importante do comércio de serviços, do qual os EUA e as suas grandes empresas tecnológicas muito beneficiaram.

Passar de tarifas médias de entrada nos EUA de 1% a 5% (em 2024), para tarifas de 10%, já em vigor, é um enorme retrocesso. Considerar tarifas de 25% para os países vizinhos, e de entre 20% e 50% para os maiores parceiros comerciais, como Trump anunciou, será uma travagem tão brusca que vai implicar o fecho de muitas unidades industriais nos EUA, que fazem parte de cadeias de valor internacionais. As fábricas que exportam a partir dos EUA, com base em inputs importados, verão também a sua competitividade diminuir. As tarifas diminuem as importações, mas também comprometem as empresas exportadoras.

No passado, Trump usou subsídios aos agricultores, com um custo próximo às receitas obtidas pelos aumentos de tarifas. Usou também isenções (waivers e exemptions) de forma discricionária para proteger setores, produtos e empresas, distorcendo os mecanismos de mercado e criando relações pouco transparentes com interesses privados.

Desta vez, os valores das tarifas são muito mais elevados e generalizados. Estas isenções vão corresponder a maiores favores. Os dados reportados pelo Congresso mostram que o aumento da despesa em lobbying associada a assuntos de comércio externo cresceu 277% no primeiro trimestre deste ano, face a igual período do ano anterior, e o número de entidades envolvidas passou de 89 para 212.

O DÓLAR E OS ATIVOS AMERICANOS

A instabilidade gerada pelos anúncios de tarifas de Trump levou a uma queda nos mercados de capitais (S&P 500) de cerca de 18%, um valor próximo das quedas em crises como a da Covid-19, ou a crise asiática de 1997. Trump gerou uma das maiores quedas dos últimos 30 anos.

Entre 2 e 4 de abril, as empresas americanas perderam cinco biliões de dólares em valor de mercado, uma perda equivalente a 16 vezes o PIB de Portugal. Nos 101 dias desde que Trump tomou posse, os mercados de capital registaram uma perda acumulada de 9,6 biliões de dólares, um valor suficiente para pagar todos os bens importados pelos EUA nos últimos três anos.

A instabilidade obrigou Trump a recuar, suspendendo as
tarifas recíprocas por 90 dias. A decisão permitiu uma
recuperação das bolsas, mas para valores muito abaixo dos do início do seu mandato

Os efeitos da instabilidade criada por Trump foram globais, com perdas sempre que eram anunciadas tarifas, e recuperações parciais, nos momentos de recuo no protecionismo.

A instabilidade dos mercados de capitais inicialmente moveu os investidores para a dívida pública americana, um movimento normal de procura de ativos de menor risco, em períodos de instabilidade, que permitiu uma descida dos juros. Mas esta tendência rapidamente se inverteu. Ainda nos primeiros dias de abril, o custo da dívida pública subiu, à medida que a confiança na política fiscal e na capacidade de crescimento levava os investidores a procurar reduzir a exposição a ativos americanos, o que resultou numa desvalorização do dólar.

Esta evolução obrigou Trump a recuar, suspendendo as tarifas recíprocas por 90 dias, o que permitiu uma recuperação das bolsas, mas para valores muito abaixo dos do início do seu mandato.

A instabilidade afetou também a confiança dos consumidores, com o índice a descer quatro meses consecutivos, caindo de 71, em janeiro, para 52, em abril, um dos valores mais baixos da última década. Uma descida comparável à registada na pandemia. Os consumidores temem perder rendimento, com a instabilidade económica e as perspetivas de recessão, mas também receiam a subida dos preços. As expectativas de inflação para o próximo ano saltaram para 6,5%, o valor mais alto desde 1981, devido aos anúncios de política comercial.

A RESPOSTA DA EUROPA

Trump vai continuar a insistir em tarifas. A resposta da Europa deve incluir capacidade de retaliação. Só assumindo tarifas em áreas que prejudiquem a base de apoio de Trump pode ter força negocial. Mas deve evitar que estas ultrapassem a reciprocidade. Começar por propor reciprocidade com tarifa zero nos produtos industriais foi correto. Mostrou que há outro caminho.

