Há já alguns anos que Daniela Ruah ruma a Portugal em junho, na mira de um mês de férias passado sobretudo em Cascais. Mãe de dois miúdos de 11 anos e quase 9, a atriz e realizadora faz por lhes dar aquilo que teve ao crescer – liberdade – e, de caminho, proporcionar-lhes mais oportunidades para falarem Português.
Ao fim de duas décadas fora de Portugal, primeiro em Londres, onde esteve a estudar representação, e depois nos EUA, de início só a trabalhar como atriz, onde ganhou destaque na série NCIS: Los Angeles, Daniela não baralha sintaxes nem tem qualquer sotaque, concluímos ao fim de uns minutos de entrevista, na Casa da Guia.
O seu sorriso é desarmante, mesmo quando recusa educadamente comentar o estado das coisas em Los Angeles, onde mora, ou a atualidade no Médio Oriente. Recorde-se que ela é luso-americana e judia, e acrescente-se que a entrevista, a pretexto da primeira edição do Future World Film Festival (FWFF), foi feita antes do ataque de Israel ao Irão.
É esse festival internacional de cinema de curtas-metragens que nos junta numa esplanada, à sombra, onde a agora também realizadora faz um flashback para o Tribeca Festival Lisboa, que aterrou no ano passado no Beato. Foi nessa altura que a convidaram para membro do júri e mestre de cerimónias de um festival internacional de cinema de curtas-metragens imaginado por uma miúda de 16 anos, Tehani Nguyen.
Há um ano, Daniela disse logo que sim? Claro.
“Para já, obviamente, estando também no mundo cinematográfico, sendo realizadora e atriz e tentando tentar produzir os meus próprios projetos, interessa-me. Depois, também me interessou o tema do festival, o mundo no futuro, tanto o tópico como o distópico, até porque cada pessoa vem de um país diferente e por isso cada pessoa traz uma ideia diferente daquilo que pode ser o futuro.”
O facto de o FWFF promover artistas jovens, entre os 12 anos e os 35, também a cativou. “Os miúdos têm uma visão muito diferente do mundo hoje em dia, até por causa das redes sociais”, nota.
O coração do sr. Joaquim
Entre os projetos que Daniela Ruah avaliou – e que vão ser todos apresentados ao longo de terça-feira, 17, no cinema São Jorge, em Lisboa –, houve alguns que lhe chamaram mais a atenção. “A ideia do recomeço está presente em muitas delas”, gostou de ver.
Exemplos? Uma micro-metragem de ficção num ambiente distópico que fala num mundo pós-catástrofe, uma curta de animação sobre o ciclo da água e uma curta de ficção que sugere a necessidade (hipotética) de mudar o passado para que as coisas indesejáveis não aconteçam no futuro.
Nós ficámos com vontade de ver o documentário Epopeia de um Pescador (2024), estreia de Francisca Domingues, então estudante de mestrado da Universidade do Minho, que tem no centro da sua narrativa o sr. Joaquim Pires, um pescador que se fez artista ou um artista que teve de ser pescador.

“Quem é o homem por detrás destas esculturas? Um pescador que acompanhou a dança das redes na pesca do bacalhau, uma dança num mar tantas vezes impiedoso que parecia querer roubar-lhe a alma. Um pescador que continuou a tradição familiar, tal como o seu pai e o seu avô”, escreve a jovem realizadora, na apresentação do documentário.
“No coração do sr. Joaquim, não há paixão pela profissão de pescador, ela representa a luta de quem dependia do mar para sobreviver. O mar foi a base de toda uma comunidade, que venceu a fome com o trabalho árduo. O sr. Joaquim foi obrigado a fazer do mar a sua casa e o seu sustento, quando o seu maior desejo era ficar em terra para criar as suas esculturas. Agora, na reforma, o sr. Joaquim celebra cada pequeno desafio.”
