Como uma espada de Dâmocles, o PS volta aos grandes escândalos das teias de interesses, favorecimentos obscuros e suspeitas de corrupção. E, de novo, a sombra da qual nunca se livrou desde que José Sócrates foi detido há 12 anos, colando ao partido, de forma indelével, a mancha dos polvos.
Na semana passada, uma megaoperação da Polícia Judiciária deteve cinco pessoas no âmbito de um processo que tem mais de 30 arguidos, por suspeitas de favorecimento. Chamando à operação Imergente, a PJ realizou 92 buscas entre Mafra, Oeiras, Coimbra e Lisboa, visando também a sede do PS, no Largo do Rato. Em causa estão adjudicações de autarquias e juntas de freguesia a empresas privadas, com valores que, somados, ascendem a dois milhões de euros.
Duarte Moral, antigo assessor de António Costa, e a sua mulher, Rute Reimão, são dois dos detidos. Entre as suspeitas de favorecimento estão adjudicações feitas pela Junta de Freguesia da Misericórdia, em Lisboa, liderada pela socialista Carla Almeida, à empresa de Duarte Moral, para consultoria de comunicação e imagem. E também vários contratos da empresa de Rute Reimão com a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, na altura liderada por Miguel Coelho. Este histórico autarca socialista é também acusado de contratar 19 empresas ligadas a militantes socialistas da zona de Mafra, sendo Sérgio Santos, ex-líder do PS de Mafra, apontado como a figura central que alegadamente recrutava militantes socialistas daquele concelho para trabalhar na freguesia lisboeta.
Bem pode dizer José Luís Carneiro que “o PS não é visado nestas diligências”. O impacto sobre o partido é violento, de tal forma que o procurador-geral da República veio já negar categoricamente qualquer ideia de “timing político” da operação, agora que o PS está (estava?) à frente nas sondagens.
O primeiro-ministro, Luís Montenegro, diz que isto é a “democracia a funcionar”. Na verdade, é a democracia a desmoronar-se. Dos “boys” aos “polvos”, passando pelas “cabalas”, nada tem minado tanto a democracia e alimentado tanto os populismos como a ideia de que “eles só querem ‘mama’” ou a de que “todos roubam”.
Ainda que os populismos de extrema-direita tenham também no seu seio a devida dose de escândalos judiciais e suspeitas de corrupção, esta é uma fama cravada nos grandes partidos “do regime”, sobretudo no PS, que teve um primeiro-ministro como protagonista de outra dessas megaoperações.
Em Espanha é igual. Também na semana passada, a Guardia Civil realizou buscas na sede do PSOE, por suspeitas de um alegado esquema de corrupção em contratos públicos. Além disso, o irmão de Pedro Sánchez começou a ser julgado por tráfico de influências, a mulher do presidente do governo espanhol também vai a tribunal no âmbito de uma investigação de corrupção, e o ex-presidente José Luis Zapatero está a ser investigado por eventual ligação a uma alegada rede de tráfico de influências.
São os escândalos ibéricos a vulnerabilizar as nossas democracias. E nem vale a pena apontar, a estes dirigentes alegadamente corruptos, falta de interesse pela saúde do bem comum. Isso não é nada perto do interesse pela saúde das suas contas bancárias.