Emprega cerca de 80 mil pessoas em Portugal, gera um volume de negócios de 14 mil milhões de euros e exporta cerca de 98% da sua produção. Depois de um ano em que bateu todos os recordes, a indústria viu-se obrigada a travar a fundo em meados de março. Passado pouco mais de um mês, começa a aquecer os motores para voltar à estrada.
A Associação Europeia dos Construtores de Automóveis estima que se deixaram de produzir em Portugal 29 325 carros em 22 dias de paragem. A mesma organização admite que a crise gerada pela pandemia afetou, pelo menos, 20 mil trabalhadores desta indústria em Portugal.
Com 5 700 colaboradores e responsável por três em cada quatro carros que se produzem em Portugal, a Autoeuropa anunciou que irá reabrir a fábrica no dia 27 de abril.
Segundo a empresa alemã, o funcionamento estará condicionado pelo desenvolvimento da procura nos respetivos mercados, a disponibilidade de componentes e as regras determinadas pelo governo neste período de confinamento. Até ao final do primeiro semestre do ano, a fábrica irá operar com apenas dois turnos.
No ano passado, a Autoeuropa fabricou 257 mil carros em Palmela, atingindo um novo recorde de produção. Este crescimento começou desde que a unidade portuguesa do Grupo Volkswagen conseguiu garantir a produção do modelo T-Roc. O sucesso deste modelo levou a que a Autoeuropa reconquistasse, após 14 anos, o título de maior exportadora nacional.
Até ao dia da abertura, a fábrica manterá a sua produção de viseiras de proteção dos profissionais de saúde, que estão a ser enviadas para vários hospitais do País. Esta foi uma iniciativa de vários trabalhadores que usaram as impressoras 3D ali existentes para iniciarem esta produção. Ao princípio destinavam-se apenas aos hospitais da região, nomeadamente Setúbal e Barreiro, mas, atualmente, estão a ser distribuídas de norte a sul.
Mangualde protegida
Embora não tenha ainda definido uma data, a segunda maior fábrica de automóveis em Portugal, a do Grupo PSA em Mangualde, com 78 mil veículos produzidos no ano passado, o que representa 22,5% da produção automóvel nacional, anunciou que a fábrica “está pronta para reiniciar a atividade”.
O grupo francês desenvolveu, com os seus serviços médicos, um novo protocolo de medidas sanitárias reforçadas que foi colocado em prática durante o período de suspensão da atividade. Estas vão desde o controlo da temperatura dos seus funcionários, redefinição dos fluxos internos, marcações no solo para manutenção das distâncias exigidas, salas de isolamento, entre muitas outras.
Estas novas normas foram, primeiro, apresentadas aos representantes dos trabalhadores que puderam dar sugestões de melhoramento e, mais tarde, sujeitas à apreciação das autoridades regionais de saúde, à Inspeção do Trabalho e a uma auditoria externa.
Desta forma, o Grupo liderado pelo português Carlos Tavares quer criar as condições de segurança para que a fábrica possa iniciar a produção de forma gradual num breve espaço de tempo, embora a data de arranque ainda não esteja definida. Esta unidade fabril emprega oito centenas de pessoas.
Regresso a meio gás
Estas decisões são também boas notícias para as empresas de componentes de automóveis que o ano passado atingiram um volume de negócios em Portugal superior a 9 mil milhões de euros. Segundo a Associação dos Fornecedores da Indústria Automóvel, AFIA, nos dois primeiros meses do ano, antes do grande impacto causado pela Covid-19, a indústria de componentes tinha atingido um volume de exportações da ordem dos 1,9 mil milhões de euros e representava 18,4 euros em cada 100 euros exportados por Portugal.
Quem já regressou ao trabalho, embora apenas com um turno e com 25% dos 1165 funcionários que ali trabalham, foi a fábrica da Renault de Cacia, na região de Aveiro, que produz caixas de velocidades e outros componentes para motores de automóveis. A empresa prevê que, a partir de maio, o fluxo de produção possa aumentar, mas tudo está dependente do “ritmo de evolução das unidades fabris” que Cacia abastece, esclareceu à VISÃO o grupo francês.
Mais a Norte, em Famalicão, a fábrica de pneus Continental Mabor também já está de volta ao trabalho, mas apenas com metade dos 2 300 funcionários e sem produção ao fim de semana. Nesta fase, a decisão foi colocar metade dos trabalhadores disponíveis a laborar durante quinze dias e a outra metade nas duas semanas seguintes.
Também a Bosch reabriu as três unidades fabris que tem em Portugal, encerradas desde o dia 30 de março, entre as quais a de Braga que produz componentes para o setor automóvel e que emprega 3 500 trabalhadores. Nesta fase foram chamados todos os funcionários da área de produção, tendo os restantes ficado em regime de teletrabalho.
Queda a pique
A indústria regressa lentamente à atividade, mas os níveis de produção estão dependentes da procura. E nesta altura poucos são os que querem comprar carro novo. Em Portugal, nos primeiros 14 dias de abril venderam-se 838 veículos ligeiros de passageiros, o que representou uma queda de 85% face a igual período do ano anterior.
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Há marcas entre as dez maiores em Portugal que venderam, em média, menos de 5 carros por dia em todo o País. E a grande maioria destas vendas foram de veículos que já tinham sido encomendados antes do início do confinamento. Com os concessionários encerrados, a comercialização dos poucos veículos tem sido feita à porta dos clientes e a forma de venda através dos canais online das marcas. A grande maioria das marcas admite que, até ao final do semestre, a tendência deverá manter-se, podendo depois voltar a subir durante o verão. E ainda irão ser abaladas pela crise do setor do turismo, pois cerca de um terço das vendas de veículos em Portugal destinam-se aos rent-a-car. O setor começa a voltar à normalidade, mas a normalidade pode demorar muito tempo a regressar ao setor.