Se existe algo que continua a causar perplexidade em questões eleitorais são os resultados dos votos entre a emigração. À hora de fecho desta edição, quando ainda faltavam apurar seis dos 109 consulados, André Ventura era claramente o mais votado entre os nossos emigrantes, com 42%, seguido muito ao longe por António José Seguro, com 23%. Uma inversão completa dos resultados apurados entre os portugueses que residem em Portugal.
A pergunta é simples: como podem os nossos emigrantes, que certamente sofreram todo o tipo de dificuldades e de discriminação num país estrangeiro para tenazmente conseguirem uma vida melhor para si e para os seus, serem tão permeáveis à conversa de um partido anti-imigração? É que este não é um tema lateral nas campanhas do Chega, é pedra angular, chão de fábrica. Razão dos seus cada vez mais altos resultados, raiz transformadora de ódio em votos.
O fenómeno dos emigrantes, menos misterioso do que o do Entroncamento, está largamente estudado pela ciência política e pela psicologia e, de forma muito básica, resume-se a isto: já que apanhei, também vou bater. Só serei importante e pertencerei ao grupo mais forte se deixar de ser o último da liga dos últimos da escadaria social, posso até ser o penúltimo, mas é crucial que haja um último além da mim. Um imigrante mais recente, um com uma religião diferente, um com outra cor de pele.
O facto de termos tanto de semelhante ao ponto de partilharmos um sonho (a vida melhor) e a força para o concretizar não interessa absolutamente nada. Aliás, esse tipo de identificação até causa repulsa – “eu”, emigrante, recuso a identificação com o último dos últimos, algo que me causa horror porque implica desadequação à sociedade onde quero inserir-me, e opto por me identificar com a primeira liga social à qual desejo tanto pertencer, os franceses brancos, os suíços brancos, os luxemburgueses brancos.
“É um facto que aqueles que foram migrantes no passado se viram contra os novos imigrantes. Vivem nos mesmos espaços, trabalham nos mesmos empregos e os antigos imigrantes querem mostrar que estão integrados, sentem que já pertencem àquela sociedade. É um fenómeno sociológico muito interessante e muito comum”, explica o sociólogo e geógrafo holandês Hein de Haas, um dos grandes especialistas mundiais sobre as migrações, numa entrevista à VISÃO.
A ilusão do sentimento de pertença – uma legítima busca primitiva, de sobrevivência, traduzida na inclusão num grupo social – não é apanágio de quem emigra. Vemo-la por todo o lado, em casa, no bairro, na comunidade vizinha, no local de trabalho, nas redes sociais. A ilusão está na necessidade tóxica de aprovação e reconhecimento social. Trabalhadores que se identificam mais com o mundo do patrão do que com os problemas dos seus pares, mulheres que julgam outras mulheres quando estas denunciam abusos de género, crianças que sofreram bullying e se tornam bullies…
O mundo é dos fortes e mais vale estar na mó de cima do que na de baixo. E será que somos, de facto, aceites lá em cima, apesar de termos sacrificado empatia, compaixão e o afeto do nosso grupo de origem? Há sempre um preço a pagar, mas já que o pagaram, sejam bem-vindos à lei da selva.