Líder nata é como muitos descrevem Juliana Oliveira. Mas ela prefere explicar porquê. Na escola, fez sempre parte da associação de estudantes; nos escuteiros, foi sempre guia da sua equipa; é praticante de surf e organiza actividades relacionadas com o desporto; fez voluntariado em África, onde lhe incumbiram a tarefa da organização; participa na comissão de festas da terra e, no ano passado, criou, com um amiga, uma instituição de voluntariado a idosos e jovens, no Porto. Fora estas características invulgares, Juliana teve uma infância normal. Pensou, como todas as crianças, ser bombeira, veterinária ou ministra, mas foi parar à área económica por esta ser suficientemente abrangente para poder enveredar por diversos setores. Licenciou-se em economia, “que é mais teoria”, e escolheu gestão para o mestrado, “porque queria algo mais de campo”. Depois de ter tido a experiência de lecionar na faculdade onde se formou, durante o primeiro ano de mestrado, optou pelo percurso mais comum, entre os melhores alunos, e foi trabalhar para uma consultora, a KPMG, onde fazia auditoria financeira (que é “basicamente, perceber se as contas estão bem”) a grandes empresas, como a EDP.
Vida perfeita, portanto? “Não”, responde Juliana, assertivamente. “Eu queria mais do que uma multinacional, da qual nem sabia quem era o dono. Queria criar algo meu.” Então, no ano em que ia ser promovida e ter carro da empresa, decidiu criar o seu próprio negócio. O setor? Metalomecânica. Para honrar a memória e o trabalho do avô Joaquim, que foi dono (a.k.a. o CEO de antigamente) de uma empresa de metalomecânica e com quem passou a infância e parte da adolescência. O seu maior ídolo. “Eu nasci numa casa que era uma empresa de sucesso. Desde sempre fui uma miúda habituada a ferro velho, a chapa, a limalha e a não olhar quando alguém está a soldar.” A especialização? “Reparação e manutenção de equipamentos do setor dos resíduos urbanos, sólidos e líquidos.” Ou: reparação e manutenção de camiões do lixo, para sermos mais práticos. Uma decisão que diz ter sido estratégica, “porque lixo há sempre” e porque o contacto constante do lixo nas estruturas dos camiões faz com que estas se deteriorem com frequência.
O exemplo da determinação e do empenho do avô, “sempre a 200%”, aliado à familiaridade do negócio, encaixou perfeitamente na estratégia de Juliana e tornou a sua escolha fácil. Mas, no início, o pouco apoio dos amigos e dos familiares não ajudou; ser uma mulher num mundo de homens, menos parecia ajudar. A resistência dos outros à sua vontade de mudança foi tanta, que Juliana sentiu necessidade de verbalizar a sua indignação.
A Olimec surgiu em Abril deste ano, “ainda é uma bebé”, como diz Juliana, entre risos. Juntou cem mil euros de capital inicial, com dinheiro seu e de amigos, que espera recuperar em meados do próximo ano.
No início, não foi fácil. “Não distinguia um macaco hidráulico de uma bomba hidráulica”, admite. E perante a nossa expressão de perplexidade, explica: “Aprendi muito sentada no chão a ver trabalhar o Zé”, o encarregado geral, que tem mais anos de profissão que Juliana tem de vida. José Ribeiro foi essencial em todo o processo, assim como o sócio, Luís Tavares, responsável pela área financeira. Foram eles que a ajudaram a criar uma empresa especializada em mecânica, metalomecânica, serralharia, pneumática e hidráulica. O objetivo foi apostar numa gestão vertical, “dar resposta a tudo o que precisa uma empresa neste setor” e, assim, penetrar o mercado com um serviço diferenciado e completo, o que lhe dá vantagem face à concorrência.
Juliana é chefe mas, quando é preciso, é a primeira a pôr as mãos na massa. Ou não fosse o lema adotado Lead by example. Daí que a ‘farda’ passe sempre por calças pretas, para o caso de se sujar, e estejam sempre à mão as botas de trabalho e o casaco, a que a mãe chama de “badalhoco”. Divide o tempo entre o escritório e a oficina e assegura oito postos de trabalho.
Certo é que esta startup, localizada na zona industrial da Maia, já tem uma carteira de clientes que Juliana considera invejável. Para Juliana, esta é uma prova de que a geração à rasca, “que alguém teve a ideia de nos chamar”, como diz, está a começar a andar com o país para a frente.