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Era um homem napoleónico: “Primeiro avançar depois logo se vê”. É assim que o realizador Bruno de Almeida retrata Humberto Delgado, em Operação Outono, um filme que lança um último olhar sobre um general, sem medo sempre, mas já na sua fase de ocaso. A caminhar, desarmado de espírito, mas de revólver no coldre, desabrida, irrefletida, e até ingenuamente para a morte. São os seus últimos passos, as suas últimas inquietações, o seu último desassossego: “Eu sou um homem de acção”. E aí está o homem que obviamente demitia Salazar, perdidas as fraudelentas eleições de 1958 (75,8% para o Almirante Américo Tomás, 23, 4% para o general), cansado de estar à espera, na Argélia, a convite do então presidente Ahmed Ben Bella. Queria ação, mas os “camaradas” de exílio recomendavam-lhe prudência, quando ele só sentia urgências. “As revoluções não se fazem com balas de papel”. E assim embarcou, com uma generosidade incauta, num embuste, com nome de estação do ano, muito mal-amanhado pela PIDE. E numa cilada de morte, condenação capital para um general incómodo, que desafiava o regime, nem lhe dava tréguas de apaziguamento. Ele queria ação, exigia revolução.
Baseado na biografia do general escrita pelo seu neto, Frederico Delgado Rosa, o filme consegue transmitir alguma pujança a um político que já parecia estar na mesma fase da operação que levava o nome de código Outono. Isolado, desacreditado, desapoiado. Ironicamente, sempre que um cineasta tem um papel de herói nacional, opositor ao Estado Novo, entrega-o a um ator estrangeiro: o italiano Stefano Accorsi, enquanto Salgueiro Maia, em Capitães de Abril, de Maria de Medeiros e agora, o ator dos sopranos, John Ventimiglia, enquanto Humberto Delgado. Em ambos os casos ganhou-se em carisma e parecença física – em Operação Outono perdeu-se na dessincronia da dobragem.
Bruno de Almeida conta que mal acabou de ler o livro Humberto Delgado, Biografia de um General sem Medo (2008), veio-lhe a ideia da adaptação. Interessava-lhe sobretudo as circunstâncias nunca esclarecidas, ou nunca prevalecidas pela justiça, da morte do general. “A história nunca tinha sido bem contada, houve uma série de mentiras sobre a forma como Humberto Delgado foi assassinado, nos resultados do julgamento, no que se passou em tribunal. Dramaticamente, tinha todos os elementos para ser um filme, é mirabolante, com episódios incríveis”, comentou em entrevista. Para a seguir acrescentar: “em termos de corrupção e de tribunais continuamos numa sociedade arcaica”. O filme decorre entre o início da operação, a ratoeira armada para atrair o general até junto da fronteira, e prossegue já depois, em 1981, quando o caso foi levado a tribunal, com a PIDE no banco dos réus, alguns agentes presentes, outros ausentes (como o célebre Rosa Casaco, que comandou toda a desastrosa operação), mas não redundando em nenhuma pena de prisão efetiva, denunciado o julgamento como uma farsa por Frederico Delgado Rosa: “Os juízes do Tribunal de Santa Clara deturparam de forma grosseira e deliberada a verdade material do crime, por motivos políticos, no sentido de ilibar postumamente a figura de Salazar”. O Acórdão de Julho de 1981 considerou que o objetivo era apenas raptar, e não matar Humberto Delgado.
Perdido o protagonista principal, logo na primeira parte do filme, o enredo segue a lógica de thriller político, com muitas palavras, muitas andanças por corredores, muitas conversas às secretárias, muitas cenas de tribunal, sem antes passar por uma fase CSI, com a exumação e autópsia dos cadáveres em decomposição. Na altura da morte, Delgado fazia-se acompanhar pela secretária pessoal, a brasileira, Arajaryr Campos, de óculos felinos à anos 60, cujo papel no filme, parece só ser “pegar casacos” dos restantes, mas aguarda-se um pouco mais de desenvolvimento da personagem na versão longa, que se seguirá em formato de série televisiva.
Um dos grandes trunfos do filme é o actor Carlos Santos ( um tão magnífico como sinistro Rosa Casaco). É ele que (des) governa toda esta operação, que culminou na morte e num duplo enterro apressado em solo espanhol, o que, apesar da sintonia franquista com Salazar, causou o maior embaraço e humilhação ao presidente do Conselho, e sérias complicações diplomáticas. Cheia de falhas e partes gagas, trapalhadas e, pior do que isso, testemunhas, a operação depressa se desmascarou, os corpos foram facilmente encontrados, o anel militar de Humberto Delgado identificado e abriu-se um processo de averiguações em Espanha bastante sério. Foi, aliás, graças à negligência portuguesa e à diligência espanhola que muitos pormenores do assassinato puderam ser descortinados. Silva Pais e Barbieri Cardoso, directores da PIDE, ainda tentaram a velha desculpa do “foram os comunistas”: Não pegou.
Cuidado Casimiro
Se as imagens de época (em Argel, Itália ou Marrocos), retiradas de películas da altura, são meramente circunstanciais e até produzem alguns “choques” de raccord com as cenas que se lhes seguem, toda a sequência de época referente ao 25 de Abril acompanhada do E Depois do Adeus (resulta sempre) torna-se quase comovente. Bruno de Almeida que curiosamente nasceu no ano em que Delgado foi morto (1965) saiu, em criança, à rua nesse dia “inicial, inteiro e limpo” com o pai, acompanhou o entusiasmo do povo, presenciou o tiroteio na António Maria Cardoso . Ele que não queria fazer um filme bonito, com planos compostos, procurou mesmo “o anti-estético”, acabou por conseguir uma das mais belas e solares sequências do 25 de Abril, sem imagens demasiado requentadas nem os clichés do costume.
Sem nunca se afastar do ponto de vista documental, “o objetivo era filmar a verdade”, sem nunca parecer cuidado (apesar da opção dos 16mm), há cenas que podem salvar o filme inteiro, como os percursos nos soturnos dos corredores da PIDE (o verde seco das paredes), ou a deixa cómica de uma das filhas do general Maria Humberta (Cleia Almeida) que assiste às exéquias fúnebres do ditador, com o maxilar muito encarquilhadinho, pela televisão, ou os interrogatórios dos militares do MFA ao desgraçado do guarda fronteiriço (Camané, sem fado mas com farda, uma revelação…).
O brutamontes Casimiro, um autêntico assassino profissional, “o animal” como lhes chamavam os colegas da PIDE, é dado como autor material do crime, e o filme deixa a tese de que o general pode ter sido assassinado de uma forma ainda mais brutal do que se supunha. Mas sobretudo deixa-se a mensagem, muito pouco subtil (diga-se de passagem): “a PIDE tinha 20 mil informadores, eles andam aí”. Mas o que importa reter é que a história não tem donos, nem aqueles que mais ordenavam, nem que a tentem enterrar a sete palmos de terra.