
Pintura em grafitti de um excerto de Húmus, de Raul Brandão, numa rua de Guimarães
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Passam poucos minutos das nove e meia da noite de sábado quando tem início, na Biblioteca Municipal Raul Brandão, em Guimarães, um debate acerca da vida e obra do escritor novecentista, entre duas figuras familiares no panorama literário português: Inês Pedrosa e Fernando Pinto do Amaral. Mais tarde, no mesmo local, dar-se-ia uma sessão de leitura de poemas no escuro, com Catarina Wallenstein, Kalaf Epalanga ou Renato Filipe Cardoso. No domingo, às 15h, mais uma conversa, desta vez sobre o papel de Brandão no jornalismo da sua altura, que colocava frente a frente o político e historiador Rui Tavares e o escritor Nuno Costa Santos. Antes, um passeio temático pela cidade de Guimarães, ao som de leituras de Húmus por Miguel Real.
São apenas algumas das sessões centrais de Húmus – Festival Literário de Guimarães, que une personalidades de todas as áreas à cidade para celebrar um autor que, nas palavras de muitos dos convidados, é menos lembrado do que deveria. O festival trata, então, de revitalizar Húmus (1917), tido como o livro essencial de Raul Brandão, bem como o resto da sua vasta e abrangente obra crónica, poética e teatral, numa parceria entre produtoras, editoras, a Câmara Municipal e, claro está, a vontade da boa gente de Guimarães. Um acontecimento que celebra, de uma só vez, os 150 anos do nascimento de Brandão, os 25 anos da Biblioteca Municipal com o seu nome e, por coincidência ou não, ainda o aniversário de casamento do escritor.

Debate Raul Brandão e a imprensa, com Rui Tavares e Nuno Costa Santos
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Os momentos da programação com maior destaque seriam mesmo os debates, desafiantes exercícios de abstração que rapidamente transcenderam os temas propostos. Discutiu-se, mormente, a vida de Raul Brandão e a sua relação com a morte; os seus desejos, ambições, expectativas e o olhar profundamente melancólico, ainda que esperançoso, que lançou sob os seres humanos, particularmente consagrado na perspetiva nauseada de um povo português adormecido, alheado, preso nas suas rotinas de vida e indiferente ao que existiria para lá disso. Como apontaria Inês Pedrosa em ocasião oportuna, a obra de Brandão pode ser resumida como “um pré-existencialismo e precursora do nouveau roman, numa época em que já se verificava o desaparecimento da religião como baliza social, e a crescente responsabilização do Homem”.
De facto, tanto Inês quanto Fernando Pinto do Amaral, também escritor, explicitavam o modo como, de maneira eclética e em várias frentes, Raul Brandão viria a representar uma força inovadora para a literatura portuguesa. Fosse na introdução de problemáticas vanguardistas, como “a visão da mulher como força particular numa altura em que a igualdade de género não era uma preocupação”, fosse no questionamento do Divino e das suas implicações práticas e ontológicas, os membros do painel pintavam Brandão como um escritor que “unia todos os géneros literários num fluxo contínuo, sendo tão diferente que, excetuando talvez Vergílio Ferreira, não há comparação possível com autores posteriores”, segundo Pinto do Amaral. Uma intuição que se fez sentir, por exemplo, na interpretação de O Gebo e a Sombra, que havia ocorrido mais cedo naquele dia, ou nas palavras de Rui Tavares, que viria apontar que “o que une a dispersão literária de Brandão é a sua inabalável consistência temática”.

Numa escola vimaranense, crianças aprendem sobre a obra brandoniana e desenvolvem trabalhos para o festival
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Tavares referia-se à forma como Brandão era capaz de, em simultâneo, conferir um “cariz literário de crítica e subjetividade” ao seu jornalismo, que praticou em publicações como O Dia e Correio da Manhã, e manter uma “curiosidade quase jornalística sobre a natureza humana” na sua literatura. Lamenta que, nos dias de hoje, “o jornalismo literário tenha sido segregado da parte noticiosa”, seguindo uma visão que defende um jornalismo de notícias com a análise e subjetividade relegadas às páginas finais das publicações. Afirma, inclusive, ser esta uma das razões para a ascensão de extremismos políticos: “É muito fácil a quem descubra estas fragilidades do jornalismo de alimentá-lo de polémicas e escândalos, inundando-o e desencadeando ciclos viciosos de desinformação.” Um fenómeno evitado pelas crónicas jornalísticas de Brandão que, mantém, “preconizavam de forma profética as falências do projeto europeu” na sua descrição da pobreza e da miséria.
Como apontaria Nuno Costa Santos, no mesmo debate, Raul Brandão não foi um escritor qualquer, exibindo, além de “uma instintividade que o guiava constantemente”, uma “empatia intrínseca para com o sofrimento humano”. A forma quase obsessiva pela qual tratava este tema decorre, explica, do facto de “ir além das aparências, até aos becos onde residiam as prostitutas, os mendigos, as crianças indigentes” e, no processo, “criticar o capitalismo desenfreado em voga, representado em seus textos pela figura do Oiro”. Apesar de encontrar a positividade nas pessoas, Raul apresentava a civilização como a “negritude, a sombra humana como contraponto à natureza pura e bela”. Foi, de resto, com explica Inês Pedrosa, um pintor de contrastes, quer na paradoxal “humanização de objetos inanimados, como a pedra, a flor ou a vila” em função da “desumanização das vidas e das rotinas”, quer na própria reflexão sobre a vida e a morte, na qual “há vivos mais mortos que os mortos” e, por outro lado, “mortos que vivem e ressuscitam dentro de nós”.

Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães, que sediou, entre outros, a apresentação das reedições de “Memórias” e “Húmus”, de Raul Brandão.
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Não há apenas negatividade e melancolia, no entanto, a encontrar em Raul Brandão, como explicam os conferencistas. “Quem lê obras como Húmus pode pensar que Brandão é um pessimista puro”, afirma Pinto do Amaral, “mas depois tem textos relacionados com a política, por exemplo, que dão a conhecer um outro lado seu. Ele tinha fé de que se houvesse um trabalho de instrução na sociedade as coisas melhorariam – tinha fé no ser humano.” Afinal, como diz Inês Pedrosa, “era um homem politicamente sensível na época de grande instabilidade que foi a I República. Ninguém com uma mente política pode ser intrinsecamente um pessimista”. Pinto do Amaral completa com a ideia de que “Brandão teria empatia profunda para com as pessoas e o universo, numa escrita onde a emoção domina. O húmus pode ser uma coisa suja e encardida, mas disso ele depois faz flor, chega sempre ao sublime a partir do horrendo”. Ou, como afirmou Aldina Duarte, “mesmo na tristeza, a sua arte oferece um consolo. Faz-nos sentir menos sozinhos na nossa depressão”.
Falava a fadista numa sessão que abordou o diálogo entre a música e a escrita, partilhando que “para o fado, o efeito da literatura é enriquecedor. Os grandes compositores tinham sempre em conta a sonoridade da palavra, a sua estética, porque era o veículo de excelência para a transmissão da mensagem”. Apesar de ver na música um efeito mais imediato e impacto emocional maior, encara Húmus como um “livro que choca, que faz sofrer, e que é surpreendentemente fácil de ler por ser tão intenso”. Classificando-o como “obra inesgotável”, admite que nunca o compreendeu na sua totalidade, mas que “todas as vezes que se pega nele, por mais que já se tenha lido, descobre-se algo de novo”. Diz ainda que “sem esta dor não há vida, não há sentimento” e que “Raul Brandão tem uma consciência literária superior, sendo capaz de expressar por palavras emoções que, por vezes, nem sabíamos que conhecíamos”.
Inauguração do Jardim Rauliano, em Guimarães, em comemoração dos 150 anos do nascimento de Raul Brandão
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Uma ideia explorada a fundo em outra das sessões do festival literário, numa experiência sonora e, em muitos sentidos, visual, de cariz inovador. Intitulada Poesia no Quarto Escuro, promovia a recitação de poemas numa sala sem luz, por artistas de proveniências diversas: os locutores Renato Filipe Cardoso e Alexandra Gonçalves, a atriz Catarina Wallenstein, e o músico e escritor Kalaf Epalanga, dos Buraka Som Sistema, liam cartas de Raul Brandão e textos de autores como Teixeira de Pascoaes, Eça de Queirós ou Mia Couto. Num exercício da primazia da voz, o espectador era convidado a fletir a sua imaginação, guiado pela sublime entoação dos anfitriões que, muitas vezes, se sobrepunha ao próprio conteúdo das palavras. “É engraçado que o modo como as palavras são ditas ganhe outra força em relação àquilo que é dito”, comentava Kalaf depois da sessão.
Foi destes pequenos experimentos, incrementados e embelezados com passeios, inaugurações, pequenos concertos, lançamentos de livros e projetos de arte urbana que viveu um fim de semana revivalista, é certo, mas também de uma profunda redescoberta para a cidade de Guimarães, que se envolveu a cada passo na comemoração do aniversário de um homem cuja lembrança está intimamente ligada à cultura e identidade portuguesas. Como apontou Francisco José Viegas, comissário e figura central do festival, “a cultura não é mais do que a interação da nossa curiosidade com a disponibilidade de ouvir os outros e dialogar” – e foi precisamente nesse quadrante que floresceu o festival Húmus. “Não fechamos Raul Brandão numa redoma académica, porque ele transcende tais limitações. O que nos motivou foi sempre conquistar mais leitores para a sua obra, que jamais deve ser esquecida.” Uma flor que teima em nascer da pedra, e que deve ser estimada, como a ele, por tantos anos quantos mais venham a haver.