Como acontece amiúde, achei divertidíssima a última crónica do Henrique Raposo no Expresso, na qual defende que é absolutamente impossível ser-se feminista e gostar de Bad Bunny, sem se cair numa contradição mais insanável do que ser um peixe e não saber nadar. Absolutamente dramático.
Guardo na memória takes maravilhosos do brilhante cronista como o “radicalismo trans”, numa crónica em que faz questão de nos mostrar que não sabe a diferença entre sexo e género, ou o ataque ao “pessoal das bicicletas” que aparentemente são todos “insuportáveis”, ou ainda quando afirmou categoricamente que a verdadeira igualdade de género será atingida quando houver serviço militar obrigatório para homens e mulheres. Percebem? É que nada grita tanto emancipação humana como a guerra, a destruição e a morte (mas para todos).
Portanto, é na condição de intelectual feminista que nos chega este seu novo anúncio à nação. Baseia-o na existência da malfadada “casita” nos concertos de Bad Bunny, para a qual são escolhidas mulheres (e homens) que, sim, quase todas correspondem aos padrões de beleza vigentes no capitalismo (sistema nunca alguma vez criticado pelo Henrique), por uns bacanos que andam pelo recinto a fazer essa seleção.
Mas o Henrique, com a sua apurada visão monolítica dos assuntos, abstrai-se de tudo o que Bad Bunny representa de importante nesta altura (incluindo sobre feminismo, masculinidade e violência doméstica), e foca-se exclusivamente no “nojo machista” que é a “casita” para perguntar: “és feminista e aceitas a redução da mulher à condição de gado, é?”. Já agora, para que feminista é que ele está mesmo a falar? Que feminista conhecida da praça é que foi para “la casita” ser “gado”? A Maria João Faustino? Leonor Caldeira? Maria Escaja? Nada disso. Suponho que seja para Rita Pereira, única cara conhecida que esteve na “casita”, e que como sabemos é sobejamente conhecida como feminista, sendo até autora da célebre frase “não se nasce mulher, torna-se mulher”.
Mas é importante registar mais duas coisas. Primeiro, que as mulheres e homens que vão para lá, fazem-no com muita vontade e autodeterminação do seu corpo, e não se sentem “gado”. E depois, que o feminismo (interseccional) é também uma forma de resistência ao capitalismo. E acho que se queremos criticar a “casita” (que acho que tem alguma razão de ser), convém que seja com um pouco mais de substância, indo à raiz dos padrões de beleza e consumo impostos pelo capitalismo (e que contribuem de forma desumana para as inseguranças das mulheres), e não apenas com uma raivinha extemporânea pela rama. É que, assim, fica mesmo só a parecer o pináculo do mansplaining: um homem a explicar às mulheres o que é o feminismo, e como é que elas devem ser feministas.
Os textos nesta secção refletem a opinião pessoal dos autores. Não representam a VISÃO nem espelham o seu posicionamento editorial.