Está na reforma há quase duas décadas mas continua a ser uma personalidade incontornável da política espanhola e europeia. Atualmente, embora se dedique aos seus bonsai e ao design de joias, permanece interventivo e crítico, como o demonstra esta entrevista – por email – a propósito do seu último livro, acabado de lançar no mercado português.
Escreveu cinco livros desde que saiu do Palácio da Moncloa [residência oficial do chefe de Governo], incluindo À procura de respostas – publicado em Espanha no final de 2013. Ao contrário de José María Aznar e José Luis Rodríguez Zapatero Aznar, os seus dois sucessores, não escreveu ainda as suas memórias políticas. Porquê, interessa-lhe mais olhar para o futuro?
Após deixar o governo, George Bush pai, convém não confundir com o filho, perguntou-me porque não escrevia as minhas memórias. Respondi-lhe que não tinha interesse em mergulhar nos arquivos, mas em pensar sobre os problemas do nosso tempo e os desafios do futuro. Em tom de brincadeira, quando me faziam a mesma pergunta em Espanha, limitava-me a responder que não tinha idade para escrever memórias.
Vivi na sala de máquinas do poder, em Espanha e na Europa, os acontecimentos mais importantes do último terço do século XX, como a queda do Muro de Berlim, o desaparecimento do equilíbrio do terror [nos tempos da Guerra Fria] ou a nossa entrada – ao mesmo tempo que Portugal – nas Comunidades Europeias. Foi uma vida muito intensa, mas que terminou institucionalmente em 1996, quando saí da presidência do governo de Espanha, com 54 anos, e prometi a mim mesmo não voltar a assumir nenhum outro cargo de poder.
Neste livro, faz o retrato robô do estadista ideal, tendo em conta aqueles que conheceu: “Juntaria a tenacidade de Helmut Kohl, a visão do mundo e a capacidade de empatia pessoal de Clinton, a capacidade de comunicação do Papa Wojtyla, a serenidade de Mitterrand, a habilidade de Reagan na formação de equipas e a capacidade de análise e a boa gestão de grupos de Olaf Palme”. E, citando Brecht, fala de alguns outros “imprescindíveis” – Helmut Schmidt, Mandela, Deng Xiaoping. Gostaria de acrescentar algum outro?
Claro, a lista poderia aumentar. Na prática, destaco as características que me parecem fundamentais no exercício da liderança: comprometer–se com um projeto para os outros, sem pedir nada em troca ou, como digo no livro, sem um caráter mercenário; perceber o estado de espírito dos outros, o que pressupõe reconhecer de uma forma próxima o sofrimento e as aspirações da maioria dos cidadãos; ou a capacidade de escolher e coordenar equipas, ultrapassando a tentação medíocre de selecionar pessoas que não lhe façam sombra.
Desde 1996 que é um “jarrão chinês”, expressão por si criada para designar os antigos presidentes e primeiros-?-ministros – personagens que “ninguém se atreve a deitar no lixo mas que estorvam tudo e todos”. Aos 72 anos, Felipe González ainda incomoda muita gente ou é apenas um talentoso desenhador de joias?
O que quero dizer é que os ex-?presidentes são como grandes jarrões chineses em apartamentos pequenos. Reconhecem-nos um certo valor mas estorvamos em todo o lado, onde quer que nos coloquem ou nos coloquemos nós próprios. Por isso, ainda que esse valor não esteja sempre demonstrado, os que ocupam o poder – principalmente se são do mesmo partido – sonham com alguém que tropece nesse jarrão-estorvo, para poder deitá-lo ao lixo, uma vez que está partido, sem se sentir culpado.
E os que tentam escapar a esta lógica é porque sucumbem à vaidade de se julgarem imprescindíveis. Nunca quis dar alfinetadas a ninguém, mas não desisto de expressar o que penso, com moderação e clareza. E calo-me mais vezes do que desejaria.
A joalharia, como os bonsais ou outros passatempos que sempre me fizeram trabalhar com as mãos, explicam-se como um exercício de distanciamento do trabalho intelectual, se assim se pode dizer, ou do stresse das preocupações políticas.
Na história da democracia em Espanha, nenhum outro dirigente foi tão popular como Felipe González. Como é possível que Mariano Rajoy tenha hoje uma taxa de aprovação muito mais baixa do que o seu último governo, em 1995?
Pensar em liderança e no senhor Rajoy é uma contradição em si mesma. Assumiu a governação no meio de uma crise grave, mas fez o contrário do que dizia no seu programa eleitoral, com a desculpa, sempre muito oportuna para políticos sem um projeto de país, da herança recebida. Preocupa-me que a imensa maioria dos espanhóis não faça a mínima ideia do que pretende o senhor Rajoy fazer com Espanha nos próximos 10 anos. Custa-me dizê-lo, mas a perda de relevância do meu país na Europa é só mais uma prova dessa falta de projeto nacional.
