Contrair a variante Omicron não aumenta a imunidade do portador e não reduz os seus riscos de reinfeção, indica um novo estudo realizado no Reino Unido. A afirmação aplica-se a qualquer pessoa, incluindo quem recebeu as três doses da vacina. De acordo com o estudo, as pessoas que contraíram Covid já na primeira onda da pandemia também não têm nenhum tipo de melhoria na sua resposta imunológica se eventualmente forem vítimas da variante Omicron.
O estudo, publicado esta terça-feira na Science, poderia ajudar a explicar o porquê de existirem tantos casos de reinfeção na onda Omicron, inclusive casos de pessoas que contraíram a própria Omicron duas vezes, assim como pode ser também essencial no debate à volta da imunidade de grupo.
A ideia de que contrair a nova variante pode ser uma forma de obter algum tipo de imunidade contra o vírus, evitando uma reinfeção, é posta em causa perante as descobertas da nova investigação. “Quando a Omicron começou a voar pelo país, as pessoas diziam que estava tudo bem, que era uma forma de melhor a imunidade das pessoas”, começa por explicar num comunicado da sua universidade, Imperial College London, Rosemary Boyton, coautora do estudo, concluindo: “O que estamos a dizer é que não é um bom reforço da imunidade”.
A quem foi vacinado triplamente e não teve uma infeção prévia por Covid, a Omicron forneceu um impulso imunológico mais evidente contra as variantes anteriores e um bastante mais reduzido contra a própria Omicron. Os infetados durante a primeira onda da pandemia e depois novamente com a Omicron não tiveram nenhum tipo de reforço. “Se fores infetado durante a primeira onda, não podes aumentar a tua resposta imune se tiveres uma infeção por Omicron”, reforça Boyton.
Ainda assim, e apesar de as vacinas não impedirem uma reinfeção, a equipa do estudo alertou para o facto de a vacinação continuar a ser essencial na proteção contra consequências mais graves resultantes da contração da Covid.
O estudo teve como base as amostras de 731 profissionais de saúde do Reino Unido, todos eles vacinados triplamente, mas com diferentes históricos de infeção, que foram acompanhados entre março de 2020 e janeiro de 2022. A equipa utilizou as amostras recolhidas nas semanas que seguiram a toma da terceira dose e procurou explorar as respostas dos anticorpos e de dois tipos de células conhecidas como células T e B à variante Omicron, subvariante BA.1.
Os resultados obtidos sugeriram que, independentemente do facto de os participantes já terem ou não contraído Covid, nas semanas que se seguiram à terceira dose, os seus níveis de células T contra proteínas Omicron eram reduzidos, enquanto os níveis de anticorpos contra proteínas Omicron eram mais reduzidos do que contra outras variantes.
O histórico de infeções provou-se, no entanto, importante em algumas das outras descobertas feitas durante o estudo. De acordo com a equipa de investigadores, enquanto que uma infeção pela variante Omicron aumenta a proteção contra infeções futuras de outras variantes, não o faz contra uma reinfeção por Omicron, ou, pelo menos, não significativamente. No caso de terem sido infetados na primeira vaga do vírus e depois pela Omicron, essa imunidade ainda se encontrava mais enfraquecida.
“Imprinting imunológico”
A descoberta veio anular a ideia de que uma infeção por qualquer uma das variantes seria uma forma de aumentar a resposta imunológica de um indivíduo. Contrariamente, o que parece ocorrer é que a proteção de um dado indivíduo contra futuras infeções de qualquer uma das variantes varia de acordo com o historial de infeções e vacinação do mesmo, uma resposta conhecida por “imprinting imunológico”.
Segundo os investigadores, essa diversidade no histórico de infeções e vacinação sentida nos participantes do estudo foi essencial já que permitiu perceber a importância do “imprinting imunológico” não só para melhor compreender o vírus, mas também para melhor perceber questões ligadas a futuras novas variantes ou à imunidade de grupo.
As descobertas indicaram que quem nunca havia sido infetado pela Covid-19 e que contraiu a Omicron apenas após ter recebido as três doses da vacina, apresentava boa imunidade às células B e T em testes de laboratório contra variantes anteriores como a Alpha e Delta, embora menos proteção contra a Omicron. Aqueles infetados com Alpha no início da pandemia tiveram menos resposta de anticorpos contra a Omicron.
O que parece ter sido bastante destacado no estudo é o efeito reduzido da Omicron sobre a imunidade dos indivíduos. “Descobrimos que a Omicron está longe de ser um impulsionador natural benigno da imunidade da vacina, como poderíamos ter pensado, mas é um evasor imunológico especialmente furtivo”, explica o co-autor do estudo Danny Altmann, também em comunicado.
De acordo com Altmann, as novas descobertas podem ser importantes, inclusive, no desenvolvimento de novas vacinas que possam vir a ser necessárias, nomeadamente agora que o mito da imunidade de grupo é desmentido. “Não estamos a obter imunidade de grupo, não estamos a construir imunidade protetora para a Omicron”, reforçou.
Ainda assim, em vários locais em todo o mundo as novas ondas da Covid parecem ser cada vez menos a causa de hospitalização e outras consequências graves. Tal sugere que, apesar do histórico de infeções ou vacinação das pessoas, há uma imunidade que se parece estar a formar contra as formas mais graves da Covid. Continua a ser, no entanto, importante ter em atenção os poderes de evasão imunológica da Omicron e o facto de novas subvariantes estarem a evoluir, destacam os autores do estudo.
“Uma preocupação é que a Omicron possa sofrer mutações”, explica Boyton. “Nesse cenário, as pessoas que tiveram infeção pela Omicron estariam mal reforçadas contra infeções futuras, dependendo do seu “imprinting imunológico””, acrescenta.