Nesse documentário, que já foi apresentado em vários festivais, entre eles o Greenfest Serralves, e esteve entre os nomeados para melhor curta-metragem de mestrado e doutoramento nos prémios Sophia Estudante, vemos que um pau cuspido pelo mar ou pelo rio poderia muito bem ser um flamingo ou uma cobra. Por que não? E apetece ir até ao Minho para conhecer o sr. Joaquim.
Contra a lavagem ao cérebro
Mas há mais para ver ao longo desta terça-feira, no cinema mais bonito de Lisboa.
Logo de manhã, o festival arranca com as micro-curtas portuguesas, uma categoria de filmes com menos de dois minutos que podem ter sido gravados com o telemóvel. Por exemplo, One Second, de Pedro Caldeira, que gastou um minuto para mostrar como um segundo pode mudar várias vidas, Glimpse, de Maria Elena Hanna Garcia e Judy Ali Sinno, duas pré-adolescentes de origem libanesa que adoram contar histórias; e Brain Rot, de Filipe Amorim e Guilherme Amaral, que questiona a quantidade de conteúdo motivacional disponível, repetitivo e desinteressante. “Será realmente necessário ou é uma lavagem ao cérebro disfarçada?”
Depois, o dia continua de sessão em sessão, até passarem pelos grandes ecrãs das duas salas do S. Jorge todos os nomeados das diferentes categorias: Melhor Curta Internacional, Melhor Curta Portuguesa, Melhor Curta Juvenil, Melhor Documentário Internacional, Melhor Documentário Português, Melhor Documentário Juvenil, Melhor Micro Internacional e Melhor Micro Portuguesa.
Ao final do dia, além dos premiados em cada categoria, durante a cerimónia apresentada por Daniela Ruah será atribuído o Prémio Cherish the Earth, atribuído a um filme que realce a beleza do planeta ao mesmo tempo que aborde questões ambientais urgentes, e o Prémio Humanidade em Harmonia, atribuído a um filme que aborde questões sociais ou políticas globais com uma narrativa poderosa. E, ainda, menções honrosas para o melhor filme realizado por um jovem de 12-14 anos e o melhor filme de animação português.
Dar a conhecer a mensagem
“Esta primeira edição do Future World Film Festival prova que a próxima geração de contadores de histórias está pronta para imaginar o que está para vir e partilhá-lo com o mundo”, sublinha-se na organização que tem à cabeça Tehani Nguyen, uma adolescente de 16 anos, com raízes francesas e vietnamitas, que vive há oito em Portugal.
Antes de se lembrar de organizar este festival de cinema, Tehani abriu com a sua amiga Camila Acosta uma galeria online de fotografia, onde mostram trabalhos de fotógrafos dos 10 aos 25 anos.

“Como também gosto muito de cinema, quando me falaram de uma plataforma em que qualquer pessoa podia criar o seu próprio festival de cinema, decidi organizar este, para dar às pessoas da minha geração a oportunidade de mostrarem a sua criatividade e visão do mundo”, explicou em fevereiro à revista VISÃO JÚNIOR.
No início deste ano, foi então aberto um concurso, acabando por serem submetidas 347 candidaturas, de mais de 50 países, um terço das quais de Portugal, numa plataforma chamada Film Freeway. Admitiam-se curtas-metragens e micro-curtas, rodadas com os telemóveis, se não tivessem equipamento especializado.
O júri é composto por realizadores e atores portugueses e estrangeiros. Além de Daniela Ruah, coube a Joaquim de Almeida, Beatriz Batarda, Albano Jerónimo, Patrick Mille e Pierre Dupaquier, entre vários outros profissionais conhecidos, escolher os 13 vencedores.
Será uma bela festa, aposta-se, sobretudo entre os candidatos mais novos que seguiram o conselho de Tehani: “Não importa se usas um telemóvel ou uma câmara de filmar muito boa, ou se tens experiência ou não, o importante é dares a conhecer a tua mensagem. E, claro, divertires-te!”