Mas, mais do que retaliação, a reação da UE deve centrar-se em reforçar a competitividade, assumindo o aumento de apoios públicos à inovação e ao reforço de áreas estratégicas como a defesa, a energia, a biotecnologia, a medicina e o digital. Não deve criar áreas subsidiadas. Mas antes apoiar o investimento e I&D em áreas que possam criar empresas competitivas. É necessário que os países da UE voltem a ter iniciativa, como nos anos 1970, quando avançaram com a Airbus. É necessário olhar para o que se conseguiu com as empresas de biotecnologia escandinavas, e criar condições para que mais empresas surjam e cresçam. É importante reforçar os instrumentos de capital de risco, de forma a permitir que as startups europeias cresçam na Europa. O ataque de Trump às universidades americanas, pode inverter o fluxo de cérebros. Estas são oportunidades a que a UE e Portugal devem estar atentos.

Onde os EUA se fecham, a UE deve abrir-se. Em primeiro lugar aprofundando a integração. Mas também concluindo o acordo com o Mercosul e alargando negociações a toda a América Latina.

Reforçar a abertura à Asia também deve ser uma prioridade. Trabalhando com a China, mas também com a Índia, a Indonésia, a Malásia, etc. E voltar a olhar para África não apenas como uma oportunidade de comércio e de matérias-primas, mas assumindo uma parceria para o desenvolvimento.

A IMPORTÂNCIA DAS INSTITUIÇÕES

Os Estados Unidos têm o mercado de capitais mais dinâmico do mundo. Têm também 16 das 20 melhores universidades do mundo (ARWU 2024). Universidades que dependem da atração de talento de todo o mundo e de um ecossistema, que inclui a NASA, uma rede de fundos e institutos públicos e privados de investigação, financiamento da defesa, incubadoras e investidores de capital de risco. Este ecossistema, com financiamento público e privado, constitui o melhor sistema de inovação do mundo e está na base do sucesso das empresas tecnológicas globais americanas.

Ao contrário de anteriores presidentes, Trump, depois de eleito, em vez de contribuir para diminuir a polarização, acentuou-a, mantendo as guerras culturais e mostrando estar disposto a usar os meios do Estado para perseguir instituições e pessoas com ideias diferentes das suas.

Isso notou-se na nomeação dos secretários de Estado, com exemplos chocantes na saúde ou na defesa, nas escolhas para procurador e para diretor do FBI, na guerra com a Reserva Federal e no ataque às universidades americanas. Tentar impor a estas instituições os temas que devem e não devem investigar lembra regimes não democráticos. Querer impor políticas de seleção de estudantes ou de professores é uma interferência na sua autonomia. Cortar apoios públicos à investigação com base em premissas políticas acaba com práticas de seleção por mérito e avaliação pelos pares, que produziram a excelência académica dos EUA.

Daron Acemoglu, Prémio Nobel da Economia em 2024, começa o seu livro, Why Nations Fail, por apresentar a história de uma cidade dividida pela fronteira entre o México e os EUA, e os resultados em termos de desenvolvimento que resultaram da adoção de instituições inclusivas versus extrativas. Explica como a necessidade de atrair pessoas para desenvolver produção e a afirmação de mercados transparentes de bens e financeiros contribuíram para que os regimes coloniais conduzissem a uma diferente evolução das sociedades do que mais tarde seriam os EUA, face aos países da América latina.

Donald Trump, ao enfraquecer a independência das instituições democráticas e da sociedade civil dos EUA, e ao desenvolver um modelo económico protecionista e pouco transparente nas relações entre empresas e Estado, parece querer levar os EUA para um modelo económico do século XIX, ou para os modelos populares na América do Sul nos anos 1970 e 1980, que muitos destes países já abandonaram, pelos maus resultados que geraram.

Os 101 dias de Administração Trump parecem 1 461 dias, o tempo de um mandato de quatro anos. A história de avanços e recuos é tão cheia de decisões e contradecisões, que parece ser a história de um período mais longo. Pode indicar que se andou a correr. E andou. Mas em muitos casos correu-se muito para a frente e para trás, apenas para voltar ao ponto de partida.

Mas este ponto de partida já não é o mesmo. Na agitação sem sentido perdeu-se confiança. Confiança dos consumidores, que está num dos pontos mais baixos em décadas. Confiança dos investidores industriais, que suspenderam os investimentos. E também a confiança nos mercados de capitais, no dólar e nos ativos americanos, incluindo na dívida pública americana. Uma destruição de valor que afeta tanto os grandes investidores como a poupança para a reforma de milhões de americanos.

