Com a polémica gerada em volta da atriz Karla Sofía Gascón – a atriz de Emilia Perez –, Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, ganhou terreno na luta pelo Oscar para o melhor filme internacional. Mas este ano há, pelo menos, dois outros grandes filmes que também mereceriam a estatueta. Em primeiro lugar, o iraniano A Semente do Figo Sagrado, de que já falámos aqui, e, depois, este A Rapariga da Agulha, do sueco Magnus von Horn, obra impressionante, filmada em Copenhaga, decorrendo a ação no final da II Guerra Mundial.
A Rapariga da Agulha é, em primeiro lugar, um filme de argumento. Diz-se isto no sentido em que tem um enredo intenso, muito bem trabalhado, cheio de complexidades, em que se privilegia a ação, numa luta árdua pela sobrevivência quotidiana. Há, desde o primeiro momento, a ideia de uma sociedade devoradora e uma personagem, Karoline – uma operária fabril cujo marido desapareceu na guerra –, que funciona em modo de reação, vendo-se forçada a responder a acontecimentos que a ultrapassam.

O filme começa logo com um ritmo frenético, expondo a dureza daquela sociedade, o que em termos de curva narrativa poderia ser um risco. Mas a história de Von Horn é tão rica e poderosa, com tantos episódios significativos e volte-faces no enredo, que se consegue manter quase sempre num ponto alto.
Filmado a preto-e-branco, reconhece-se a estética de algum cinema dinamarquês e polaco, mas não é subsidiário da escola Dogma, ou talvez apenas na forma crua como retrata aquele mundo, por si só cruel – sendo a banda sonora da dinamarquesa Puce Mary um elemento ousado e determinante nesse sentido.
Apesar de vivermos sempre as desventuras de Karoline, fica a ideia de vermos vários filmes. Na verdade, de forma muito clara, esta longa podia estender-se facilmente para uma série, mesmo que não busque de maneira óbvia uma estética televisiva, como o faz, deliberadamente, Emilia Perez, o mais pobre dos seus concorrentes nos Oscars.
A Rapariga da Agulha > De Magnus von Horn, com Vic Carmen Sonne, Besir Zeciri, Trine Dyrholm > 123 min