Após ter trabalhado num banco, durante o Verão, em regime de substituição de férias, agora foi chamada para colmatar uma licença de maternidade, no mesmo local. As aulas de mestrado em Ciências Económicas, no horário pós-laboral, já começaram.
15 de Julho
Part-time e mestrado
“Começa a aparecer algum desânimo”. As palavras de Cláudia deixam transparecer isso mesmo. Depois de bater a tantas portas, durante os últimos oito meses, sem que alguma se abrisse ou, sequer, ficasse entreaberta, o desalento começa a querer aparecer. Mas, ao mesmo tempo, não desarma. Arranjou um part-time numa instituição financeira no regime de substituição de férias: durante os meses de Verão será recepcionista e secretária. “Isto ajuda-me, não só financeiramente, é claro, mas também a ter a cabeça ocupada e a sentir-me útil”, afirma. Este último adjectivo ganha uma carga emocional maior na forma como é proferido. Nota-se o tal desalento e o esmorecer do sonho que acalentava há poucos meses: “terminei o meu curso superior e agora vou arranjar trabalho na minha área de estudo”. Muitos currículos depois, a esperança começa a perder força. “Dizem que a tendência, a partir de agora, é para melhorar, mas… não sei. Parece-me difícil conseguir arranjar emprego”, nota. Mas Cláudia, mais uma vez, não baixa os braços. Inscreveu-se, esta semana, no mestrado em Ciências Económicas, do Instituto Superior de Economia e Gestão, em Lisboa. À formação na área internacional que já tem, quer juntar a económica. “Gostava de trabalhar em cooperação e muitas instituições bancárias têm este departamento. Pode ser que com estas duas alíneas no currículo seja mais fácil”, nota. Em Setembro, conta começar as aulas, mas até lá ainda tem que resolver mais um assunto. É que no fim deste mês acaba o contrato de arrendamento da casa que divide com as amigas e, como todas decidiram não o renovar, Cláudia tem que pensar numa nova solução, até porque ficou sem ninguém para dividir as despesas já que as flat-mates vão continuar as suas vidas fora da capital. “Em Agosto vou para o Entroncamento e venho todos os dias para Lisboa trabalhar [no part-time], mas em Setembro já tenho que ter isto resolvido”, diz. Até lá, vai continuar a procurar trabalho a tempo inteiro.
14 de Maio
Não é por falta de envio de currículos a empresas ligadas à energia ou ao comércio, à consultadoria ou à banca que esta licenciada em Relações Internacionais, à procura do primeiro emprego, não consegue colocação. Já alargou a procura de trabalho em part-time a empresas de organização de eventos e a lugares de secretariado administrativo. Enquanto nada acontece, assiste a seminários: A ameaça terrorista do Hezbolah e Desenvolvimento sustentável são os exemplos das últimas semanas.
15 de Abril
Cláudia passa os dias numa espécie de Triângulo das Bermudas delimitado pela Avenida da Igreja, onde vive, e as avenidas de Roma e Guerra Junqueiro, por onde passeia à procura de um trabalho em part-time que lhe ponha algum dinheiro na conta e a desvie do retorno ao Entroncamento, de onde é natural. Aí, não desaparecem navios ou aviões, mas dezenas de currículos.
Para ela, o part-time não seria um objectivo em si. Apenas um meio que serviria para ajudar os pais nas despesas que têm com ela, em Lisboa, – divide, com mais quatro amigas, uma casa arrendada – enquanto não encontra nada na sua área de formação. Ficaria, assim, com disponibilidade para continuar a enviar currículos, aperfeiçoar o seu conhecimento de línguas estrangeiras e trabalhar como voluntária numa ONG, na área da cooperação para o desenvolvimento.
Licenciada desde Novembro, não passa um dia sem ver sites de emprego ou o placard de anúncios da sua antiga faculdade, o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. E porque parar ou baixar os braços não é com ela, já vai pensando num plano B: “Se não conseguir trabalho até Outubro, vou inscrever-me no mestrado.”