Opinião

"Nós somos a maioria, eles são o 1%"

“Nós somos a maioria, eles são o 1%”, diz Sanders. Enquanto assisto à queda dos princípios de igualdade perante a lei, justiça e liberdades individuais no prometido oásis das democracias ocidentais, a ideia de Sanders parece a única esperança possível. “Nós somos a maioria, eles são o 1%”

Margarida Davim
Tudo é política

As portas para pobres e o teste da frigideira

Há muito quem ainda não tenha percebido em que classe está. Mas vi há tempos o humorista espanhol Miguel Maldonado propor um teste que me pareceu muito bem visto. “Se para usar uma frigideira tens de tirar outra de cima, é porque não és de classe alta”

Margarida Davim
Tudo é política

Tanto fez que agora tanto faz?

Nada é mais estável do que uma ditadura. Sob uma ditadura, não há crises políticas nem escândalos. Imaginem o sossego! Acabam-se as notícias sobre casos, casinhos e megaprocessos. Acabam-se mesmo as notícias. Ninguém faz perguntas e ninguém chateia

Margarida Davim
Tudo é política

O saber não ocupa lugar?

Uma vez, um amigo (que por sinal é engenheiro informático e trabalha numa empresa de IT) disse-me que um dia olharemos para as imagens de crianças com ecrãs nas mãos com o mesmo horror que hoje nos causam as fotografias de menores a fumar ou a trabalhar em fábricas. Se chegarmos a esse dia, ainda haverá alguma esperança

Margarida Davim
Tudo é política

Trabalhos de pobre

A ideia de que o trabalho nos define está, cada vez mais, fora de moda. E talvez haja um lado muito positivo nisso. Mas o desprezo por aquilo que se faz é também um sintoma de uma sociedade deslassada, que endeusa o ilusório mérito individual e perde de vista a força do que se produz num coletivo. Estamos cada vez mais pobres. E é de espírito

Margarida Davim
Tudo é política

A armadilha do senso comum

Quem acredita que a democracia se pode construir como o reino de um “senso comum” guiado pelo “puro bom senso” está, mesmo que não se aperceba disso, a abrir caminho para uma submissão aceite sem crítica

Margarida Davim
Tudo é política

Os filhos são um empecilho

O que é impensável é exigir um sistema justo, com salários dignos e horários regulados. Que o Senhor nos livre dessas utopias. Abençoadas Marias, é vossa toda a glória, mas por agora fiquem-se com a culpa que vos mói quando o relógio bate nas 16h30

Margarida Davim
Tudo é política

Quem não deve não teme?

Há quem não faça ideia de que se pode temer sem dever. E que esse é o verdadeiro perigo e a maior de todas as inseguranças. Talvez hoje nos pareça que não devemos nada a ninguém e que, por isso, estamos a salvo. Mas quando as garantias dos cidadãos se esboroam, ninguém sabe ao certo se deve ou não e todos (ou quase todos) passam a temer

Margarida Davim
Videovigilância | Reconhecimento facial
Tudo é política

Nas nossas costas, enquanto escolhermos não olhar

O sonho de controlo de qualquer ditador passa agora a estar disponível às forças de segurança num dos maiores blocos da democracia ocidental. Alguém se lembra de um debate sobre o tema? Quantos sabiam que estas novas regras estavam a ser cerzidas nas nossas costas? Andamos certamente distraídos. Ou deixámos simplesmente de nos importar?

Margarida Davim
Tudo é política

Nós não comemos gelados com a testa

O que importa a verdade? Nada, porque ela não nos sossega. Se o que nos inquieta é o salário que não estica, o médico que não nos atende, a escola onde falta o professor, a casa que não temos como pagar, a indignação tapa-nos o buraco da alma, o ódio dá-nos o conforto da explicação

Margarida Davim
Tudo é política

Repitam comigo: Não somos bilionários e nunca seremos

A obsessão pelas marcas e pelos sinais de luxo faz parte desta ideologia que nos distancia da nossa própria condição social. No caso dos mais pobres pode ser um IPhone, para os remediados uma viagem a Punta Cana, para alguém um pouco mais desafogado uma refeição num restaurante com estrelas Michelin

Margarida Davim
Carta aos jornalistas
Tudo é política

Para que serve o jornalismo?

Escrevo este texto em dias de grande perturbação para a redação da VISÃO. Vivemos numa enorme incerteza. E haverá quem culpe o mercado, quem nos diga que é o futuro inexorável que aí vem, com os seus algoritmos e inteligências artificiais, quem ache que não faremos falta e quem se regozije com a possibilidade de ver desaparecer quem interroga, quem incomoda, quem escrutina e expõe. A todos gostaria de pedir que parassem para pensar e imaginassem esse futuro sem jornalismo

Margarida Davim
Opinião

Endireita as costas!

