Jeremy Corbyn, o radical da boina marxista, admirador de Hugo Chávez, defensor da saída da Grã-Bretanha da Nato e da interrupção da dissuasão nuclear britânica (para além da proposta de criação de carruagens separadas para homens e mulheres nos comboios, para evitar o assédio e da da reabertura das minas de carvão…) é desde sábado, 12 de setembro, líder do Partido Trabalhista britânico. Como foi possível?
O pequeno (15 km2) bairro londrino de Islington pode ajudar a compreender. Uma simples café custa cinco euros e os restaurantes locais vendem chiques saladas de quinoa por preços exorbitantes, acompanhadas de caros tintos franceses a escolher em cartas de vinhos de duas páginas. No número 1 de Richmond Street, a casa onde viveram Tony e Cherie Blair – que compraram por 525 mil euros em 1993 e entretanto venderam com ganhos milionários – está coberta com um anúncio de uma empresa de arquitetura que se prepara para a remodelar. O seu valor atual? Muito acima de cinco milhões de euros. Mas é também aqui que 42 por cento dos habitantes vive em casas sociais, com rendas pagas pela câmara municipal, e 40% dos idosos, e 38% das crianças, vivem na pobreza. Islington tem o índice mais alto de doenças mentais do Reino Unido e 13% da população sofre de depressão. Tem miúdos que nunca apanharam o metro e nunca viram o rio Tamisa. Lado a lado com uma riqueza descomplexada, desenvergonhada, mesmo. É um dos grandes exemplos daquilo em que a Grã-Bretanha se transformou: o segundo país mais desigual da Europa, depois de Portugal (dados da OCDE, de 2014).
Os “bo-bo”
Foi aqui que, há mais de 30 anos, Jeremy Corbyn foi eleito deputado pela primeira vez e é aqui que mantém o seu lugar de deputado – também com os votos dos chamados “bo-bo” (diminutivo para “burgueses boémios”, gente “de esquerda” para quem as opções políticas são mais uma questão de vaidosice e de estética intelectual do que propriamente uma opção política consciente). Mas também foram jovens pobres como os que moram na metade pobre de Islington que humilharam a poderosa metrópole e a sua polícia nos motins de 2011 – quando, propalados pelos cortes nos apoios sociais e fechos dos clubes de juventude , se entregaram a um festim de roubo de bens de consumo aos quais não tinham acesso. E são estas mesmas massas de esquecidos, aquelas que, desde 2008, mais sofrem com a crise. “Austeridade para as massas”, enquanto as “elites financeiras se safaram de forma mais ou menos indolor”, escreve o, nisto insuspeito, Financial Times (em artigo de opinião intitulado: “Corbyn para líder dos Labour? Queixem-se aos bancos”, de Philip Stephens em 10/09/2015).
Para perceber como Corbyn foi eleito é preciso, talvez, estar mais atento às suas propostas sociais-democratas (no verdadeiro sentido do termo) do que aos seus desvarios marxistas. Entre outras coisas, ele propõe: Educação pública gratuita; Limites aos bónus dos gestores da banca e aos salários mais altos; Um ordenado mínimo nacional; Medidas para obstar ao crescimento exponencial do preço dos imóveis londrinos; Mais habitação social. Impostos para os mais ricos e para as grandes corporações; Alívio para os mais pobres e para a classe média.
O assassino de Thatcher
E para já Jeremy Corbyn, 66 anos, não dececionou os seus eleitores – também jovens a quem o desenvolvimento económico excluiu, desiludidos com os políticos britânicos, zangados e recém-chegados ao Partido Trabalhista. Pelo contrário. O seu primeiro passo foi nomear John McDonnell para seu ministro sombra das Finanças. Trata-se de um seu velho companheiro de lutas políticas, no qual confia, que afirmou recentemente que o país se transformou “numa cleptocracia”. John alimentou polémica quando disse junto da grande base de suporte de Corbyn, os sindicatos, que “gostaria de voltar a 1980 e assassinar Thatcher”. Pode ter caído bem na audiência, mas caiu bastante mal no resto do país.
Juntos, Corbyn e McDonnel pretendem nacionalizar a banca, renacionalizar os transportes públicos e a energia, taxar os ricos, aliviar os pobres e acabar com a “mentira da austeridade”. Corbyn nomeou o amigo, apesar do avisos dos seus companheiros blairistas de que o seu nome seria mal visto pela city e pelo establisment do próprio partido – entre os quais alguns dos seu maiores financiadores.
Esta eleição, mais do que a de Tsipras ou Hollande, que se revelaram dois lobos em pele de cordeiro, ameaça enviar ondas de choque por todos os partidos socialistas europeus. O mais seguro parece ser apostar que o labour se vai dividir em dois – mesmo que Corbyn já tenha temperado algumas das suas bandeiras, como a da saída da Nato ou a da extinção da monarquia – inspirando movimentos semelhantes no continente europeu. As dissidências já começaram: a maior parte do grupo parlamentar espera a primeira asneira para não apoiar o seu novo líder. Os avisos vêm desde Sadiq Khan, outra das estrelas dos trabalhistas, candidato ao lugar de mayor de Londres, ao próprio número dois do partido, escolhido numa eleição paralela. Corbyn afigura-se tão divisório que não teve sequer direito ao tradicional período de lua de mel, em que o partido aparenta reconciliar-se. Mesmo que a sua eleição tenha trazido 15 mil novos militantes em apenas 24 horas.
Ameaça à segurança nacional
Quanto aos conservadores, a reação não foi menos imediata: ainda nem tinham passado 24 horas e já a conta oficial de David Cameron tweetava: “O Partido Trabalhista é agora uma ameaça à nossa segurança nacional, à nossa segurança económica e à segurança das vossas famílias”. Uma mensagem que arrisca cair bem junto do público votante, que recorde-se, já brindara o também esquerdista Ed Miliband com uma pesada derrota nas urnas. É que apenas 1 em cada 5 britânicos entendem que Corbyn daria um bom primeiro-ministro. O ativista antinuclear e antiguerra, qualquer guerra, ainda tem até 2020 antes de enfrentar uma eleição parlamentar, mas mesmo esse tempo parece escasso para o que tem de conseguir: uma revolução das mentalidades. Do “seu” labour e da grande maioria do povo do Reino Unido. Por vezes, veem-no como um Don Quixote de La Mancha: Simpático, educado, valente, por vezes um pouco ingénuo e outras tantas completamente louco. Outras vezes, como outro herói londrino: Peter Pan, o rapaz que voava…