Desde janeiro, morreram milhares de gatos no Chipre por peritonite infecciosa felina (PIF), também conhecida por coronavírus felino, por ser precisamente causada por este vírus, uma das doenças mais contagiosas e fatais em gatos.
A ilha, conhecida por ter uma superpopulação de gatos – pouco mais de um milhão – passou, inclusive, a ser denominada “ilha dos gatos mortos”, com dados a apontarem para mais de 8 mil gatos a morrerem desta doença, e alguns relatórios indicarem que o número pode ser de mais de 300 mil.
Agora, a variante do vírus foi encontrada no Reino Unido, num gato que viajou do Chipre para este país. De acordo com a Sky News, o animal foi levado ao veterinário após desenvolver sintomas da doença, que incluem febre, inchaço no abdómen, fraqueza e, por vezes, comportamentos agressivos.
O gato foi colocado em quarentena em casa e está, agora, a ser tratado com altas doses de antivirais, lê-se no site da cadeia televisiva britânica.
Na maioria dos gatos que contraem uma versão standard desta doença, o vírus permanece no intestino e pode provocar diarreia ou outros sintomas mais leves.
Ocasionalmente, este vírus viaja para outra parte do corpo e sofre mutações, provocando uma doença mais grave.
A partir desta versão “tradicional” da doença, surge uma “mutação individual num gato individual”, explica à Sky News Danielle Gunn-Moore, professora da Universidade de Edimburgo, que estuda a doença há mais de 20 anos.
Contudo, a variante que “dominou” o Chipre é uma recombinação de um coronavírus felino e de um coronavírus canino, denominada F-CoV-23. Sendo pantrópico – uma caraterística que herdou do coronavírus canino -, o vírus atinge todas as células, esclarece a investigadora.
E o mais assustador nesta variante que afetou o Chipre é que os gatos estão a espalhar o mesmo vírus, o que significa que este terá sido transmitido diretamente entre eles, em vez de ter havido uma mutação em cada animal individualmente, diz ainda Gunn-Moore.
Caso no Reino Unido é motivo para alarme?
A investigadora diz que é provável que o caso identificado pelos investigadores no Reino Unido não tenha sido o primeiro no país, sendo quase certo que os casos continuem a aparecer, já que existem viagens frequentes de realojamento destes animais do Chipre para o Reino Unido, organizadas por diferentes centros de resgate, afirma.
“Sabemos que muitos gatos são resgatados do Chipre com bastante regularidade, por isso a probabilidade de isto acontecer novamente é elevada”, afirma.
A investigadora esclarece, contudo, que é possível que a genética dos gatos no Chipre possa estar relacionada com a facilidade com que o vírus se espalhou no país e diz que espera “mesmo muito” que seja esse o caso, porque isso podia significar que a doença se consegue espalhar tão “eficientemente” em outros países.
Gunn-Moore refere ainda que os gatos infetados no Chipre começaram a receber tratamento contra a Covid-19 a partir de agosto, tendo-se demonstrado eficaz.
Esta é uma doença autoimune, que afeta principalmente animais jovens e para a qual ainda não existe um tratamento eficaz – embora no Chipre tenha afetado gatos de todas as idades. Tem na sua origem uma mutação de um coronavírus intestinal que está presente em 90% dos gatos.
Os sinais clínicos da PIF são os mesmos, seja a variante padrão ou a F-CoV-23, embora certos sintomas neurológicos, como instabilidade e convulsões, sejam mais comuns nesta última.
O vírus é transmitido principalmente pelas fezes de um gato infetado. Portanto, se um gato entrar em contacto com outro animal que esteja infetado, é necessário vigilância extrema, refere tamvém Gunn-Moore.