Há qualquer coisa de profundamente desconcertante na forma como Portugal escolhe, por estes dias, aquilo que merece a nossa atenção. Durante horas e horas, os noticiários, os jornais, as televisões e as redes sociais parecem convergir num único assunto, Cristiano Ronaldo.
Não está em causa o valor de Ronaldo. Muito menos o reconhecimento que merece enquanto um dos maiores desportistas portugueses de sempre. O seu percurso, a sua dimensão internacional e a sua importância para o desporto português justificam, naturalmente, atenção mediática.
O problema começa quando essa atenção se transforma em quase exclusividade.
Enquanto o País discute Ronaldo, há milhões de portugueses a enfrentar problemas bem mais prosaicos, mas que determinam todos os dias a sua qualidade de vida. A habitação continua a ser uma das maiores preocupações das famílias. As rendas pesam cada vez mais nos orçamentos. Os combustíveis continuam caros. A eletricidade e o gás representam uma fatia significativa das despesas mensais. E, para muitas famílias, chegar ao fim do mês continua a ser um exercício de equilíbrio.
É legítimo perguntar, onde está o debate sobre estes problemas?
Não se trata de exigir que a comunicação social ignore Ronaldo. Trata-se, isso sim, de questionar a proporção. Uma sociedade democrática precisa de informação, mas precisa também de hierarquia na informação. Nem todos os assuntos têm o mesmo impacto na vida das pessoas e, por isso, não deveriam ocupar o mesmo espaço na agenda pública.
A comunicação social tem um papel fundamental na formação da opinião pública. Quando um determinado assunto domina durante horas a televisão, as rádios, os jornais e as redes sociais, outros temas ficam inevitavelmente para segundo plano e isso não é indiferente.
Uma família que procura desesperadamente uma casa para arrendar não vê a questão da habitação como um assunto secundário. Um trabalhador que percorre dezenas de quilómetros diariamente para chegar ao emprego não olha para o preço dos combustíveis como uma notícia de rodapé. Um reformado que recebe uma pensão limitada sente diretamente cada aumento da eletricidade, do gás ou dos bens essenciais.
São estas pessoas que deveriam estar no centro do debate público.
E há ainda uma outra questão que merece reflexão que tem a ver com o papel dos responsáveis políticos perante esta agenda mediática.
Que mensagem transmite um primeiro-ministro quando, perante um acontecimento relacionado com Ronaldo, Jesus e Proença, entende ser necessário estabelecer contactos e manifestar publicamente a sua atenção? É perfeitamente legítimo que um chefe do Governo reconheça figuras relevantes do País e do desporto. O problema não está necessariamente no gesto em si, está naquilo que ele simboliza quando comparado com a atenção política dada aos problemas concretos dos cidadãos.
Um Governo deve estar onde estão as preocupações das pessoas. Deve discutir a habitação quando milhares de jovens adiam projetos de vida porque não conseguem suportar uma renda. Deve discutir o custo da energia quando as famílias fazem contas para perceber se conseguem pagar todas as despesas. Deve discutir os transportes, os salários, a saúde, a educação e a segurança quando estes temas condicionam diariamente a vida dos portugueses.
A política não pode transformar-se numa extensão da agenda mediática.
E a comunicação social também não pode esquecer que informar não é apenas acompanhar aquilo que gera mais audiência, mais cliques ou mais comentários. O jornalismo tem uma responsabilidade social que é investigar, questionar, contextualizar e trazer para o espaço público os problemas que, muitas vezes, não têm rosto nem protagonismo.
Ronaldo tem rosto. Tem milhões de seguidores. Gera audiências. É notícia.
Mas uma família que não consegue pagar a renda não tem milhões de seguidores. Um jovem que continua a viver em casa dos pais porque não consegue comprar ou arrendar uma habitação não é uma celebridade. Uma pessoa que reduz o aquecimento porque a fatura da energia aumentou não faz manchetes.
E, no entanto, são estas histórias que ajudam a explicar o País real.
Portugal não pode ser apenas aquilo que ocupa os ecrãs durante 24 horas. Há um país que trabalha, que paga impostos, que enfrenta aumentos de preços, que espera por uma consulta, que procura casa, que leva os filhos à escola e que tenta construir um futuro com recursos cada vez mais limitados.
Esse país também merece atenção. Aliás, talvez mereça muito mais atenção.
Não se trata de escolher entre Cristiano Ronaldo e os problemas dos portugueses. Essa é uma falsa questão. Podemos celebrar os nossos campeões e, simultaneamente, exigir respostas para os problemas estruturais do País. Podemos admirar Ronaldo sem transformar Ronaldo no centro permanente da agenda nacional. Podemos reconhecer o mérito de uma figura pública e, ao mesmo tempo, perguntar ao poder político se está a dedicar a mesma energia aos problemas que afetam milhões de cidadãos.
No fundo, a questão é simples, quais devem ser as prioridades de um país?
Um país saudável não é aquele que deixa de celebrar os seus ídolos. É aquele que consegue celebrá-los sem esquecer quem enfrenta dificuldades todos os dias.
Portugal precisa de menos distração e mais discussão sobre aquilo que realmente importa. Habitação. Custo de vida. Energia. Saúde. Educação. Salários. Segurança. Transportes. É sobre isto que deveríamos estar a falar.
Porque, quando amanhã os holofotes se apagarem e Ronaldo deixar de ser o assunto do dia, as rendas continuarão a chegar. As faturas continuarão a aparecer. Os combustíveis continuarão a ser pagos. E as famílias continuarão a fazer contas.
A pergunta, por isso, permanece, que país queremos ser? Um país onde a agenda pública é definida pelo assunto que mais chama a atenção? Ou um país capaz de olhar para além dos holofotes e discutir, com seriedade, aquilo que verdadeiramente condiciona a vida dos portugueses? Essa escolha diz muito sobre o país que somos.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.