A confiança dos aliados nas parcerias económicas e militares foi posta em causa, com efeitos que vão ter implicações de longo prazo. Mesmo que venha uma nova Administração dentro de quatro anos, os europeus e canadianos hoje sabem que só podem contar com os EUA até à próxima eleição.

As sondagens de avaliação dos primeiros 100 dias de Trump sugerem que pode já ter perdido também a confiança de muitos dos eleitores que votaram em si. Mas é cedo para avaliar.

Nos próximos meses, os EUA tem de colocar montantes muito elevados de dívida. Será que conseguem fazê-lo a custos controlados?

Será que em julho (ao fim dos 90 dias) Trump voltará a insistir em tarifas tão elevadas? Será que vai repor o apoio da USaid? Vai continuar a perseguir imigrantes? O que fará perante um abrandamento ou sinais de recessão? E se os mercados de capitais reagirem, voltará a recuar?

E vai voltar a assumir os compromissos da NATO? E se afirmar que vai, os europeus vão acreditar? Esta é a nova desordem mundial. A incerteza é, com Trump, a única coisa com que se pode contar.

Os avanços e recuos de Trump

20/1 Tomada de Posse. Trump anuncia tarifas de 25% sobre o Canadá e o México a partir de 1 de fevereiro, por falta de controlo do tráfico de droga e imigração ilegal.

26/1 Tarifas de 25% imediatas sobre a Colômbia, por não querer receber repatriados.

1/2 Tarifas de 25% sobre todos os bens do Canadá e do México e de 10% sobre a China.

3/2 Tarifas de 25% sobre o México e o Canadá suspensas por um mês.

4/2 Tarifas adicionais de 10% sobre produtos da China entram em vigor.

10/2 Anúncio de uma tarifa de 25% para o aço e o alumínio (igual ao primeiro mandato).

14/2 Trump anuncia tarifas sobre automóveis estrangeiros a partir de 2 de abril.

27/2 Trump anuncia que as tarifas sobre produtos do Canadá e do México entram em vigor a 4 de março.

4/3 Tarifas sobre as importações do Canadá, do México e da China entram em vigor. O Canadá responde com tarifas de 25% sobre 155 mil milhões dólares de importações dos EUA.

5/3 Sob pressão dos fabricantes de automóveis, Trump decide uma pausa de um mês nas tarifas sobre o setor automóvel do Canadá e do México.

6/3 Tarifas sobre produtos do Canadá e do México são suspensas para a maioria dos bens. 

10/3 O governo chinês impõe tarifas em vários produtos dos EUA, incluindo um adicional de 10% a 15% em vários produtos agrícolas (soja, fruta, frango, milho).

Canadá anuncia uma taxa de 25% na eletricidade exportada para os EUA.

11/3 Trump ameaça duplicar as tarifas sobre o aço e o alumínio do Canadá.

No mesmo dia, Trump recua e o Ontário desiste da taxa sobre a eletricidade.

12/3 A União Europeia e o Canadá anunciam tarifas retaliatórias.

13/3 Em retaliação a uma possível tarifa sobre o whiskey americano, Trump anuncia uma tarifa de 200% sobre vinho, champanhe e outras bebidas alcoólicas da UE.

Tarifas adicionais de 10% sobre produtos da China entram em vigor.

24/3 Trump afirma que países que comprem petróleo à Venezuela terão tarifas agravadas.

26/3 Anúncio de tarifas de 25% para todos os automóveis e componentes que entrem nos EUA, incluindo de marcas americanas.

2/4 Liberation Day: Anúncio de tarifas recíprocas de 10% a 50%, com base em tabela que apresenta o saldo externo relativo e não as tarifas (UE 20%, China 34%).

9/4 Tarifas recíprocas entram em vigor de manhã.

No mesmo dia, novas tarifas são suspensas por 90 dias.

Mantêm-se tarifas de 10% para todos os países e as tarifas de 34% sobre a China. Ainda no dia 9, a China anuncia retaliação com tarifas sobre bens dos EUA de 34%, e depois de 84%.

10/4 Ainda no dia 9, a China retalia, com tarifas sobre bens dos EUA de 34% e depois de 84%. EUA respondem com tarifas sobre a China de 104%, e este país reage com 125%. No dia 10, os EUA chegam aos 145%.

12/4 Trump recua em parte das tarifas sobre a China, isentando os telemóveis, computadores e chips.

LEIA TAMBÉM:
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Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.

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