Loujain al-Hathloul, um dos mais importantes símbolos da luta pelos direitos das mulheres na Arábia Saudita, está detida desde 2018. Com 31 anos, é uma pedra no sapato para os conservadores e desafiou várias vezes as autoridades, tendo chegado a gravar e publicar vídeos em que se mostrava a conduzir -antes de este direito ser alargado às mulheres. Presa há dois anos, a ativista não desiste da luta e, agora, encontrou um novo palco para poder ser ouvida: no final do mês de outubro iniciou uma greve de fome na prisão por melhores condições e para poder voltar a contactar com a família. E promete não parar até haver mudanças.
“Ela foi detida quando estava a vir de carro dos Emirados Árabes Unidos para a Arábia Saudita e foi detida por ir a conduzir. Entretanto a lei mudou, as mulheres já podem conduzir, mas ela e mais colegas ativistas continuam presas”, explica à VISÃO o diretor executivo da Amnistia Internacional Portugal, Pedro Neto. “Durante esse tempo, Loujain foi espancada, sofreu afogamentos, recebeu choques elétricos, foi assediada sexualmente e foi ameaçada de violação e assassinato”, alerta, em comunicado, a Amnistia Internacional dos EUA. O Governo veio a público negar as acusações de tortura.
Em março de 2019, 11 ativistas foram acusadas pelo Tribunal Criminal de Riad de “promover reformas e os direitos das mulheres, exigir o fim do sistema de tutela masculina por meio da participação em campanhas online e offline e contactar organizações internacionais de direitos humanos, a ONU e diplomatas e jornalistas estrangeiros”, enumera a BBC. Algumas delas saíram depois sob fiança, ao contrário de Loujain al-Hathloul, que permanece detida e sem contacto com a família.
O caso ganhou eco com a denúncia, por parte da irmã, na rede social Twitter: “Loujain precisa do nosso apoio, pois está a passar por uma greve de fome. Estamos a lançar uma ação para a apoiar o mais rápido possível”, dizia, a 26 de outubro, Lina al-Hathloul. Foi criado um site para dar a conhecer o percurso da ativista e desde aí que a mensagem está a correr o mundo. “Toda a visibilidade ao caso é muito positiva porque isso coloca pressão não só no Governo, mas também nos outros países do G20”, contextualiza Pedro Neto, que esclarece que seria importante mais sanções económicas quando se colocam em causa os direitos humanos.
Em agosto, depois de ter ficado quatro meses privada de contacto com a família, Loujain iniciou uma primeira greve de fome, que durou seis dias e que culminou com a visita dos pais à prisão. A 26 de outubro, motivada pelas más condições e novamente proibida de contactar com os pais, a ativista começou o segundo jejum. “Ser ativista na Arábia Saudita é ser o elo mais fraco. Quando se é mulher, é muito pior”, diz o diretor executivo da Amnistia Internacional Portugal.
O ativismo da saudita, no entanto, começou bem mais cedo. Além de conduzir ilegalmente, já tinha publicado várias fotografias nas redes sociais com o cabelo descoberto e, em 2015, tomou um importante passo na representação feminina na política: candidatou-se às primeiras eleições abertas a mulheres, mesmo que o nome não tenha aparecido nos boletins de voto.
“Em outubro, a Arábia Saudita fez um evento dedicado a negócios – o B20 – e o empoderamento das mulheres era o assunto da moda. A própria Arábia Saudita fez campanhas de igualdade género e de mudança, mas isso parece que é mais marketing falso do que verdadeiras intenções”, frisa Neto. Ao The Guardian, o embaixador saudita no Reino Unido, Khalid bin Bandar bin Sultan bin Abdulaziz Al Saud, acredita que o país pode vir a considerar a libertação das mulheres no final deste mês de novembro, altura em que o país recebe a cimeira do G20. Um dos temas do evento deste ano é justamente o empoderamento feminino. Pedro Neto justifica a ironia afirmando que “o dinheiro se sobrepõe sempre aos direitos humanos”.
O Comité Para a Eliminação da Discriminação Contra as Mulheres (CEDAW, em inglês) já se pronunciou e diz estar preocupado com a “saúde física e mental da Sra. Al-Hathloul e o bem-estar, especialmente à luz da sua greve de fome”. Pede ainda aos responsáveis que deem resposta ao caso: “Instamos as autoridades sauditas a proteger os direitos à vida, saúde, liberdade e segurança pessoal em todos os momentos, ao mesmo tempo que respeitam plenamente as liberdades de consciência e expressão, inclusive estando em greve de fome”.
De acordo com o relatório Women Peace and Security Index 2019/2020, do Georgetown Institute for Women, Peace and Security, sediado nos EUA, a Arábia Saudita ocupa o 120.º lugar (num total de 167) da lista de países com melhores políticas para as mulheres em termos de segurança, inclusão e justiça. Isto representa uma descida de 21 posições face ao relatório de 2017/2018, em que o país ocupava o 99.º lugar no ranking. O trabalho apoia-se em 11 indicadores, como a educação, normas discriminatórias e violência organizada. Noruega, Suíça e Finlândia estão no pódio, já Líbia, Sudão e Chade são os piores países para as mulheres.