Até ao final da década, o mundo terá uma mudança profunda nos padrões de consumo e na forma como os países fazem comércio entre si. Segundo o relatório “Protecionismo, Pandemia, Guerra e o Futuro do Comércio” da Boston Consulting Group (BCG), iremos assistir a um aumento das relações comerciais entre a Europa e os EUA em detrimento das transações com a China.
“O comércio global tem sido significativamente afetado nos últimos três anos, inicialmente pela pandemia e atualmente pelo conflito na Ucrânia e pelas crescentes tensões geopolíticas. Após quase três décadas de um contexto comercial relativamente seguro, vemos agora uma nova dinâmica entre o Oriente e o Ocidente, com um lado a ser liderado pelos EUA e pela União Europeia e a contraparte pela China e pela Rússia, juntamente com o potencial surgimento de um terceiro grupo de nações neutrais”, diz Nikolaus Lang, senior partner da BCG.
Estas alterações geopolíticas irão provocar uma diminuição do ritmo de crescimento do comércio mundial. A consultora prevê que as transações globais entre países aumentem a um ritmo de 2,3% ao ano até ao final da década. Em contrapartida, o mesmo estudo revela que a economia global deverá manter um nível de crescimento da ordem dos 2,5%.
A verificar-se este desempenho dos dois indicadores, esta será a primeira vez nos últimos 25 anos que o PIB mundial terá um ritmo de crescimento superior ao do comércio internacional. Entre 1995 e 2008, as transações comerciais em todo o planeta verificaram um nível de crescimento de 1,5 pontos percentuais acima do PIB e, nos dez anos seguintes, esta diferença foi de um ponto percentual.
Devido à guerra na Ucrânia, as relações comerciais entre a União Europeia e a Rússia sofreram uma grande mudança, o que levou os países comunitários a procurarem alternativas noutras regiões do globo.
“As mudanças previstas irão continuar a diluir a globalização económica e a abertura comercial que caracterizaram as primeiras três décadas do período pós-Guerra Fria, o que irá resultar num mapa comercial redesenhado, que será consideravelmente diferente do que era em 2021”, esclarece o gestor.
Como resultado, o estudo da BCG prevê que, nos próximos nove anos, a União Europeia aumente o seu comércio com os EUA em 338 mil milhões de dólares. Este valor será fortemente impulsionado pelo aumento das importações de energia, nomeadamente de gás natural, que era, na sua grande maioria, proveniente da Rússia. Em contrapartida, as transações europeias com a Rússia irão reduzir-se em 262 mil milhões de dólares no mesmo período.
Mas não serão apenas os norte-americanos os nossos novos parceiros. As relações comerciais da Europa irão estender-se a outras regiões com países do sudeste asiático, África, Índia e Médio Oriente. A Europa manterá a sua ligação comercial à China, mas a BCG prevê que o aumento das transações entre os países da comunidade e a China registe um incremento de 72 mil milhões de dólares, um valor bem modesto quando comparado com os anos anteriores.
Por sua vez, o comércio entre os EUA e a China irá cair 63 mil milhões de dólares até 2031. Já em sentido contrário, as transações entre a Rússia e a China ter uma aumento da ordem dos 90 mil milhões de dólares e, com a Índia, de 20 mil milhões de dólares.
Em suma, os países do sudeste asiático serão os grandes beneficiários desta mudança geopolítica. A consultora estima que as novas transações entre estes Estados e o resto do mundo irão crescer aproximadamente um bilião de dólares até ao final de 2031.
“O novo comércio global está a dar prioridade à resiliência da cadeia de abastecimento e à diversificação global. As empresas devem privilegiar medidas de aumento de resiliência, tais como a criação de stock de segurança de bens e componentes essenciais e de qualificação prévia de fornecedores alternativos, diz Michael McAdoo, um dos autores do estudo.
Para este responsável, o ambiente comercial relativamente seguro, que permitiu às empresas desenvolver extensas redes mundiais de fornecimento, “deu lugar a um cenário mais incerto que exige um equilíbrio entre os objetivos de eficiência e custos mais baixos e a uma maior consciência dos riscos globais”.
Ao longo dos últimos anos, o executivo norte-americano tem vindo a enveredar esforços para promover a produção interna e a incentivar a indústria a diversificar as redes de abastecimento. Medidas como a Lei da Redução da Inflação, o acordo comercial entre EUA, México e Canadá e o US Chips Act, lei que criou um fundo de 52 mil milhões de dólares para financiar a pesquisa e produção de semicondutores no País, são medidas que visam, em grande parte, diminuir a dependência dos EUA em relação à China.
Também a União Europeia tem vindo, desde 2021, a adoptar uma postura mais cautelosa nas suas relações com a China, através de uma escalada nas taxas alfandegárias, entre outras medidas e tomadas de posição, naquilo a que muitos chamam um movimento de retaliação “olho por olho”. As incertezas ainda são muitas, mas as empresas começam já a adaptar-se às novas exigências das dinâmicas geopolíticas. Todas estas reestruturações irão causar enormes desafios, mas, como salienta o relatório da BCG, também irão criar “grandes oportunidades”.