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Vivemos num mundo de rebanhos.
É o que tenho sentido com as críticas lidas sobre o Conselheiro. Sinto-me por isso a ovelha negra do rebanho, pois devo ser a única pessoa que conheço que gostou da obra de Ridley Scott.
Este é um daqueles filmes que tem à partida, tudo para que não seja criticado até à exaustão: Cormac McCarthy escreveu de propósito para cinema o que é uma acção perigosa e logo para um realizador genial mas que dificilmente agrada à grande maioria do público, realizador esse que decidiu encher o filme de “vedetas”.
Saí da sala com aquela sensação de quem levou um pontapé no estômago e ainda não está capaz de se erguer convenientemente, precisei de alguns dias para compor a ideia final na minha cabeça e não estou certa de que a mesma não vá mudando com o passar do tempo, mas essa é para mim a beleza da sétima arte, é a sua capacidade de nos fazer reflectir sobre as nossas próprias sensações e sentimentos.
Se tiver que escrever sobre “o pior” do filme, penso no que mais me afligiu foi assistir a um Javier Bardem e uma Cameron Diaz muito estilizados e até meio caricaturados que surgem pela primeira vez no écran provocando-me um misto de riso e dúvida. Com o desenrolar das suas primeiras cenas sinto-me arrebatada por duas personagens que têm tanto de incrível como de reais, personagens essas que não são propriamente vilãs porque não têm consciência disso mesmo, mas que pela sua crueldade e violência nos levam para dentro da história amoral devido às suas prestações magníficas.
The Counselor (terrivelmente traduzido para português, já que, por uma lado, “Counselor” é usado no sentido de Advogado/Mandatário e, por outro, esta personagem passa todo o filme a receber e não a dar conselhos, e o que só é desculpável caso o termo não seja usado com outra intenção que não a de dar uma alcunha a esta mesma personagem, alcunha essa que foi previamente usada por todos os que a rodeiam) é a narrativa da descida vertiginosa de uma homem (Michael Fassbender) que, ao escolher fazer parte de um esquema de dinheiro fácil para manter o seu luxuoso estilo de vida, perde tudo aquilo em que acredita num jogo que tem tanto de terrível como de macabro.
Michael Fassbender brinda-nos, mais uma vez, com um trabalho de composição dramática de uma personagem furtiva e que leva o espectador consigo para o seu mundo, sem nunca o abandonar, mesmo nos piores momentos dessa mesma descida, fazendo de nós, seus cúmplices de dor e tormento. A pungência dessa dor que corrói a personagem é magistralmente ilustrada na cena em que conversa, ainda ébrio, com o dono de um bar que lhe confidencia que decidiu morrer no dia em que perdeu toda a sua família. Nesse momento, o dono do bar convoca uma névoa negra sobre Fassbender, sem que o álcool o possa proteger, percebendo este que a ausência de medo do dono do bar derivava do facto de já ter perdido o que mais estimava.
Os poderosos diálogos de Cormac McCarthy ecoam ainda na minha cabeça como metáforas cristalinas de um mundo sem valores e sem escrúpulos, nos quais as palavras são autênticas fortalezas para segredos indecifráveis, como o expresso no diálogo sobre diamantes nos primeiros vinte minutos de filme, que não resisti a destacar no início deste artigo.
Não é um filme perfeito, porque se intercruzam dois planos que aparentemente incompatíveis impondo-se, por um lado, o minimalismo de Cormac McCarthy enquanto, por outro, as graças estéticas de Ridley Scott criam um certo véu de incongruência no todo. Feito este aviso, não deixem de vivenciar e dissecar a obra, experimentem meter-se na pele destas personagens. Verão que há mais do que aquilo que os olhos conseguem alcançar.
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