
O autor espanhol Arturo Pérez-Reverte
João Lima
Se os primeiros parágrafos de um romance têm de atrair inexoravelmente os leitores, então podemos assumir que Eva começa com uma armadilha muitíssimo eficaz. Estamos em Lisboa, toda ela sombras e calçadas escorregadias, descrita em ritmo trepidante e cinematográfico. “Não quero que me matem esta noite, pensou Lorenzo Falcó. Desta maneira não. No entanto, estava prestes a acontecer. Os passos atrás dele ecoavam cada vez mais próximos e rápidos. Certamente que tinham pressa de o alcançar. Tinha ouvido o grito do seu contacto ao cair na escuridão, atrás dele, do miradouro de Santa Luzia, e o baque do corpo a estatelar-se no chão quinze ou vinte metros mais abaixo, numa viela escura do bairro de Alfama. E agora iam atrás dele, à procura de acabar o trabalho, de dar a estocada final.” Falcó ainda andará fugido, por exemplo, pelo Martinho da Arcada, pelo teatro Éden, por bares de bas-fond.
O muitíssimo apreciado Pérez-Reverte tem o talento de criar heróis, que apelam ao imaginário popular, e cenas enérgicas para enredos escorreitos. Tudo isso é convocado nesta segunda aventura de Lorenzo Falcó, ex-traficante de armas, agente secreto ao serviço do franquismo, dotado dos tiques arquetípicos do género: amoral, sedutor, cínico, com autodomínio e sentido de humor disparado à mesma velocidade da sua arma. Aqui, o vilão foi igualmente esculpido no género noir: encontramos Eva Neretva, mulher fatal, espia soviética, comunista obediente a Estaline, com quem Falcó se envolvera quando ela se identificava como Rengel. A este anzol à la Casablanca, o escriba junta secundários inesquecíveis, gente e histórias verdadeiras: estamos em 1937, e Falcó tem de se apoderar de 30 toneladas de ouro, guardadas num navio republicano com destino à Rússia, perseguido por uma armada nacionalista. O desfecho jogar-se-á numa Tânger cosmopolita.

Eva (Asa, 368 págs., €16,90) retoma o protagonista de Falcó, romance traduzido para português em 2017, no qual Arturo Pérez-Reverte explora o imaginário das aventuras de agentes secretos