“Caladinha é que tu estás bem”, “havias de ser violada por um indiano”, “quando fores raptada logo vês”, “calada, és uma puta”, “tem vergonha”, “tem juízo”. “És bonita, é pena seres tendenciosa”, “deves ter a mania que és inteligente”. As mensagens são constantes, quase sempre acompanhadas de comentários ao aspeto físico, sempre que falo em público para denunciar o racismo, a xenofobia, o ódio e a manipulação. Quando as leio, endireito um pouco mais as costas.

Margarida Davim
Tudo é política

A moral é obrigatória para os pobres

Não é difícil imaginar que Lor Neves tenha de ouvir muitas vezes um “vai para a tua terra”. O que exige muito mais imaginação é pensar que um dos 50 estrangeiros a quem o Estado português deu em 2023 uma borla fiscal de 262 milhões de euros tenha alguma vez ouvido coisa semelhante. Ao todo, estes imigrantes ricos receberam do Estado benefícios fiscais que nos custaram 1,3 mil milhões de euros no ano passado. Mas isso não causa sobressalto

Margarida Davim
Tudo é política

O poder voltou às catedrais

Mesmo que muitas vezes de forma limitada e imperfeita, a democracia é o sistema em que o princípio do voto universal dá poder aos que o não têm. Durante quanto tempo poderemos continuar a usar essa palavra para descrever um sistema em que o poder está nas mãos de um grupo restrito de pessoas que age em seu próprio benefício?

Margarida Davim
Granadas de mão e munições roubadas nos Paióis de Tancos
Opinião

O Presidente Rei era o futuro de um passado que desfizemos

Este país parece órfão, sempre à espera de um pai. Olho para trás cem anos. A História já quase lhe apagou o nome, que resiste em avenidas, cravado na pedra, escrito em moradas, já sem emoção. Sidónio Pais. Alguém sabe quem é? Era um homem numa farda, alto, bonito, de olhos doces

Margarida Davim
Opinião

Olhar o passado nos olhos, mesmo que doa

Nada é eterno. Durante 48 anos, o meu avô acreditou viver naquele que era aos seus olhos o melhor e o mais justo dos regimes. Nesses anos, milhares de portugueses viveram na miséria, calados, com medo, com fome de tudo, mas sobretudo de liberdade. Eram muitos, mas não foram os suficientes. E talvez nunca tivessem sido, se a guerra colonial não tivesse tornado absolutamente insuportável o que até aí a maioria aguentava, mais ou menos resignada

Margarida Davim
Tudo é política

As mulheres metem medo

A ideia de que há uma guerra entre géneros só favorece os homens que odeiam as mulheres. E eu acredito que nem todos os homens odeiam as mulheres. Mas por algum motivo estamos a deixar que regresse uma retórica bafienta que pensávamos enterrada num passado de horrores. Mesmo que não pareça, este é o tempo de falar de amor. E de olhar para o exemplo de Ahoo Daryaei, abraçando-nos para segurar o medo que temos por dentro, enquanto enfrentamos quem nos teme. Não, não temos de nos esconder

Margarida Davim
O papel é mau para o ambiente. Mito ou realidade?
Tudo é política

A declaração de amor que não devia ter escrito

As paixões são incompreensíveis e ridículas. E, por isso, estas linhas não dizem nada a quem não está apaixonado por fazer jornalismo. Soam a uma excentricidade fora de moda, uma arrogância fora de tempo, uma irracionalidade fora de pé. E é mesmo assim. É isso tudo. E é por isso que talvez não devesse tornar pública esta declaração de amor. Os amores segredam-se. Não se gritam

Margarida Davim
Tudo é política

O caminho para sair do medo

E é por aí que temos de ir, sabendo que a cada onda de medo e opressão que se aproxima, cabe-nos dar o peito e mostrar o caminho, porque ele existe, mas apenas se acreditarmos nele. Quando o começarmos a imaginar, ele começará a aparecer. E, então, estas frases de desalento parecerão apenas a memória de umas trevas que já deixámos (outra vez) para trás

Margarida Davim
Tudo é política

Um defeito de pele que está nos nossos olhos

Somos parte de uma engrenagem. Muitos dos nossos movimentos nasceram muito antes de nós. É preciso um esforço enorme para travar essa máquina e perceber como nos impele a triturar os outros

Margarida Davim