No mês passado disse que, se fosse jovem, não votaria no Podemos. Porquê?
Quando era mais jovem também era moderado na minha visão da esquerda. E há outras razões. Por exemplo, nunca me preocupou que me considerassem um social-democrata e ligassem o meu projeto ao de Willy Brandt ou de Olaf Palme. Pelo contrário, sentia-me orgulhoso de fazer parte de algo que considerava positivo para Espanha, para a Europa.
No entanto, a sigla do Podemos está associada à campanha do Presidente Maduro na Venezuela, que inclusive se apresentou nas últimas eleições com o mesmo nome, PODEMOS. ?O projeto e as ligações dos dirigentes do Podemos são chavistas [Hugo Chávez] e todos os dias tentam demarcar-se dessa ligação, porquê? Além disso, mais uma razão entre outras, sempre me apresentei a eleições com propostas programáticas aos problemas do meu país. Pode dizer-se, como faço no livro, que assumir o estado de espírito dos outros é muito importante, mas o que é decisivo num projeto político é o compromisso com as respostas que podem ser identificadas pela maioria. Isso o Podemos não faz. Por isso afirmei que se dedicam – com êxito – à “psicopolítica” própria dos estudiosos da ciência política.
Acredita que Pablo Iglesias [líder do Podemos] pode chegar a primeiro-?-ministro?
A grande virtude da democracia é que os cidadãos decidem quem os vai governar. Poderíamos dizer que só eles têm o direito de estar certos ou errados. Além disso, há muitos transportes públicos e privados para o Palácio da Moncloa, por isso qualquer um pode ir para lá. Outra coisa é ir e governar Espanha.
Face ao populismo, qual é o papel dos partidos socialistas democráticos na Europa? Como podem reinventar-se a si mesmos?
Os populismos, assim como os nacionalismos separatistas e antieuropeus, são sempre perigosos, sejam de direita ou de esquerda. Os social-democratas, na verdade, teriam de reiniciar o seu próprio caminho, tratando de recompor a identidade europeia como uma economia social de mercado. Para tal, têm de reconhecer em primeiro lugar que as políticas europeias de combate à crise, dominadas por um neoconservadorismo que nos arrastou a todos, fracassaram. Fracassaram não apenas na política conjuntural contra a crise, como também nas políticas estruturais que nos prepararam para sermos mais competitivos na economia global.
Na minha opinião, as políticas europeias no seu conjunto, lideradas pela Alemanha, contribuíram para destruir os fundamentos da coesão social e para aumentar o desemprego sem melhorar a dívida, nem melhorar a competitividade, a não ser pela desvalorização dramática dos salários e pelo crescimento do desemprego.
Como social-democrata, posso criticar o modelo seguido pelos EUA para enfrentar a crise, porque continua a não resolver o problema da desigualdade crescente dos rendimentos. Mas em comparação com o que a Europa fez para enfrentar a crise, há que reconhecer que as suas políticas monetárias, orçamentais e de incentivo à procura têm sido muitíssimo mais eficazes e inteligentes que as da Europa. ?O desemprego baixou para valores históricos. O crescimento permitiu reduzir o défice e a dívida é muito mais controlável que a da Europa.
Acredita então que países como Portugal, Grécia, Espanha e Itália estão condenados a viver em austeridade durante muitos mais anos?
Ainda que pareça mentira não estou contra a austeridade como conceito, o que me preocupa é o “austericídio”, a troco de nada.
Toda esta destruição que está a acontecer, por não se combaterem as políticas impostas pela Alemanha e alguns dos seus apoiantes, não está a resolver os nossos problemas económicos – e muito menos os do emprego e da coesão social. Se estas políticas não mudarem, estamos condenados a arrastar-nos para o fundo, com a deflação provocada pela diminuição da procura, durante muitos anos. Com condições muito piores que o Japão, estamos a cometer erros semelhantes sem perspetivas de saída, para além da propaganda que ouvimos todos os dias. A social democracia é imprescindível para recuperar um europeísmo que transponha a vaga de nacionalismos que atinge a realidade europeia. Se queremos refazer os nossos sistemas educativos para dar oportunidades a todos, se queremos reconstruir um sistema de saúde universal, que custa menos dinheiro ao país do que as privatizações mais ou menos encobertas, temos de reagir já, dizendo aos cidadãos que podemos enfrentar a crise sem deixar tanta gente na rua.